Fechemos os olhos. Imaginemos um bosque e vegetação diversa, que queremos observar, tocar, cheirar. A isto juntemos, talvez, uns animais, espécies que provavelmente nunca vimos. Deixemo-nos ir. Abracemos a natureza. Agora pensemos qual banda sonora perfeita para esta experiência. Está? Pronto, é João Pais Filipe. Que nos perdoem o arranque meio ficheiro-sonoro-banha-da-cobra para meditação sacado do YouTube, com voz leve e amigável, mas há sítios a que só se vai assim, em modo exploratório.

Agora alteremos a paisagem para uma oficina em Campanhã, no Porto, onde João Pais Filipe toca e constrói instrumentos de percussão, sobretudo gongos. Está a ver, estimado leitor, como a mente pode ser enganadora? A verdade é que a música deste baterista e percussionista de 39 anos, nascido e criado no Porto, transmite essa ideia de ida, como se perante a sua percussão, a sua música encantatória – um dia havia de se experimentar colocar João Pais Filipe a tocar perante uma audiência de cobras – fossemos obrigados a ceder a esta leveza, a superar as paredes onde agora estamos fechados. Parece ser essa a proposta de Sun Oddly Quiet, segundo disco a solo depois de um homónimo em 2018 – editado dia 24 de Abril numa parceria entre as nacionais Lovers & Lollypops e a Holuzam.

Membro de bandas como os HHY & The Macumbas, CZN (com Valentina Magaletti), Paisel (com Julius Gabriel) ou até uma edição recente com os Black Bombaim, João Pais Filipe sempre foi um músico frequentador de várias praias. Chegou a estender toalha na concessão do jazz e da música de improvisação, ou areias de outros géneros, mais próximas da música de dança ou ambiental. Certo é que sempre foram as artes.

“Sempre estive aqui pelo Porto, fiz Belas Artes porque era aquela coisa de sempre ter tido jeito para desenhar desde miúdo e sempre ter sido empurrado para aí, também gostei sempre de o fazer, claro”, admite.

Mas não eram só os desenhos, eram as bandas que sempre se tem na adolescência: “Na verdade, sempre fiz as duas coisas, sempre tive jeito para trabalhos manuais, digamos assim, e é engraçado que com esta coisa da construção de instrumentos é como se tivesse voltado a essa coisa das artes plásticas, deu a volta, foi como um ciclo que se cumpriu”, explica, ao telefone.

[ouça “Sun Oddly Quiet” através do Spotify:]

Foi há nove anos que decidiu – uma pessoa quando é boa em trabalhos manuais tem que fazer algo com tal talento, é lógico – começar esta atividade que nos permite catalogá-lo como um nerd da música e mais concretamente da percussão. “Não foi de um dia para o outro, demorou um bocado. Tinha alguns pratos e lembro-me de tentar fazer experiências, martelá-los e dar-lhes calor, com resultados horríveis no início porque não percebia nada daquilo. Mas o que fazia era, sempre que possível, tentar arranjar pratos baratos e tentar modificá-los. Quando comecei era sobretudo nessa busca de sonoridades diferentes, mais do que uma ideia estética”.

É no seu casulo, na sua oficina, a mesma localização que ocupava à hora desta conversa, que tem passado estes dias de pandemia. Salvação. “Sim, tenho estado por aqui, antes disto tinha andando a viajar bastante, portanto a construção de instrumentos estava um bocado parada. E acho que na verdade é isto que me tem estado um bocado a salvar disto tudo, quando estou aqui a trabalhar parece que isto nem existe, consigo-me esquecer, portanto tem-me sabido bem”.

Embora tenha uma página de Tumblr, onde podemos observar alguns dos seus feitos enquanto artesão, admite que prefere que a comercialização dos mesmos e a divulgação sejam feitas de forma mais aproximada.

“Há quem me queira comprar coisas que eu já tenho, há quem me faça encomendas, vai variando. E prefiro sempre que isto seja uma coisa mais boca à boca, mais personalizada, o pessoal telefona e falo um bocadinho com os interessados ou até passam aqui pela oficina, isso então é o ideal”.

O processo pode ser bastante diferente de objeto para objeto, mas tem quase sempre como base uma série de procedimentos. Primeiro, há que temperar o material, seja ele bronze, alpaca ou de outro tipo, depois há que moldar o metal e criar tensão com diferentes martelos e bigornas. Sobra ainda o processo de aquecimento do dito cujo, para o som abrir. Por último, dá-se o acabamento final da superfície do gongo. E apesar de ser coisas que cabe em meia dúzia de linhas, este é um trajecto que pode durar vários meses, pois é preciso dar repouso às matérias “para perceber qual é o tipo de som que é possível sacar dali”, enquadra.

