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William Wordsworth: o poeta da natureza e da vida simples nasceu há 250 anos /premium

Chamaram-lhe o "poeta da humanidade", mas era à natureza, bela e assustadora, que Wordsworth dedicava a maioria dos seus poemas. A simplicidade da sua linguagem e temas revolucionou a poesia inglesa.

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William Wordsworth deixou-se encantar pela beleza natural do norte de Inglaterra, onde passou maior parte da sua vida. O Lake District é a paisagem dos seus poemas

Wikimedia Commons

William Wordsworth deixou-se encantar pela beleza natural do norte de Inglaterra, onde passou maior parte da sua vida. O Lake District é a paisagem dos seus poemas

Wikimedia Commons

Esta terça-feira, assinalaram-se os 250 anos do poeta inglês William Wordsworth. A data, que deveria ter sido celebrada com poupa e circunstância, passou quase silenciosa. Em Portugal, onde o aniversário era para ser assinalado com um congresso, uma pequena exposição e a reedição do diário da filha de Wordsworth, escrito durante a sua passagem por território nacional, nada aconteceu; em Inglaterra, os correios lançaram um selo comemorativo, alguns jornais lembraram-no como o grande poeta da natureza e o príncipe Carlos, patrono do The Wordsworth Trust, leu um excerto do poema “Tintern Abbey” para a BBC Radio 4, um tributo à extraordinária e profunda do capacidade do poeta de captar “o poder da natureza”, que sempre o impressionou — homenagens modestas dirigidas a um escritor cuja escrita, revolucionária, mudou para sempre a poesia inglesa e cuja influência perdurou tão longe no tempo.

“Bardo supremo da natureza”, como lhe chamou recentemente a The Economist, Wordsworth soube observar a beleza quieta da paisagem rural inglesa, numa altura em que, na sequência da Revolução Industrial, a população fugia para as grandes cidades, barulhentas e sobrepovoadas. Ao aproximar-se do que era natural e simples, através da escolha de temas rurais e da utilização de uma linguagem que se pretendia mais próxima da que era usada no dia a dia, Wordsworth afastou-se do que era artificial, quebrando com os antigos valores da poesia neoclássica e aproximando-se do que viria a ser a poesia romântica de poetas como Shelley, Keats ou Byron. A sua poesia, mais sincera, era nas suas próprias palavras um “transbordar de sentimentos poderosos”, um remédio para a alma em tempos difíceis e conturbados, que continua a ser válido ainda hoje.

Esta ligação profunda com a natureza surgiu em criança. William Wordsworth, que nasceu a 7 de abril de 1770, em Cockermouth, foi enviado pelos tios para uma escola em Hawkshead, no coração do Lake District, após a morte dos seus pais, antes de completar 14 anos. Foi nesta região, conhecida pela sua beleza natural, que Wordsworth desenvolveu o amor pelo mundo natural que haveria de marcar muitos dos seus poemas. É, aliás, dos tempos de infância que datam as suas primeiras composições poéticas, embora tivessem de passar muitos anos até se estrear no mundo da publicação. Entre os anos de 1778 e 1791, frequentou o Sr. John’s College, em Cambridge, uma experiência que poucas marcas lhe terá deixado, já que concluiu apenas com nota suficiente para conseguir passar.

O lago Buttermere, no chamado Lake District. William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge ficaram conhecidos como os "Lake Poets"

PA Images via Getty Images

Foi, contudo, neste período que fez uma importante viagem à Suíça e a França, realizada apenas um ano depois da Revolução Francesa, durante o verão de 1790. O ambiente que se vivia no país causou grande impressão no poeta, que se tornou simpatizante dos ideais republicanos. De tal forma que, após a conclusão do curso em Cambridge, regressou imediatamente a França, onde iniciou um relacionamento com uma francesa, Annette Vallon, de quem teve uma filha, Caroline, em 1792. Problemas financeiros e também a tensão entre franceses e ingleses obrigaram-no a regressar em Inglaterra um ano depois. O escalar da situação em França, que lhe causaria grande desgosto, fez com que só conseguisse voltar a ver a filha nove anos depois.

Poema: "Ela Habitou os Virgens Trilhos" ("She Dwelt Among the Untrodden Ways"

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Ela habitou os virgens trilhos
De onde nasce o Dove,
Não teve de ninguém estribilhos
E amor de poucos houve:

Atrás de uma musgosa pedra
Uma violeta escusa!
— Gentil qual astro, quando uma medra
E um só no céu se acusa.

