Que melhor dia podia haver para colocar online música de José Afonso que nunca estivera disponível na net que o 25 de Abril? Zeca espoletou três revoluções, uma musical, outra de pensamento e uma terceira de facto: os Capitães de Abril, que comandavam o Movimento das Forças Armadas, usaram “Grândola, Vila Morena” como senha na operação que levou à instauração da democracia, em 25 de Abril de 1974, faz 46 anos.

E assim chega às plafaormas digitais Cantares de José Afonso, um Zeca que ainda não é aquele que se tornou símbolo de resistência e liberdade – um símbolo, diga-se, que de tão adquirido quase obscureceu o seu génio lírico e musical. Por esses dias de 64, José Afonso ainda não era um gigante, ainda não pertencia ao Olimpo dos compositores, era antes uma formiga no árduo carreiro rumo à glória.

Desde que em 1953 começara a editar – singles e EPs, apenas – que José Afonso se dedicava maioritariamente ao fado de Coimbra. Até que em 1962 começa a explorar as baladas de Coimbra e, no ano seguinte, edita um EP em que revela pela primeira vez o seu génio a compor, o seu génio lírico e a sua faceta de analista social anti-ditadura: foi em Baladas de Coimbra que surgiu “Os Vampiros”, que o tornou uma espécie de mini-estrela entre os mais atentos.

[ouça “Cantares de José Afonso” na íntegra através do Spotify:]

No ano seguinte – 1964 – sairia o EP agora editado em formato digital pela primeira vez e seria ainda editado Baladas e Canções, em que Zeca se afastava por completo do fado de Coimbra e enveredava, sem remissão nem hipótese de retornar atrás, por uma escrita mais densa, que observava em volta e refletia sobre a condição dos contemporâneos.

Não é, portanto, exagero dizer que o período de 1963 e, particularmente, 1964 é o momento em que nasce o Zeca que Portugal diz ser seu. Mas quem era esse Zeca nessa altura? Como fora José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos parar ali àquela condição de ser Zeca?

Há uma imagem, que me foi contada por Arnaldo Trindade, o seu editor na Orfeu, que serve para mostrar o que Zeca era – uma imagem que se refere a 1968, quando se aprestava a gravar o seu segundo álbum, Cantares do Andarilho: “Ele era muito nervoso”, contava, “e quando ia gravar o disco notou que se tinha esquecido dos comprimidos para os nervos. Começou a andar de um lado para o outro a dizer ‘Não vou gravar, não vou gravar’. Foi aí que o Adriano [Correia de Oliveira, dos maiores baladeiros portugueses e amigo pessoal de Afonso] lhe disse para tirar os sapatos e desatou a dar-lhe pancadas nos pés para lhe tirar a tensão, uma coisa que ele tinha aprendido no karaté, salvo erro. E funcionou: o Zeca gravou e cantou que foi uma maravilha”.

“Estávamos todos no palco”: os últimos concertos de José Afonso

O Zeca que hoje mencionamos é um ícone, pela música, pelas palavras, pela postura, e pelo uso de “Grândola Vila Morena” na revolução. Mas José Afonso era uma pessoa. E uma pessoa particularmente complicada, conturbada por uma infância em que foi tragicamente separado dos pais, o que em parte há-de explicar a sua condição de hipocondríaco insomne e muito dependente da sua Zélia (de quem dependia para o transportar por Lisboa). Era um homem angustiado, em eterna reflexão sobre como deveria atuar. Um homem, como escrevi certa vez, em eterno conflito consigo mesmo.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de agosto de 1929 em Aveiro; o seu pai, José Nepomuceno Afonso dos Santos, era juiz, enquanto a sua mãe, Maria das Dores Dantas Cerqueira, era professora da instrução primária. José Afonso nasceu sem preocupações materiais.

Ainda bebé viu o seu pai, procurador da República, ser colocado em Angola; José Afonso é enviado para junto do pai em Angola aos três anos, depois volta em 1937 para Aveiro, seguindo nesse mesmo ano para Moçambique, onde seu pai fora colocado. E no ano seguinte vai para Belmonte viver com o tio Filomeno, presidente da Câmara local e impenitente salazarista.

No ano de 1939 ocorre uma tragédia: o pai de Zeca é colocado em Timor, seguindo para lá com a esposa e a filha, irmã de Zeca. Nessa altura começa a II Guerra Mundial e o casal e a filha ficam reféns dos japoneses. A família em Portugal ficou a crer que que tinham morrido. Zeca acreditou que tinha perdido pais e irmã durante quatro anos. Em 1943 veio a nova: o casal e a filha estavam vivos – mas, mesmo assim, o jovem Zeca ainda demoraria três anos a voltar a vê-los.

José Afonso “não morre no coração dos novos”

É difícil medir até que ponto esta separação dos pais o marcou – mas terá, por certo, sido uma ferida funda. Assim me o disse, há uns anos, Vitorino: “Essa separação [face aos pais] desequilibrou-o muito”, contava o autor de Semear Salsa ao Reguinho, que foi parceiro musical e amigo íntimo de Zeca. “Aquilo marcou-o para a vida. Passou o resto da vida a rodear-se de pessoas. Tinha pânico de estar sozinho”.