Deixemos agora este percurso oficina made/do-it-yourself, para nos centrarmos mais especificamente na música construída por João Pais Filipe – como se as duas vertentes pudessem ser separadas. Na juventude, admite, sempre esteve mais ligado ao universo da música industrial, com referências como Einsturzende Neubauten, Coil, Muslimgauze. Mas em 2008, já mais perto daquilo que faz hoje, gravou um disco a solo que parece não contar para a sua discografia: “Não era assim tão distante do tipo que som que estou a fazer hoje, mas não tinha estes materiais e instrumentos todos para gravar, gravei tudo com o CD-R e nesse sentido é bem diferente”, explica.

Depois disso, como já dissemos, desatou a fazer música que se desdobrava e desdobra em vários projetos distintos. Mas a certa altura – altura essa que mais tarde ou mais cedo trata de chegar a toda a gente com uma ideia de carreira ou de criação artística – achou que era tempo de fazer por si. O primeiro disco, com apenas três temas e quase trinta minutos – daí encontramo-lo em muitas plataformas de streaming descrito como EP – foi editado em 2018 e já tinha esta ambição de nos atirar para arvoredos distintos. Foi nesse mesmo ano, com esse repertório, que foi tocar ao Out.Fest – Festival de Musical Exploratória do Barreiro.

No final do concerto, um daqueles momentos que jamais se vão esquecer, em que um ídolo nos vem dizer que adorou a nossa música. Falamos do muito importante produtor e explorador sonoro alemão Burnt Friedman:

“Foi assim um daqueles momentos estranhos, mas muito fixes, disse que adorou a minha música. E pronto, trocámos uns mails e umas referências e passado uns meses estava comigo no Porto a gravar o disco que sai agora. É curioso como gravar com ele foi muito importante para este meu novo disco, foi aí que decidi por onde ir, que é no fundo, seguir o caminho do primeiro, mas com mais complexificação dos ritmos, essa é a grande diferença”, diz.

O disco que é agora editado com eletrónica de Friedman e bateria e percussão de Pais Filipe – e que também mete música do lendário baterista alemão dos Can, Jaki Liebezeit – chama-se Eurydike e tem selo da germânica Nonplace. E já pelas palavras anteriores de João Pais Filipe se percebe a importância definidora que teve para este Sun Oddly Quiet. Depois de uma viagem tão intensa, não tínhamos como evitar contá-la ao seu autor. Falámos-lhe de uma ideia de hipnose e de curtir na floresta ao som disto.

“O que quero é que as pessoas possam, perante uma melodia complexa, criar as suas imagens”, diz-nos João pais Filipe

“Isso é muito fixe, ainda bem que foste por aí, sem dúvida, quando crio penso em imagens, para mim é paisagem, sempre funcionei assim e acho que sim, essa ideia de floresta e de mantra é muito apropriada. Por exemplo, o single, a ‘XV’ são dez minutos de música quase sempre estática, acho que tem que haver algo de complexo para criares música estática e minimalista, há muita gente que faz música repetitiva, mas que depois se põe a preencher os temas com pequenas coisas e efeitos para que ela tenha mais coisas e não seja tão monótona, não é isso que me interessa. O que quero é que as pessoas possam, perante uma melodia complexa, criar as suas imagens”.

E isso – se calhar de forma um pouco excessiva, mas é o que é – nós fizemos. Também o portuense viajou bastante, o ano passado, mas por outros motivos, foi mesmo em digressão pela Ásia, América do Sul e África e é pelo menos curioso que este disco pudesse pertencer ao universo de cada uma destas geografias. “O disco é anterior a essa tour, mas sim, percebo o que dizes. Olha, andei pelo Uganda, no festival Nyege Nyege, um festival grande, altamente, junto ao Nilo. Um dia toquei a solo, outro dia toquei com o percussionista Omutaba. Na Ásia foi uma digressão, sempre em salas fechadas, começou na Tailândia e acabou no Japão. E no Perú toquei o mestre de percussão Manogo Mujica, estivemos em residência no Museu de Arte Contemporâneo de Lima e daí também será editado um disco”, conta.

Portanto, se há gente que queremos por perto em tempo em que a casa são as nossas Caraíbas é João Pais Filipe e este Sun Oddly Quiet. Com ele damos a volta ao mundo.