Sader Issa, 23 anos, estudante de medicina dentária, sabe o que é sentir-se um milagre. É o filho único de Samira e Jad, com quem vive em Al Bayda, uma vila no noroeste da Síria, habitada, na sua maioria, por fiéis da Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia. O pai, Jad Issa, de 45 anos, tem Trissomia 21 (também conhecida como síndrome de Down). E isso faz de Sader um dos poucos casos documentados no mundo – apenas 4 – filho de um homem com síndrome de Down. O número espelha o facto de 80% dos homens Down serem inférteis e não poderem ter filhos, segundo os especialistas – enquanto que nas mulheres, a taxa é de 60%.
E é também por isso que está em preparação um documentário sobre a história desta família, focada na vida de Jad enquanto “pai, marido e patriarca “.

Foi na escola que Sader Issa descobriu o que o tornava diferente das outras crianças e, ao mesmo tempo, tão especial. “Passei a entender melhor a condição do meu pai”, conta Sader ao jornal El Mundo, sem conseguir esconder o orgulho que tem na família, que tudo fez para que nada lhe faltasse: “São pessoas encantadoras, trabalhadoras e amigáveis. Muito simples, mas altamente respeitadas”, explica.

Quando Sader nasceu, os seus avós já tinham morrido e coube, por isso, à mãe Samira (que não tem alteração cromossómica) e ao pai, tudo fazerem para lhe garantirem uma educação, ou uma porta aberta, para um futuro melhor do que o deles.

“Com meu pai, aprendi a ser paciente e a amar todas as pessoas, independentemente de sua origem étnica ou ideologia”, destaca o estudante universitário.

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Palavras sábias num país devastado por uma guerra civil e conflitos sectários há mais de nove anos, e que já provocou a morte a mais de 500 mil de pessoas, mais de metade civis, e fez sete milhões de refugiados.

“Nos últimos 25 anos, o meu pai trabalhou como moleiro num moinho de trigo. Ele investiu todo o dinheiro que ganhou “, admite Sader. O investimento de Jad foi na escolarização do filho, que tem agora a oportunidade de estudar na Universidade de Hama, a capital da província, localizada a cerca de 50 quilómetros de sua cidade natal. Faltam-lhe dois anos para se formar e concretizar o sonho do pai, Jad. “Ele está muito orgulhoso desde que soube que o filho vai ser médico”.

A família que é uma “feliz exceção” no Oriente Médio

A biografia de Jad, Sader e Samira é uma “feliz exceção” no Oriente Médio, como escreve o El Mundo, por se tratar de uma região em que a Trissomia 21 continua a confinar homens e mulheres às quatro paredes de casa, “castigados” pelo preconceito. “Para muitas pessoas, a ideia de uma mulher grávida com um filho com síndrome de Down pode ser o pior futuro. Algumas podem até optar por abortar. Mas se minha avó tivesse decidido isso, eu não estaria aqui”, assume Sader, com toda a sinceridade.

O pai, conta ainda Sader, por ter nascido numa família tradicional, e bem relacionada, “os vizinhos sempre foram gentis com ele”. O que não quer dizer que não tenha sofrido. “Houve algumas situações negativas, mas foram muito poucas e já não acontecem. Os amigos dele são pessoas simples e puras. Todos o tratam como uma pessoa normal”.

Sader sabe que a história do pai é única. Ou se existem mais casos como o dele, as famílias optam pelo silêncio.

“Através da Internet, fiquei a saber de um homem com síndrome de Down com dois filhos sem qualquer alteração cromossómica, mas ninguém da família quis falar sobre isso. Deve haver histórias semelhantes, mas as pessoas não estão prontas para compartilhá-las”, conclui o jovem.

Já ele, assume de coração aberto que se pudesse escolher o pai, “não o mudaria”.

There's no doubt that many of us feel helpless and weak while witnessing what the entire world is suffering from. It is…

Posted by Sader Issa on Sunday, April 12, 2020

A felicidade desta família, espelhada nas fotografias que decoram as paredes da casa, tem vindo a testar os limites sociais de Al Bayda há mais de duas décadas.

“O relacionamento dos meus pais é tão natural quanto o de qualquer outro casal. Às vezes eles podem não concordar, mas têm uma vida cheia de amor e humildade”, admite Sader. Um sentimento de gratidão que o jovem também projeta para o seu futuro.

“Quero ter uma carreira profissional bem sucedida e poder proporcionar aos meus pais a melhor vida possível, porque eles se privaram de muitas coisas para que eu pudesse ter uma vida normal”.