Viveu ignota, e poucos deram
Pla Lucy, que ora jaz;
Na campa está e a depuseram.
A falta que me faz!

Poema intitulado em inglês “She Dwelt Among the Untrodden Ways”. Faz parte dos chamados “Lucy Poems”, sobre uma figura feminina chamada Lucy

Tradução de Daniel Jonas (2018)

O resto da década de 1790 acabaria por se revelar um dos períodos mais difíceis de Wordsworth, mas também mais importantes para o desenvolvimento da sua futura carreira literária. Nos anos que se seguiram ao seu regresso a Inglaterra, sem profissão e sem dinheiro, começou por viver em Londres, onde estabeleceu contacto com revolucionários (nomeadamente o pensador William Godwin, que viria a casar com a feminista Mary Wollstonecraft, em 1797) e com a defesa dos pobres e vítimas de guerra, preocupações que expressou nos poemas dessa altura. Tudo mudou quando, em 1795, recebeu uma herança que lhe possibilitou mudar-se com a irmã Dorothy, de quem sempre tinha sido próximo, para Somerset, perto de Bristol. Nunca mais se separaram. Foi nessa localidade que, ainda nesse ano, Wordsworth conheceu o também poeta Samuel Taylor Coleridge, com quem estabeleceu uma importante parceria literária, que culminaria na publicação de um volume conjunto de poesia, o importantíssimo Lyrical Ballads.

Lyrical Ballads: falar do romantismo ainda antes de ele existir

A ideia para o que viriam a ser as Lyrical Ballds nasceu em 1797, quando Wordsworth, a irmã Dorothy e Coleridge fizeram uma viagem por Quantock Hills, em Somerset. Cada um deveria escrever um poema acerca da experiência, que depois seria enviado para uma revista. Nos meses seguintes, o projeto cresceu e a ideia de editar um volume completo de poesia nasceu. Foi assim que, no outono de 1798, foi publicado o livro Lyrical Ballads, with a Few Other Poems, um marco na carreira de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, mas também na história da poesia inglesa. O livro inclui alguns dos poemas fundamentais dos dois poetas, como “Lines Written a Few Miles above Tintern Abbey”, de Wordsworth, e “The Rime of the Ancient Mariner”, de Coleridge.

O volume ficou também conhecido pelo seu prefácio, escrito para a segunda edição da obra, em 1800, e revisto para a terceira, em 1802. A primeira edição incluía apenas um pequeno “Advertisement” (Wordsworth achava que os seus leitores não estavam interessados em ler uma defesa sistematizada da sua poesia), que William Wordsworth depois desenvolveu para explicar os conceitos em torno dos quais as baladas — que em 1798 tinha classificado como “experiências” — tinham sido escritas e o que entendia por “boa poesia”. Ao fazê-lo, expôs, antes do seu tempo, alguns dos princípios fundamentais da poesia romântica, o que levou a que o texto ficasse posteriormente conhecido como o “manifesto do romantismo”.

Samuel Taylor Coleridge nasceu em 1772, em Ottery, a 16 quilómetros de Exeter. Morreu em 1834, mais de uma década antes de Wordsworth

Wikimedia Commons

No prefácio, Wordsworth esclareceu, entre outras questões, que as composições poéticas ali reunidas tinham como objetivo descrever “eventos e situações da vida comum”, através de “uma seleção de linguagem realmente usada pelo homem; e, ao mesmo tempo, dar-lhe um certo colorido da imaginação, de modo a que coisas normais sejam apresentadas de forma invulgar”. Recusando os princípios da poesia neoclássica, que exigiam a utilização de uma linguagem mais elaborada, que se elevasse acima do discurso do quotidiano, Wordsworth explicou que tentou fazer com que os seus poemas fossem interessantes não pela “ostentação” da arte poética em si, mas pelas “leis primordiais da natureza”. Assim, tentou aproximar a sua poesia da vida simples e comum, onde os “sentimentos elementares” conseguem viver “num estado de maior simplicidade”.

