Para muita gente da minha geração, as palavras “Perry Mason” não remetem para boas memórias. Para mim era sinónimo de que o “A-Team” ou o minicompacto de dois episódios do “Alf” tinham perdido a votação do “Agora Escolha” de Vera Roquette e que eu ia ter de levar com um secador sobre um advogado que, do alto dos meus seis anos, me parecia ter pelo menos 103 de idade.

“Perry Mason”, que agora regressa à HBO com uma espécie de um reboot, já teve muitas vidas. Começou numa coleção de livros policiais nos anos 30, passou para a rádio e depois viveu vários frutíferos anos na televisão: de 1957 a 1966 (e de 1973 a 1974) em série; e de 1985 a 1995 em telefilmes, (praticamente) sempre interpretado por Raymond Burr. A versão que nos chega em 2020 muda tanta coisa em relação ao imaginário reconhecido até aqui que é quase um acaso ter o mesmo nome. Passamos para uma série de época (a época na qual saíram originalmente os livros), com a suja e decadente Los Angeles de 1931-32 como pano de fundo, e aqui encontramos não um advogado de sucesso, mas sim um ex-advogado, agora investigador privado, caído em desgraça e em alcoolismo por motivos que vamos escrutinando ao longo dos oito episódios da minissérie.

O tom é todo ele mais negro, da cinematografia às temáticas. E por isso, se é sensível a algumas imagens mais violentas (eu fui, confesso), fica a ressalva: logo aos dois minutos e quarenta e cinco segundos do primeiro episódio, uma mãe vai abraçar o  filho de um ano, devolvido por um raptor, que afinal está não só morto como com os olhos cosidos a fio preto para que permaneçam abertos, num momento bastante gráfico. O novo “Perry Mason” não se escuda da crueldade do crime que aqui vamos seguir e isso fica claro desde muito cedo na narrativa.

[o trailer de “Perry Mason”:]

O total da temporada ocupa-se do mesmo caso, o tal rapto e assassinato de Charlie, o filho de um merceeiro aparentemente modesto a quem exigem a avultada quantia de 100 mil dólares. O que parece óbvio nem sempre é, com a série a ganhar mais gás a partir do segundo episódio, aquele no qual começam a surgir twists e imprevistos. Afinal, há que dar azo à tagline com a qual a série se apresenta: everyone is guilty of something (toda a gente é culpada de alguma coisa). Os vários personagens coincidem com um impecável trabalho de casting, permitindo ao espectador mais versado em séries estar sempre a reconhecer atores: John Lithgow (o Churchill de “The Crown”), Nate Corddry (“Mindhunter”), Gayle Rankin (“GLOW”) , Tatiana Gabriele Maslany (“Orphan Black”) ou Shea Whigham (“Boardwalk Empire”). E, claro, o incrível Matthew Rhys .

Matthew Rhys é um ator galês de sotaque cerrado, mas essa é uma informação que só se obtém se o apanharmos em nome próprio numa entrevista num qualquer talk-show. Rhys passa tanto por americano que até foi um dos personagens principais de uma imperdível série chamada, exactamente, “The Americans”. Outros conhecem-no do seu papel em “Brothers And Sisters”. Sendo um dos melhores atores de televisão da sua geração, não é um nome tão orelhudo como aquele que foi associado à série logo quando se soube que ia existir um novo Perry Mason, nos idos de  2016. Há quatro anos, Robert Downey Jr. é que era dado certo para o papel, na mesma altura em que Nic Pizzolatto, o criador de “True Detective” era dado como guionista principal. A série veio a ser escrita por Rolin Jones e Ron Fitzgerald, com experiência em “Boardwalk Empire”, “Weeds” ou “Friday Night Lights”. Se o Perry Mason de 2020 é bem mais dark que o que recordamos de outros tempos mais polidos da televisão, com Pizzolatto teria sido menos pulp fiction noir e mais filosófico-que-se-calhar-é-deep, pelo que não teremos ficado mal entregues.

O personagem principal que encontramos na minissérie da HBO está como a Los Angeles pós-crash de 1929 na qual se movimenta: a braços com uma depressão. Olhos tristes, voz arrastada, quando conhecemos este Perry Mason ele está, em trabalho, a assistir a uma comédia no cinema e a ser o único a não achar graça a nada. Suspeitamos que a gargalhada não é um som que faça amiúde, sendo bem mais frequentes as explosões coléricas. Caído em desgraça depois de uma carreira nos tribunais, é agora é um detetive privado que se move entre gangsteres e elites, destacando-se no seu fato velho com nódoas de mostarda. Fatos novos, aliás, é algo que arranja numa peculiar “segunda mão”: a morgue, lugar que visita repetidamente em contexto de investigação. Traumatizado pela guerra, vive numa zona da cidade habitada essencialmente por hispânicos, tendo com Lupe uma relação sobretudo à base de sexo e mezcal. É puxado para a investigação do assassinato do bebé Charlie ao ser contratado pela igreja à qual vão os pais da criança, porque o pastor não confia na polícia de LA. Só bem mais à frente na série, por volta do quinto episódio, é que surge na barra dos tribunais como advogado, mais próximo assim da mitologia que temos deste personagem.

Em suma, “Perry Mason” é uma série que acerta completamente no look de época detalhado, na cinematografia e na realização (a cena da passagem de ano no primeiro episódio é especialmente bem filmada), sem com isso colocar de lado a crueza das cenas violentas ou mesmo de nudez. Tem boas personagens, veiculadas por ótimos atores e um plot criminal que prende. O seu maior pecado é o de ter alguns arcos paralelos que não adiantam assim tanto à história, tornando os episódios desnecessariamente pastelões nalgumas alturas. A história ficaria provavelmente a ganhar com um edit para 40 a 45 minutos por episódio, em vez da hora quase completa de cada um. E sempre davam algum descanso a Perry, que aquela vida não é nada fácil.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa