A Covid-19 fechou stands de vendas e fábricas, obrigando os técnicos a ficar em casa, sem nada para fazer. Mas não todos, pois alguns quadros da Bentley optaram por aproveitar o tempo livre para fazer algo útil para a marca, nomeadamente uma tarefa que há algum tempo aguardava a necessária disponibilidade. O objectivo era recuperar o Bentley Blower, digitalizando-o peça a peça, de forma a poder voltar a fabricar 12 unidades novas de um carro histórico.

Esta marca britânica sempre viveu com o pé no luxo e outro no desporto automóvel, com os seus modelos a assumirem-se como os mais desportivos e potentes, entre os mais refinados e dispendiosos. Um dos seus veículos mais emblemáticos, entre o que provaram o seu valor em pista, foi o Bentley Bower de 1929, um desportivo que se impôs devido à criatividade de Sir Til Birkin.

A Bentley tinha à disposição vários motores, que escolhia consoante os modelos em causa. Para os menos possantes, o preferido era o quatro cilindros 3.0 atmosférico, que era substituído por um 4,5 litros com o mesmo número de cilindros para a gama intermédia, com as versões mais possantes a optarem pelo seis cilindros em linha com 6,5 litros, para assim extrair mais potência, que era ainda mais elevada nas versões desta unidade destinadas à competição. Ora Birkin, que era fã dos compressores volumétricos tipo Roots, decidiu criar uma alternativa aos motores maiores e mais pesados para provas desportivas, pelo que decidiu “soprar” o quatro cilindros 4,5 litros, que em condições normais fornecia 130 cv, para com ele atingir 240 cv, potência que chegava acompanhada por um valor também mais elevado de força e a um regime melhor, por ser menos elevado.

Mais potente e mais leve, uma vez que o Blower pesava apenas 1,6 toneladas, o Bentley construído por Birkin revelou-se desde logo extremamente rápido. Tinha, contudo, uma limitação importante nas provas de resistência, como as 24 Horas de Le Mans. O quatro cilindros com a ajuda do Roots satisfazia em termos de rendimento, mas surpreendeu ainda mais pelo apetite, com o modelo a consumir 4 litros por minuto sempre que rodava a fundo.

Os técnicos da Bentley desmontaram o Blower e, com a ajuda de um scanner a laser, digitalizaram cada uma das 630 peças que o constituem. Os desenhos foram depois tratados por um sistema CAD (computer-aided design), o que consumiu 1200 horas a dois especialistas destes programas de apoio ao desenho. Agora é possível passar à fase seguinte, ou seja, produzir 12 unidades rigorosamente idênticas ao original Bentley Blower, que surgiu há 91 anos.