Wordsworth escolheu para as suas baladas temas relacionados com a “vida rústica” porque, “nessas condições, as paixões essenciais do coração encontrar um solo melhor no qual podem amadurecer, estão menos restringidas, e falam uma linguagem mais simples e enfática”. Esta linguagem era, segundo o autor, “mais filosófica” do que a geralmente usada pelos poetas do seu tempo, que julgavam que “conferiam mais honra” a si mesmos e à sua arte se utilizassem frases artificiais, complexas e construídas ao seu gosto. “Nessas condições de vida [simples e junto da natureza] os nossos sentimentos elementares coexistem num estado de maior simplicidade, e, consequentemente, podem ser contemplados  mais fielmente e mais forçosamente comunicados; (…) e por fim, porque nessas condições as paixões do homem são incorporadas com as belas e permanentes formas da natureza”, defendeu.

Poema: "Versos escritos no começo da Primavera" ("Lines Written in Early Spring")

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Mil notas eu ouvi na sombra
Deitado eu em verde prado,
Naquele doce humor que ensombra
De súbito o bom estado.

A natureza aos seus portentos
Uniu a minha alma jovem;
E ao meu coração traz lamentos
Plo que o homem fez do homem.

Por prímulas em seu verdor
A pervinca abriu os festões;
E eu estou em crer que cada flor
A gozo enche os pulmões.

Os pássaros ledos pulavam;
Não meço pensamentos
Mas os saltinhos que ensaiavam
Eram contentamentos.

Os brotos nos seus leques vinham
Colher o ar ventoso;
E quero crer que em si se tinham
Ditosos no seu gozo.

Se foi o céu que mo fez crer,
Se quer por natural que o tomem,
Não hei-de então eu mais sofrer
Plo que o homem fez do homem?

Poema publicado na primeira edição das Lyricall Ballads, com o título “Lines Written in Early Spring”

Tradução de Daniel Jonas (2018)

Aproximando-se do que viria a ser explorado pelos poetas românticos, Wordsworth defendeu que a poesia era a imagem do homem e da natureza, “imortal como o coração do homem”, e por isso “o mais filosófico de todos os tipos de escrita”, porque o seu objetivo era verdadeiro. Nesse sentido, a “boa poesia” não podia ser artificial, mas antes um “transbordar de sentimentos poderosos”. Já o poeta distinguia-se dos demais pela sua grande sensibilidade e entusiasmo, ternura e conhecimento da verdadeira natureza humana; era alguém mais apto a pensar e a sentir espontaneamente e que tinha uma maior facilidade em exprimir pensamentos e sensações. Tal como a poesia que compunha, também ele transbordava de sentimentos poderosos. Por essa razão, devia trabalhar sem qualquer restrição, além da de ter de oferecer prazer a quem o lia.

Esta profundidade moral e complexidade psicológica no tratamento das temáticas abordadas era algo que não existia antes de Wordsworth e das Lyrical Ballads. Além disso, ao aproximar a linguagem da poesia à linguagem do quotidiano, nomeadamente através da utilização de um vocabulário mais simples, William Wordsworth mergulhou num experimentalismo linguístico e estilístico que desafiou as conceções anteriores. A sua poesia, mais até do que a de Coleridge, e o seu prefácio às Lyrical Ballads, marcaram um momento de viragem, que iria conduzir ao surgimento do movimento romântico, para o qual o ato da criação artística estava intimamente ligado aos domínios da imaginação, do sonho ou do inconsciente, e sujeita ao temperamento do próprio artista.

Grasmere, o afastamento de Coleridge e o fim da escrita

William Wordsworth passou o inverno que se segui à publicação das Lyrical Ballads na Alemanha, na companhia de Dorothy. Na localidade de Goslar, na Saxónia, o poeta experimentou um isolamento extremo, que resultou nalguns dos seus poemas mais emotivos, como as elegias “Lucy” e “Matthew”, e os primeiros rascunhos do seu poema autobiográfico The Prelude. De volta a Inglaterra, já no decorrer de 1799, incorporou algumas dessas produções poéticas na segunda edição das Lyrical Ballads, nomeadamente os poemas pastorais “The Brothers” e “Michael”. Foi também durante este período que Wordsworth compôs os versos que viriam a compor o seu segundo livro de poesia, Poems, in Two Volumes, que saiu em 1807. Este inclui o famoso “I Wandered Lonely as a Cloud” (também conhecido em inglês como “Daffodils”), escrito em 1804, quando o poeta já estava instalado em Grasmere, na Dove Cottage, para onde se mudou com Dorothy no final de 1799.

Poema: "Passava só como uma névoa" ("I Wondered Lonely as a Cloud")

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Passava só como uma névoa
Que sonda montes e valados,
Quando, oh, de súbito uma révoa,
Um mar de Narcisos dourados;
Ao pé do lago, da ramagem,
Vibrando, dançando na aragem.

