Começou pelas Geórgicas, o poema sobre agricultura que Vergílio escreveu antes da Eneida, mas eram as Bucólicas que Gabriel A.F. Silva mais queria traduzir. A tradução para o português, a primeira do poema pastoral em muitos anos, ficou disponível neste mês de novembro, apenas três meses depois da publicação das Geórgicas, pela editora Cotovia. O curto intervalo pode dar a ideia de que o latinista é “uma máquina que não dorme e só traduz”, mas não é esse o caso — quando a tradução da segunda obra de Vergílio foi lançada, a das Bucólicas estava praticamente terminada, como explicou Gabriel A.F. Silva numa entrevista concedida ao Observador nos escritórios da Cotovia, no Chiado, constantemente interrompida pela mascote da editora, a gata Maravilhas.

As Bucólicas, escritas provavelmente no ano 39 a.C., cinco anos depois do assassinato de Júlio César, marcam o início da maturidade poética de Vergílio. São geralmente consideradas a segunda melhor obra do poeta, logo a seguir à Eneida, o grande poema épico sobre a fundação mítica de Roma. Gabriel A.F. Silva admite que o que mais gosta na obra é a mistura “do mundo simples” com “a erudição helenística” de poetas como Calímaco e Teócrito, que serviram de modelo a Vergílio, que marcou o nascimento desse género, surgido na Grécia, em Roma.

Os temas são, ao contrário das Geórgicas, subordinadas apenas à agricultura, variados: “A Bucólica II é sobre um rapaz que está apaixonado por outro. É um monólogo, um lamento, com alusões mitológicas pontuais. A Bucólica VI, por exemplo, é muito mais complexa nesse sentido, com a canção de Sileno. O poema VI é ao estilo neotérico de Calímaco”, explicou o tradutor. “O tema vai mudando de bucólica em bucólica.” As personagens são pastores, mas pastores eruditos, conhecedores da literatura helenística. “Cantam coisas altamente alexandrinas e eruditas, com o conhecimento da poética de Calímaco. É um canto, mas artificial, moldado a partir do poeta.”

A mais recente tradução das Bucólicas foi publicada no final de novembro. A apresentação aconteceu no dia 29, na Livraria da Travessa, no Príncipe Real

Terminados os dois primeiros poemas de Vergílio, Gabriel A.F. Silva já agarrou um novo desafio: a tradução da Eneida. Quanto tempo levará, não sabe dizer. “Posso demorar três anos e serem cinco, ou posso dizer cinco e serem três. Não faço ideia”, disse ao Observador. Mas uma coisa garante: “Há-de nascer”.

Quando conversámos em agosto, por altura do lançamento das Geórgicas, ainda estava a terminar a tradução das Bucólicas, agora publicadas. Parece que foi uma tradução que fez mais rapidamente e com maior facilidade.
Sim e não. A ideia inicial era fazer uma edição conjunta com as Bucólicas e as Geórgicas. Normalmente os dois poemas aparecem juntos e raramente há edições isoladas. Como já tinha as Geórgicas [prontas] há tanto tempo e ainda não estavam publicadas, se estivesse ainda a fazer as Bucólicas, a revisão, etc., etc., [isso] ia atrasar ainda mais o processo. Assim, saíram em separado. Na verdade, quando as Geórgicas saíram, as Bucólicas já estavam praticamente todas traduzidas. Faltava uma ou duas e fazer o processo de revisão. Isso [o curto intervalo de tempo entre as duas publicações] dá a ideia de que sou uma máquina que não dorme e só traduz, mas o trabalho já estava praticamente todo feito. Claro, depois houve a revisão do professor Paulo [Farmhouse] Alberto, como já tinha havido nas Geórgicas, que demora tempo também, porque é um trabalho muitíssimo rigoroso. Se não fosse ele, a edição era totalmente diferente. Sou muito bruto a traduzir. Ele, que já tem experiência, faz uma coisa mais elegante, mais apetecível de ler. Mas sim, dá a ideia de que estalei os dedos e as Bucólicas apareceram, mas isso não é verdade.

