Nome: Narrativas dos Livros de Linhagens
Autor: José Mattoso
Editora: Temas e Debates
Páginas: 176
Preço: 15,50€

Em Narrativas dos Livros de Linhagens, publicado originalmente em 1983 e agora reeditado com chancela dupla pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, José Mattoso oferece-nos uma antologia das histórias mais emblemáticas contidas nas três principais fontes de narrativas deste género que chegaram até nós, a saber: o Livro de Linhagens do Deão, o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro e o Livro Velho de Linhagens.

A leitura desta antologia tem desde logo três significativos pontos de interesse. Em primeiro lugar, algumas das histórias aqui contidas oferecem-nos as versões conhecidas na Península Ibérica por alturas dos séculos XIII e XIV de muitas narrativas que viriam a moldar a literatura ocidental. Desde logo no primeiro capítulo da antologia de Mattoso, encontramos a versão que cá chegou das aventuras do Rei Artur e de El Cid, o Campeador, bem como uma versão truncada da história do Rei Lear e suas filhas, que viria, como é sabido, séculos mais tarde a inspirar Shakespeare para uma das suas obras mais extraordinárias. Pela diferença abismal entre a simplicidade da história aqui narrada e a magnitude do trabalho do bardo conseguimos também ter uma maior noção da grandeza do seu génio, que via em histórias relativamente triviais a possibilidade de exprimir o mais íntimo do que se passa dentro de cada um de nós.

O segundo foco de interesse é o humor de grande parte destas narrativas, um humor em muito dos casos motivado pelo rancor do cronista responsável por coligir estas histórias. É isso que encontramos, por exemplo, na história da origem da família Veloso, um apelido que, segundo o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, alegadamente adviria de uma relação incestuosa entre o rei dom Ramiro de Leão e a sua irmã, cujo fruto enjeitado pelo rei teria sido um pequeno rapaz “negro e mui feo e mui veloso [felpudo], que nom semelhava senom besta selvagem, e [o rei] mandou que lhe posessem nome Veloso” (p. 53). No entanto, nem só de rancores se faz o humor nesta antologia, como vemos na história da batalha entre o rei Artur e Mordech, movida não por considerações geo-estratégicas, mas por ambos, durante uma negociação de paz, terem desatado a perseguir uma grande serpente. Graças a esta perseguição, “as gentes que estavam longe virom que ia uu apos o outro, e forom-se ferir uas azes com outras, e foi grande a batalha” (p. 26).

Finalmente, a antologia destas histórias mostra-nos o considerável número de vezes em que guerras medievais se ficavam a dever a ciúmes gerados por mulheres ou a birras de soberanos, que traziam invariavelmente consigo a morte de centenas ou milhares de fidalgos e a devastação das terras de que o povo tanto dependia.

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No entanto, as maiores virtudes da obra de Mattoso não são essas. Por um lado, estas Narrativas dos Livros de Linhagens oferecem-nos um vislumbre do talento do Refundidor de 1380, que, pouco preocupado com a verdade dos factos, ressuscita algumas personagens, inventa outras e introduz anacronismos significativos, apenas para servir os seus interesses e criar histórias que entretivessem quem as ouvisse, sendo por isso bem mais um ficcionista do que propriamente um historiador respeitável. Por outro lado, e mais assinaláveis, são os textos de Mattoso que antecedem as narrativas, cujo proveito vai muito para além do contexto e resumo do que nelas viremos a encontrar.

No prefácio que, em 2000, Mattoso acrescentou à edição de 1983, o historiador dá-nos uma rara lição de humildade sobre o que deve ser o trabalho de alguém que vive da interpretação de textos. Mattoso não tem o mínimo pudor em reconhecer que muitas das soluções a que tinha chegado na primeira versão da obra vieram a provar-se destituídas de fundamento, reconhecendo que as interpretações feita por historiadores que se seguiram é mais válida e permitem melhor compreender o que nestes textos se está, de facto, a passar. Mattoso reconhece ainda que mesmo as conclusões a que chegava agora, ainda que introduzam avanços significativos ao que concluíra em 1983, não devem por isso ser vistas, sob nenhum ponto de vista, como definitivas e apela a “que os investigadores interessados nestes assuntos possam esclarecer melhor o que aqui fica ainda obscuro” (p. 15).

Com Mattoso aprendemos que só através de uma postura com esta honestidade intelectual se pode começar a interpretar textos, uma vez que só abordando o trabalho crítico como necessariamente provisório podemos reconhecer a complexidade de um esforço que implica sempre não uma análise fria e objetiva dos factos (que, aliás, raramente estão acessíveis), mas uma interpretação subjetiva e por isso falível de motivações e interesses. Assim, Mattoso explica-nos que, particularmente na análise de obras que tem como objetivo primário estabelecer a forma como a posteridade encararia as linhagens das famílias fidalgas de Castela, Galiza e Portugal, estas narrativas visam acima de tudo traçar distinções, enaltecer homens de cujo favor os cronistas dependiam e, muitas das vezes, encontrar a melhor maneira de inferiorizar inimigos vistos como ameaças.

joaopvala@gmail.com