Pareciam estrelas em revista
Que piscam lá na láctea via,
Em renques a perder de vista
Orlando a margem da baía:
Dez mil cabeças vi ali,
Meneando-se num frenesi.

Dançava a água lento par,
Tentando emular a alegria:
Não iria um poeta exultar
Com tão jucunda companhia?
Olhei — e olhei — mas sem noção
De quão preciosa era a visão:

Pois quando num torpor me deito,
Ocioso ou em contemplação,
Eis que me piscam no meu peito
Que é a bênção da solidão,
E a alma me enchem de sorrisos,
E dentro danço com Narcisos.

Poema escrito em Town-end, Grasmere, com o título “I Wondered Lonely as a Cloud”

Tradução de Daniel Jonas (2018)

Em 1802, Wordsworth casou com Mary Hutchinson, amiga de longa data, dos tempos de infância. Dorothy continuou a viver com ele. Os anos seguintes foram dos mais difíceis da sua vida — dois dos seus filhos e o os seu irmão John morreram, e Dorothy teve um esgotamento; desiludido com a situação em França, tornou-se mais conservador, afastando-se dos ideais revolucionários que o tinham inspirado na juventude. É também deste período que data o fim da amizade com Coleridge. O início da amizade entre os dois marcou-os profundamente, e o seu afastamento não foi menos importante — alguns investigadores defendem até que, depois de 1808, Wordsworth e Coleridge não voltaram a escrever poesia como aquela que criaram a partir de 1797. Em 1813, Wordsworth voltou a mudar-se, desta vez para Ambelside, entre Grasmere e Rydal Water. Continuou a escrever, embora sem a regularidade dos tempos de juventude.

As últimas décadas de vida trouxeram-lhe o reconhecimento há muito merecido. Em 1838 e 1839, foram-lhe atribuídos doutoramentos honoris causa pelas universidades de Dublin e Oxford, depois do poeta e académico John Keble lhe ter chamado o “poeta da humanidade”; em 1842, foi-lhe atribuída uma pensão de 300 libras anuais pelo governo e, no ano seguinte, tornou-se Poeta Laureado na sequência da morte de Robert Southley, uma honra que começou por recusar por já ser demasiado velho, mas que aceitou depois de o primeiro-ministro Robert Peel lhe garantir que não lhe seria exigido nenhum trabalho. Depois da morte da filha Dora, em 1847, Wordsworth deixou totalmente de escrever.

William Wordsworth viveu na Dove Cottage, em Grasmere, entre 1799 e 1813. É na antiga casa do poeta que hoje funciona o The Wordsworth Trust

De Agostini via Getty Images

William Wordsworth, o poeta da natureza e da vida simples, morreu a 23 de abril de 1850, aos 80 anos. Foi sepultado no cemitério da igreja de St. Oswald, em Grasmere, no seu querido Lake District. Aquela que é considerada a sua obra-prima, o poema autobiográfico The Prelude, foi publicada alguns meses depois pela sua viúva, Mary, com o subtítulo Growth of a Poet’s Mind (“O crescimento da mente de um poeta”). Wordsworth tinha começado a trabalhar em The Prelude, um relato da sua vida desde os dias de escola até à sua mudança para Grasmere, mais de 50 anos antes, em 1798.

A importância e influência da obra de William Wordsworth é tal que Daniel Jonas, na introdução à sua edição de poemas escolhidos do poeta inglês, afirmou que “não é necessário ler-se realmente Wordsworth para já o ter lido. Na verdade, Wordsworth vive sob a forma de uma assombração permanente verificáveis na obra de muitos poetas, nem por isso menores, que justamente poderíamos considerar agonizarem sob a ameaça do seu ascendente”.

Estes descendentes do poeta do Lake District podem encontrar-se em Inglaterra, claro, mas também fora dela. Portugal também não lhe ficou indiferente — “podíamos localizar a grande via Wordsworth em outros atalhos, em Ruy Belo, por exemplo”, escreveu Jonas, mas também na grande constelação pessoana, sobretudo em Caeiro, herdeiro da mesma poesia bucólica de pastores-filósofos com origem em Vergílio. Quando Campos tentou discutir com Caeiro o “conceito direto das coisas, que caracteriza a sensibilidade” do “Mestre”, foi precisamente a Wordsworth que recorreu, citando: “Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era nada mais”. Caeiro riu: “Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma for amarela”.

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