Quais são as principais diferenças entre as Geórgicas e as Bucólicas?
A principal diferença é a estrutura. [As Bucólicas] são dez poemas, mais curtos, de temas variados, aparentemente mais simples de ler e interpretar, embora existam mil questões e problemas na obra em si. Pessoalmente, como já tinha dito [na entrevista anterior], gosto muito mais das Bucólicas. O que me agrada mais é a beleza do texto, do latim, que é muitíssimo bonito. Quem conseguir ler no original, deve fazê-lo, e quem ainda não consegue, pois deve apreender latim para o fazer. O que espero ter deixado [claro] na tradução é que se trata de poesia de primeira, de primeiríssima água, e que o português lhe faça justiça, o que nunca pode fazer totalmente.

Mas é uma das línguas que mais justiça lhe pode fazer, por ser latina e próxima do latim.
Sim, o poeta brasileiro Olavo Bilac diz [no poema “Língua Portuguesa” que é] “a última flor do Lácio”. Por isso, espero que sim. Só agora é que percebi, até porque só agora é que comecei a publicar, que tenho muitos problemas em ler o livro depois de estar publicado porque tenho medo de tudo — se vou encontrar erros, se vou encontrar gralhas, se ficou feio assim, se era melhor ou assado. Tenho sempre medo. Mas reli as Bucólicas e, de facto, acho que ficou muitíssimo bem, modéstia à parte, e devo tudo ao professor Paulo. Mas dando a volta: o que me agrada mais comparativamente [às Geórgicas] é os temas tratados. Porque há de tudo, não é só a poesia pastoril, digamos assim.

Ainda que as personagens sejam pastores.
Exatamente. Muitas vezes os pastores encobrem outras coisas. Há quem diga que um dos pastores é Vergílio, que é o próprio Vergílio que está a falar, que faz alusão a figuras suas contemporâneas. É muitíssimo interessante. Se as pessoas têm de colocar os três poemas de Vergílio numa ordem, normalmente põem a Eneida em primeiro, as Bucólicas em segundo e as Geórgicas em terceiro. Adoro os dois, as Bucólicas e as Geórgicas, mas desde sempre que traduzir as Bucólicas era o grande objetivo.

Uma representação da primeira bucólica de Vergílio num manuscrito do séc. V, conhecido como Virgilius Romanus, que pertence à Biblioteca Apostólica Vaticana e que contém a Eneida e as Geórgicas. A iluminura mostra o pastor Títiro a tocar flauta debaixo de uma árvore, onde se escondem algumas vacas; Melibeu, o outro protagonista destes versos, encontra-se à sua frente, de pé, segurando uma cabra pelos cornos (Electa/Mondadori Portfolio via Getty Images)

Esse top é curioso, porque as Bucólicas são o primeiro grande poema de Vergílio.
Sim. As Geórgicas têm a sombra negra da agricultura. Muita gente diz que é aborrecido, mas depois não é nada. Tem partes menos entusiasmantes, mas não é só isso. Acho que é por isso que acaba sempre por ser relegado para o terceiro lugar do pódio. As Bucólicas são, de facto, o primeiro poema, mas sendo o primeiro livro da maturidade poética do autor, caramba, já é poesia! Não é um ensaio, não é uma coisinha que ficou menos bem e que podia ter saído melhor. Tanto que os biógrafos, se acreditarmos no que eles dizem, as Bucólicas foram representadas em vida de Vergílio. Se o poema não fosse muitíssimo bom, isso não aconteceria.

Apesar de serem anteriores às Geórgicas, as Bucólicas parecem ser um poema mais erudito, na medida em que referem mitos e figuras mitológicas menos conhecidos. É preciso ter um profundo conhecimento da mitologia e literatura clássicas para perceber algumas das referências.
É diferente. As Geórgicas [falam] mais da vida quotidiana, digamos assim, dos costumes da sociedade. As Bucólicas têm de tudo. A Bucólica II é sobre um rapaz que está apaixonado por outro. É um monólogo, um lamento, com alusões mitológicas pontuais. A Bucólica VI, por exemplo, é muito mais complexa nesse sentido, com a canção de Sileno. O poema VI é ao estilo neotérico de Calímaco.

