Neste novo episódio, o tenista português Frederico Gil é acompanhado pelo Dr. António Diniz, Coordenador da Unidade de Imunodeficiência do Centro Hospitalar Lisboa Norte, em olhar para a história de triunfos de Arthur Ashe, o tenista americano, e imaginar: que outros papéis teria assumido no ténis e no activismo se não tivesse morrido prematuramente com SIDA?

Um atleta e um ícone

A morte de Arthur Ashe por complicações causadas pela infecção por VIH é especialmente forte devido ao papel que tinha nas suas comunidades – a do ténis e comunidade afro-americana.

“Os seus feitos desportivos foram incríveis, especialmente para um afro-americano nos anos 60, e a jogar ténis – um desporto tradicionalmente elitista”, começa por explicar Frederico Gil. Não obstante os obstáculos, Ashe teve uma carreira no ténis recheada de feitos únicos: em 1968 tornou-se o primeiro afro-americano a ganhar o US Open e, em 1975, o torneio de Wimbledon.

A par da sua carreira exemplar no ténis, Arthur Ashe foi, essencialmente, um homem de causas. Na sua luta contra a segregação racial e os direitos civis, que o acompanhou desde o seu primeiro título, foi vocal pelo fim do Apartheid. Mais tarde, após o ataque cardíaco que o reformou, tornou-se parte da American Heart Association, e, após o seu diagnóstico com VIH/SIDA, criou a Arthur Ashe Foundation to Defeat AIDS.

Uma transfusão em um milhão

Em Setembro de 1988, Arthur Ashe foi hospitalizado após uma paralisia no braço direito que, após uma série de testes, se concluiu ser toxoplasmose, uma doença tipicamente encontrada em pessoas infectadas com VIH. Após a confirmação de que o tenista era seropositivo, os médicos conseguiram perceber a fonte de contaminação: uma transfusão de sangue feita durante a sua segunda cirurgia de bypass coronário em 1983.

“É preciso lembrarmo-nos do seguinte: nós estávamos em 1983”, explica António Diniz.

Os primeiros casos de infeção por VIH sucederam-se nos EUA em 1981. Nesta altura, os esforços científicos estavam concentrados na identificação do vírus, compreensão da doença e caracterizar o risco de infecção em vários parâmetros. Apesar de evidências de que a infecção se transmite através de sangue e contacto sexual, estimava-se que o risco de infecção através de transfusões fosse baixo – “uma transfusão num milhão” -, pelo que as políticas de segurança de sangue ficaram inalteradas até 1983.

O vírus do VIH/SIDA foi isolado em 1983, simultaneamente em França e nos EUA, o que permitiu que parte da pesquisa se concentrasse nos aspectos biológicos da transmissão da doença e respostas do corpo humano. Assim, durante o ano de 1984, várias empresas começaram a desenvolver um teste para detectar os anticorpos produzidos em resposta ao vírus, e assim indicar exposição ao VIH.

O primeiro teste, conhecido como ensaio de imunoabsorção enzimática, ou ELISA, foi aprovado para uso em Março de 1985. Este teste conseguia detectar entre 96-98% de amostras de sangue infectado. No entanto, devido à sua alta sensibilidade, falsos positivos eram comuns. Por esta razão, foi criado um segundo teste, chamado Western Blot, que apesar de mais caro, conseguia refutar ou confirmar os falsos positivos do teste ELISA.

Nenhum dos testes permitia detectar o vírus nas primeiras 6 a 8 semanas de infecção – tempo que demora a surgir as primeiras evidências de anticorpos no sangue do doador.

Apesar dos 142 americanos a contraírem VIH/SIDA através de doações de sangue serem apenas uma fração do total de 9.600 casos de infecção nos EUA, o medo de sangue contaminado era alto. Por essa razão, o teste foi implementado nos centros de doação de sangue em Abril de 1985 e, em Julho do mesmo ano, o banco de sangue disponível declarado completamente livre de VIH/SIDA.

“Se o Arthur tivesse sido operado 4 ou 5 anos depois já se faria, sem dúvida, o rastreio laboratorial do sangue disponível para transfusão nos EUA”, concluiu António Diniz.

