Depois da abstenção na generalidade, o secretário-geral do PCP diz que o partido “não vai protelar” no arrastamento do projeto de lei sobre as incompatibilidade de nomeação do governador do Banco de Portugal, até porque não vê necessidade de que haja um “período de nojo para ex-governantes” assumirem funções neste tipo de cargo. Por outras palavras, o PCP, tal como o BE, não vai travar a nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal.

Em entrevista à TSF, Jerónimo de Sousa diz que não vê “impedimento” numa nomeação deste cariz (sair de ministro das Finanças diretamente para o cargo de governador do banco central do país), uma vez que os impedimentos deviam existir, sim, para o caso de “banqueiros e auditores”, ou seja, para os casos em que saem do setor privado para o regulador.

Não percebo o impedimento ou a criação de um período de nojo em relação a ex-governantes”, disse. Quanto ao mais, para o PCP é “indiferente” que Centeno vá ou não para o lugar de governador do Banco de Portugal. Questionado sobre se o agora ex-ministro desertou, Jerónimo diz que “não tem essa ideia” e que mais importante do que saber quem é o novo governador é garantir que Portugal “vai ter direito a ter o seu próprio banco ou se vai continuar a ser uma sucursal do Banco Central Europeu”, disse.

Assim sendo, o ponto é que assim que um governante aceite “o espartilho do BCE”, seja Mário Centeno ou outro ministro qualquer, “é indiferente”. Ou seja, o PCP não se opõe à nomeação de Mário Centeno para governador nem tão pouco vai acelerar o processo de travagem da nomeação por via do Parlamento.

Já em relação ao Orçamento Suplementar, que vai ser debatido e votado na generalidade esta semana no Parlamento, Jerónimo garante que o PCP ainda não definiu o sentido de voto, mas lembra que o PCP está “preocupado” com o facto de o Governo estar a atirar “para a frente” a resposta concreta de apoio aos trabalhadores. E isso não é um bom presságio: “Enxoval que não vá com a noiva, tarde ou nunca aparece”, disse.

Na mesma entrevista à TSF, Jerónimo de Sousa admite que o Governo acolheu algumas das propostas do PCP, por exemplo em relação ao layoff, mas o sentido de voto só será decidido depois da discussão parlamentar. Certo é que se as medidas não forem suficientes, o voto a favor poderá não existir.

Sobre eventuais novas injeções de capital público no Novo Branco, Jerónimo de Sousa considera que “não faz sentido no quadro da situação que vivemos que o Governo tenha disponibilizado uma grossa fatia de dinheiros públicos para injetar no Novo Banco” e que, apesar de ser evocado o contrato, o líder do PCP acredita que “a vida veio dar razão” aos comunistas quando alertaram para a nacionalização do banco.

“É inaceitável e um escândalo”, sublinhou o secretário-geral comunista na mesma entrevista, uma vez que os portugueses que foram prejudicados pela pandemia não entendem como é tomada esta decisão.

Questionado sobre se os contratos devem ser rasgados, o líder comunista prefere dizer que o contrato de venda do Novo Banco sempre foi “um erro” e nunca devia ter existido. “O grupo da Lone Star negociou de forma conveniente e o Estado ficou como um mero pagador”, disse. “Moral da história: vamos continuar a injetar dinheiro do Estado para que Lone Star consiga o seu objetivo, e quando conseguir o seu objetivo vai disponibilizar-se para vender o banco aos bocados”, criticou Jerónimo de Sousa, ressalvando, no entanto, que “não há coragem” no Governo para travar estes mecanismos que “lesam o país e o povo”.

“Estruturalmente o povo português não é racista”, diz Jerónimo de Sousa

Questionado sobre as recentes vandalizações de estátuas e o movimento anti-racista, Jerónimo de Sousa diz que “não acredita” que o racismo seja “um problema” e diz que a vandalização de estátuas são “atos condenáveis”.

“Não acredito que seja [um país racista] e condenamos as expressões de revitalização populista e aproveitamento por parte da extrema direita designadamente. Tenho dificuldade em lidar com um ato que é condenável. Em relação a quem movimenta essa questão, há um sentimento que eu tenho que é os extremos geralmente retroalimentam-se e potenciam-se nestas circunstâncias porque, como digo, não existe esse ambiente”, afirmou o secretário-geral do PCP.

Jerónimo diz que há “respeito mútuo” e que não sente “nenhuma onda” de racismo. “Tenho a convicção profunda. É um povo que não é racista, que muitas vezes tem esta ou aquela manifestação devido a uma atitude ou episódio, mas estruturalmente o povo português não é racista”, notou o líder dos comunistas na mesma entrevista.

Sobre o seu futuro à frente do PCP, Jerónimo de Sousa diz que essa discussão também ainda está em aberto, sendo que será o Congresso a decidir quem será o próximo secretário-geral ou se, apesar de estar no cargo há 16 anos, pode continuar a ser o mesmo. Quanto a presidenciais, o PCP terá um candidato próprio “lá para setembro”. Quem vai ser? “Tenho a minha opinião, mas para mim sempre contou mais a opinião dos meus camaradas.”