Uma das inspirações para as Bucólicas.
Sim. Aliás, a Bucólica VI começa com uma tradução quase direta de Calímaco [que era grego], que refiro na introdução. Quando ele diz, “Quando eu cantava reis e batalhas, Cíntio [isto é, Apolo] puxou-me/ a orelha e admoestou-me: ‘Ao pastor, ó Títiro, convém/ apascentar a gorda ovelha e cantar um poema ligeiro’” — isto é Calímaco sem qualquer margem para dúvida. O latim não é muito difícil de traduzir, o problema é muitas vezes compreender o que é que ele quis dizer.

Sobretudo quando se tratam de referências contemporâneas.
Exatamente. Ele fala de autores seus contemporâneos dos quais não temos nada. Ou de que temos fragmentos ou alusões por via indireta. Sabemos que essas pessoas existiram, mas não se sabe muito bem o porquê da crítica [que lhes dirige]. Por exemplo, na Bucólica IX, fala de Hélvio Cina, que escreveu um poema mitológico, a Zmyrna. Segundo as fontes, quando este poema apareceu, foi considerado o último grito. O que é que chegou até nós? Fragmentos, não temos praticamente nada. Se era tão bom, porque é que não sobreviveu? [Responder a isso] já implica crítica textual e a crueldade da transmissão do texto. Ou seja, sabemos que esse poema [a Zmyrna] existiu, sabemos que houve um autor que o escreveu, esse Hélvio Cina, mas não o temos. Temos de acreditar nas palavras de Vergílio.

Uma das questões que Vergílio aborda, logo na primeira bucólica, é a das expropriações agrícolas. Isso sabe-se com certeza que aconteceu.
Tem a ver com a atualidade do poeta.

Porque este poema, que é anterior às Geórgicas, foi escrito numa altura mais conturbada da história de Roma.
Ou igualmente conturbada. Está [situado] nos finais do regime republicano [foram publicadas provavelmente em 39 a.C.].

Um retrato de Vergílio no Virgilius Romanus. O manuscrito da Biblioteca Apostólica Vaticana contém a Eneida e as Geórgicas na íntegra, mas apenas algumas Bucólicas

Pouco depois do assassinato de Júlio César.
Exatamente. Diz-se, se acreditarmos nos biógrafos, que a família de Vergílio [originário de Andes, uma localidade próxima de Mântua] foi alvo dessa expropriação e que perdeu as suas terras. As Bucólicas I e IX retratam poeticamente esse tema. Lá está, é o poeta a trazer para a literatura a sua própria realidade, tendo assim acontecido, e é mais uma faceta das Bucólicas. Temos a primeira, que começa com um tema pessoal, mas logo na segunda o tema é outro. E na terceira e na quarta e assim sucessivamente. Embora várias retratem temas ou experiências pessoais, essa versatilidade percorre toda a obra. Nas Geórgicas, há aquele fio condutor, há uma coesão, digamos assim. Nas Bucólicas, também acaba por haver, mas mais disfarçada, mais discreta, porque o tema vai mudando de bucólica em bucólica. Depois é interessante ver as alusões dentro da obra que o poeta faz. Do meio para a frente, repete versos e expressões que usou na primeira parte. Nas Geórgicas, vai buscar exemplos das Bucólicas, mas já o fazia dentro das Bucólicas. Não sei se são os poemas mais antigos, porque a cronologia é muito discutida. Há quem diga que a Bucólica I foi a última a ter sido escrita.

As Bucólicas chegaram até nós nesta ordem?
Sim, é a ordem canónica, tradicional. Acho muito curioso que pareça que o poeta dividiu a obra em duas partes e que a primeira parte sirva de modelo à segunda. Isso é muito interessante.

Sendo que a obra serviu depois de modelo a muitas outras. Vergílio foi o primeiro poeta latino a escrever poesia bucólica.
Não chegou até nós uma tradição bucólica latina, então Vergílio marca o nascimento desse género em Roma, tanto quanto sabemos. Poderá haver outras coisas.

Há sempre a questão do que chegou até nós e do que poderá ter existido.
Exatamente. Teócrito terá marcado o género no mundo helenístico.