Desde a implementação do teste ELISA inicial, novos e mais sensíveis testes foram implementados, pois permitem reduzir a janela de tempo para identificação do vírus. Graças ao uso global destes testes, o risco actual de contrair infecção por VIH através de uma transfusão de sangue é estimado ser menos de 1 em 420.000.

Uma decisão pessoal

Embora Arthur tenha, inicialmente, decidido manter o seu diagnóstico em segredo, tudo mudou no ano de 1992, quando o jornal norte-americano USA Today reportou a sua doença, forçando-o a vir a público.

“Uma pessoa revelar ou não revelar que é seropositivo é um direito que a pessoa tem, e ela só o fará se se sentir confortável com isso”, afirma António Diniz.

De acordo com a lei portuguesa, uma pessoa seropositiva não tem a obrigação legal de revelar o seu estado. As leis portuguesas conferem ao seropositivo um enquadramento legal para protecção da sua vida privada e proteção em caso de discriminação.

No entanto, estudos demonstram que pessoas que revelaram o seu estado serológico positivo a família e amigos respondem melhor ao tratamento. Ter apoio emocional e o suporte de entes-queridos é essencial para lidar com os sentimentos e emoções do diagnóstico. Podem também ser um apoio fundamental na procura e adesão ao tratamento.

“Pode ajudar-se a si própria, mas também pode ajudar a combater a discriminação. Se toda a gente admitisse que é seropositiva, é certo que a discriminação e o estigma começariam a esbater-se”, explica António.

“Aquilo que o Arthur Ashe fez foi uma tomada de posição. Na prática, o Arthur, aquilo que fez foi seguir a linha da sua vida. A vida do Arthur era uma vida de causas, a causa racial na América, a causa racial na África do Sul, e agora a causa do VIH”, remata o médico.

Indetectável = Intransmissível

Arthur Ashe acabou por falecer por complicações causadas pelo vírus do VIH em 1993. Seropositivo há uma década, considerava-se um sobrevivente longo da infecção, sendo que cerca de 10 anos seria a vida expectável para um diagnosticado.

No entanto, a introdução da terapêutica retroviral tripla, em 1996, teria afectado enormemente a esperança média de vida do tenista. “Ele não apanha essa época… parece que é sempre a altura errada!”, comenta António. Hoje em dia, a esperança média de vida de um doente com VIH/SIDA é semelhante à da população geral.

“Hoje, a eficácia dos tratamentos é enorme, mas foi-se mais além. E o tratamento funciona também como prevenção da própria doença.” António refere-se ao conceito de Indetectável = Intransmissível, uma descoberta recente na área do combate ao VIH/SIDA.

Uma pessoa infectada que está em tratamento antirretroviral consistente, ao atingir a carga viral negativa – isto significa que o vírus não é detectado no sangue através das ferramentas tradicionais – não transmite o vírus a outras pessoas.

Em 2011, um estudo demonstrou que a utilização regular de tratamentos antirretrovirais reduz o risco de infecção entre casais em mais de 96%. Esta descoberta, comprovada por vários estudos em anos recentes, foi uma das maiores conquistas da luta contra o VIH/SIDA.

Tudo aponta para que a terapêutica seja a melhor ferramenta no combate à disseminação do vírus: por cada aumento de 10% de cobertura dos tratamentos antirretrovirais a infectados, existe uma quebra de 8% na existência de novos diagnósticos.

Os dados mais recentes, de 2018, demonstram que 62% de todas as pessoas infectadas globalmente com VIH tinham acesso a tratamento. Desses, 53% tinham carga viral suprimida.

“Isto é importante por várias razões.” conclui António. “Primeiro, para a pessoa, depois para quem é uma tranquilidade saber que não transmite e ainda para as pessoas com quem se relaciona também. Mas tem outro efeito que é tão importante: isso ajuda de forma decisiva a combater o estigma e a discriminação.”

O tratamento correcto e prevenção real do vírus do VIH foi um dos cavalos de batalha de Arthur Ashe, que usou a sua posição enquanto herói do desporto para batalhar o vírus do VIH/SIDA através da sua fundação. E se ele tivesse tido acesso às terapêuticas modernas? Como teria continuado esta luta?