Três dias depois de ter sido conhecido o calendário da Primeira Liga entre as 25.ª e 33.ª jornadas, Pedro Proença reuniu com Rui Moreira na Câmara do Porto, tendo em vista um projeto para expandir as instalações da Liga de Clubes na cidade. À saída desse encontro, e enquanto o presidente do órgão defendia o trabalho desempenhado desde 2015, o autarca dizia também que a carta enviada ao governo para ajudar a que houvesse jogos em canal aberto fazia sentido e em nada prejudicava operadoras e clubes. Em paralelo, levantou logo nesse dia 25 de maio um problema que já estava a considerar: “Temos trabalhado no sentido de ter um drive in no Queimódromo para outros fins, culturais e cinema. Pareceu-nos que era interessante ter essa valência para oferecer aos adeptos. Seria interessante até porque vamos ter um Boavista-FC Porto na noite de São João e isso preocupa-nos bastante”.

Proença explica processo dos jogos em sinal aberto, Rui Moreira admite drive in com futebol no Queimódromo do Porto

As semanas passaram, não houve qualquer novidade e o tema voltou agora a ser falado, com Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia, a sugerirem o adiamento do dérbi da Invicta na próxima terça-feira, dia de São João, no seguimento de uma reunião com os responsáveis pela PSP, pela Polícia Municipal, pela Proteção Civil Municipal, pela CP, pelo Metro do Porto e pela STCP. Motivo? Esse jogo, a contar para a 28.ª jornada e com início às 21h15, “pode ser um foco de concentração indesejado de adeptos”. Esta sexta-feira, e antes de haver uma decisão final, o Benfica pronunciou-se sobre o assunto e falou em “golpada da vergonha”.

“Os protagonistas deste lamentável episódio, que não se coíbem de querer assumir que só no Porto não existem condições de segurança, foram precisamente o presidente da Câmara Municipal do Porto, também vice-presidente do Conselho Superior do FC Porto, e o presidente da Câmara Municipal de Gaia, igualmente membro desse órgão do FC Porto e que, recorde-se, em 2016, pretendeu integrar a administração da SAD, passando pelo vexame de lhe ter sido negada essa pretensão devido a um parecer negativo da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. Estes dois autarcas, e o mesmo será dizer, membros dos órgãos sociais do FC Porto, pretenderam interferir na calendarização e na verdade desportiva, criando um facto que no limite poderá colocar em causa a continuidade das competições, ao querer determinar que afinal as autoridades policiais, pelo menos no Porto, não conseguem garantir as condições de segurança”, destacou o clube na sua newsletter.

Autarcas de Porto e Gaia pedem adiamento do F. C. Porto-Boavista na noite de São João

“Enquanto a UEFA reconhece o bom senso, responsabilidade e forma consciente como os portugueses têm sabido lidar com a pandemia, os munícipes de Porto e Gaia, que naturalmente mereceriam igual consideração e respeito, tiveram aqui ao invés um sinal de desconfiança dos seus autarcas acerca do sentido de responsabilidade das suas populações. Reconheçamos, no entanto, que ninguém se poderá afirmar surpreendido com esta situação, pois ninguém percebe onde começam e acabam as responsabilidades públicas e os papéis de adeptos dirigentes dos seus clubes. Por outro lado, enquanto em todo o país se proclama a capacidade de organização e segurança para todos os jogos que se estão a realizar e inclusive para a fase final da Champions, apenas no Porto não existe essa segurança?”, acrescenta, concluindo: “Afinal, quem não quer jogar? E, afinal, quem quer à última hora mexer no calendário das competições, numa espécie de vale tudo?”.

“Sempre que se pensa que é difícil inventar um novo tipo de episódios insólitos no futebol português, surge logo um novo e muito original (…) Alguém consegue explicar como é que um jogo no Porto na véspera de São João é um drama e um jogo em Lisboa na véspera de Santo António, o Sporting-Paços de Ferreira, foi algo perfeitamente pacífico? E alguém compreende como é que se pode colocar em causa um evento realizado num espaço aberto onde cabem mais de 50 mil pessoas e onde só estarão 189, precisamente na mesma cidade e na mesma noite em que haverá o espetáculo ‘Deixem o Pimba em Paz’ num espaço muitíssimo mais pequeno e com muito mais gente concentrada?”, respondeu o FC Porto a esse propósito em comunicado.

De recordar que a Liga anunciou em comunicado que convocou para esta tarde de sexta-feira “uma reunião de urgência, com responsáveis dos dois clubes, da PSP (Polícia de Segurança Pública) e da Câmara Municipal do Porto”. “O encontro tem como propósito garantir que toda a operação de segurança decorrerá dentro da normalidade necessária para que o jogo se realize na data previamente agendada”, salientou. No final, e em comunicado, a Liga esclareceu que “a PSP manifestou o seu empenho na implementação de todas as estratégias de segurança necessárias para que o evento decorra dentro da normalidade”, fazendo ainda um apelo final “ao comportamento cívico dos adeptos para que mantenham a normalidade que se tem verificado”.