Outro dos modelos de Vergílio.
Sim, juntamente com Calímaco. São os dois principais modelos. Vergílio renovou o género, criou a sua própria língua, e isso influenciou grande parte dos poetas que daí vieram. A tradição bucólica latina é depois muito extensa, Vergílio marca o início. Os poetas que vieram depois têm o seu estilo. Obviamente que têm a sua própria originalidade, mas percebe-se bem a influência vergiliana, sobretudo nalguns versos principais. E não só. Estamos a falar do século I, II d.C., mas se avançarmos nos séculos, tudo o que refira écloga [outro dos nomes dado na Antiguidade às Bucólicas] tem influência de Vergílio, seja no nome das personagens, expressões, versos ou metade de versos, nas alusões, ou em qualquer outra coisa. Há um poeta do renascimento carolíngio chamado Moduino que tem uma écloga que, se a colocarmos por cima da Bucólica I [de Vergílio], às vezes parece que cola. São as mesmas expressões, a mesma construção frásica. Bate tudo muito certo. Vergílio era o modelo desse poeta. No Renascimento, [podemos encontrar a mesma influência em] Petrarca, Camões, Sannazaro.

E mais à frente temos nomes como William Wordsworth, que tem muitos poemas pastorais, e até o próprio Alberto Caeiro.
Cada cabeça que surge traz a sua própria novidade e originalidade, mas nesta tradição literária há sempre a figura do pai Vergílio que não se pode esquecer.

Uma miniatura que ilustra uma edição do século XV das Bucólicas, de Vergílio. O manuscrito encontra-se conservado na Biblioteca Municipal de Dijon, em França (DeAgostini/Getty Images)

Uma das marcas desta obra é o desafio entre pastores, nos cantos alternados. Isso já aparecia em Teócrito? Ou foi uma inovação de Vergílio?
Sim. Há quem diga que vem daquela tradição do cantar da terra. Pode ser uma marca disso. Porque, o que é que os pastores cantam nas Bucólicas? Nos cantos alternados, na Bucólica III, por exemplo, cantam os seus amores e desamores, até fazem apostas — quem cantar melhor, paga uma coisa ao outro, oferece qualquer coisa. Imagino que seja uma alusão aos cantares da terra, das pessoas, da vida das pessoas. Só que, depois, muitos destes pastores [das Bucólicas] cantam coisas altamente alexandrinas e eruditas, com o conhecimento da poética de Calímaco. É um canto, mas artificial, moldado a partir do poeta.

Na introdução, diz que o mundo das Bucólicas é uma utopia. 
Um mundo idealizado. Porque não é possível localizar onde a ação está a decorrer. Ele refere a Arcadia, mas depois temos o Míncio, que é o rio que passa perto de Mântua, a terra natal de Vergílio. Ele criou um cenário idealizado, que mistura vários elementos.

Isso significa que as inovações de Vergílio foram sobretudo ao nível da linguagem?
Da linguagem, dos temas, da vida quotidiana, porque isto é muito alexandrino — falar de temas elevados, mas de uma perspetiva mais real. O que gosto sobretudo nas Bucólicas é a mistura das duas coisas, do mundo simples, da vida normal, com a erudição helenística. Na Bucólica III, quando um dos pastores diz “De Júpiter vem o princípio, Musas: de Júpiter tudo está cheio”, este verso que marca o início dos cantos alternados, é uma alusão helenística, ao mundo do alexandrinismo. O pastor está a começar a sua canção, mas marca o início com uma referência erudita. Lá está, quem não conhece e não sabe, não pode adivinhar, mas não é o tipo de informação que se pretende de um trabalho de divulgação.

Já fez a tradução dos dois primeiros poemas de Vergílio, falta a Eneida. Já começou a traduzi-la?
Já! Vai demorar muito mais tempo, é maior e requer um fôlego diferente. Mas, sim, há-de nascer. “Nascitura está”, como dizia a Natália Correia [risos].

Tem alguma ideia de quanto tempo poderá demorar a terminá-la?
Não sei. Posso demorar três anos e serem cinco, ou posso dizer cinco e serem três. Não faço ideia.