Uma ideia que sempre obcecou José Afonso, continuava ainda Vitorino, era a de “morrer antes da mãe”.  Num exercício especulativo, Vitorino admitia ainda a hipótese de este sentimento estar na génese de uma canção genial, “Cantigas do Maio”, do álbum homónimo de 1971, cuja letra tem algo de premonição de morte:

“Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou”

O sobrinho João Afonso fez-me ver um dia que “nessa época não se usavam termos como ‘ansiedade'”, de modo que a maior parte das pessoas o via apenas como “inquieto”, e considerava que a hipocondria e a insómnia e a ansiedade eram idiossincrasias de um génio.

No chão idílico da infância criam-se raízes díspares, que se cruzam e produzem esses enxertos esquisitos e ambíguos que são os seres humanos: em Belmonte, para onde foi muito pequeno e viveu anos como órfão, Zeca encontrou uma comunidade muito fechada, reacionária, salazarista, cuja epítome era o seu próprio tio Filomeno.

[“Cantares de José Afonso” está disponível também no YouTube:]

Mas um homem é muitos homens e, segundo o que me contou há anos João Afonso, “foi o tio Filomeno que lhe [a Zeca] ensinou a cantar, que lhe passou as canções populares e por isso ele tinha simpatia por esse tio”. O tio Filomeno, ao que parece, gostava de música e de ir ter com o povo, aprender as canções populares e ensiná-las ao sobrinho. Quando falei, há muitos anos, com Júlio Pereira, colaborador frequente de José Afonso, esta afiançava que viu muitas vezes “o Zeca apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele”.

O tio Filomeno também providenciou outra vantagem ao sobrinho: o acesso a livros. Zeca era um leitor ávido desde miúdo; em adulto, era de uma cultura imensa. Júlio Pereira falava com admiração dessa erudição: “Íamos em digressão com ele, entrávamos em qualquer cidade da Europa e ele começava a contar a história da cidade, dos edifícios. Eram autênticas aulas”.

Se em miúdo Zeca já tinha saltado de Aveiro para Angola, para Aveiro, para Moçambique e para Belmonte, a entrada na juventude acentuou ainda mais a sua faceta de andarilho: primeiro foi fazer o liceu e o curso de Letras para Coimbra, o que só aumentou o seu amor pela leitura e por leituras mais diversas; em 1953, por entre imensas dificuldades económicas, é pai pela primeira vez e edita o seu primeiro EP, Fados de Coimbra. Faz o serviço militar em Mafra e obtém a permissão para lecionar, o que o levará a dar aulas onde houvesse lugar, passando por Mangualde, Alcobaça, Aljustrel, Lagos, Faro, Aljustrel ou Alcobaça.

E assim chegamos a 1963, anos em que termina a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre, intitulada Implicações substancialistas na filosofia sartriana. É de realçar que neste mesmo ano editou o EP Baladas de Coimbra, que contém os primeiros temas polítcos, “Os Vampiros” e “Menino do Bairro Negro” (o primeiro sobre o capitalismo, o segundo sobre a miséria do Bairro do Barredo, no Porto). E um ano depois edita Cantares de José Afonso, este EP que agora chega ao Spotify, com mais uma canção vincadamente política, “Coro dos Caídos”. Pode dizer-se que Zeca tinha nascido.

Integrada nesta nova edição de Cantares de José Afonso está “Ó Vila de Olhão”, canção que em 64 motivou a retirada do mercado do disco, por parte da censura. O tema haveria de ser editado em 1969, na segunda edição do mesmo EP, mas só em versão instrumental. Em 1974, “Ó Vila de Olhão” foi finalmente lançada como single:

Nessa altura, José Afonso abandonara definitivamente o fado de Coimbra e partira à descoberta de uma música sua, uma linguagem a que poderíamos chamar Cantares do Andarilho, para roubar o título do seu segundo LP, lançado em 1968. Rui Pato, que desde 1962 era o seu guitarrista e co-compositor de eleição, dizia-me há anos que Zeca era efetivamente “um andarilho, andava por toda a parte, viveu em imensos sítios, ia às terrinhas, falava com as velhinhas, ouvia-as cantar e tinha uma memória musical impressionante”. Júlio Pereira também narrou episódios de “Zeca a apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele”.

Em 1964, Zeca vai dar aulas para Moçambique, e as suas ideias políticas tornam-se cada vez mais vincadas, tornando-se um alvo dos agentes do governo colonial, obrigando-o a regressar, em 1967, desta feita para Setúbal, onde lecionou. Mas já era conhecido como músico e pensador político, o que o tornou um homem marcado, acabando expulso do ensino. Foi preso pela PIDE, mas a partir daí nunca mais parou e a partir de 1968 dedicou-se por inteiro à música, fazendo digressões por essa Europa fora, o que não o impediu de voltar a ser preso em 1973.

Nunca saberemos com certeza o que teria sido a vida de Zeca se tivesse crescido com os pais – mas sabemos que foi nos anos de 1963 e 1964, com o segundo EP chamado Baladas de Coimbra (há vários com o mesmo nome) e com este Cantares de José Afonso que o Zeca genial, político, liricamente subversivo, melodicamente inovador começa. E este parece um ótimo dia para celebrar as primeiras aparições do seu génio.