A alemã Wirecard não resistiu às consequências do escândalo financeiro que rebentou nos últimos dias e anunciou, esta quinta-feira, a abertura de um processo de insolvência. A notícia surge cerca de uma semana depois de o histórico presidente da empresa se ter demitido, quando se tornou óbvio que a empresa tinha apresentado informação financeira falsa, designadamente relacionada com dois mil milhões de euros em alegadas reservas financeiras depositadas nas Filipinas que, afinal, (provavelmente) não existem. Depois de se demitir, Markus Braun foi detido pela polícia no início desta semana e saiu sob fiança de cinco milhões de euros.

As ações da empresa na bolsa de Frankfurt, depois de verem quase esfumar-se o seu valor, foram suspensas e surgiu o comunicado da Wirecard, onde a empresa explica que apresentou o pedido de insolvência num tribunal em Munique “devido a uma iminente insolvência e excesso de endividamento”.

Esta é uma decisão que as empresas tomam, frequentemente, quando têm obrigações financeiras iminentes às quais não têm condições para dar resposta. É possível que as operações continuem, na medida do possível, sob a proteção do administrador de insolvência, enquanto se tenta encontrar uma solução para a empresa, tais como um comprador.

Markus Braun foi presidente-executivo da Wirecard quase duas décadas, fazendo crescer a empresa até se tornar um player importante no sistema financeiro alemão, prestando serviços até às gigantes Visa e Mastercard. Esta segunda-feira, a empresa veio reconhecer, oficialmente, que os 1.900 milhões de euros que supostamente tinham desaparecido das reservas da empresa, afinal, “provavelmente não existem“.

O presidente demitiu-se na sexta-feira passada, depois de revelações que colocaram em causa uma enorme quantia de reservas financeiras da empresa – 1.900 milhões de euros. A informação que existia é que esses fundos estavam no sistema financeiro das Filipinas, para facilitar a concretização de operações com empresas terceiras, mas no domingo as autoridades financeiras do país indicaram que, aparentemente, esse não é dinheiro que exista ou que tenha entrado no sistema financeiro filipino.

A nova equipa executiva indicou que, tendo analisado as contas de forma mais detalhada, “existe uma probabilidade prevalecente de que os 1.900 milhões de euros não existem“. Por essa razão, a inexistência de uma quantia que representa cerca de um quarto de todo o balanço (oficial) da empresa, foram retirados os relatórios e contas sobre o exercício de 2019 e, também, do primeiro trimestre de 2020, podendo vir a determinar-se que também números anteriormente prestados pela empresa não eram válidos.

Este foi um escândalo que começou com uma investigação do Financial Times, ainda no ano passado, que falava de alegadas irregularidades contabilísticas nas operações asiáticas da Wirecard – uma investigação que terá surgido de uma denúncia interna. Na altura, o presidente-executivo agora substituído, Markus Braun, alegou que esse dinheiro tinha sido colocado de parte no âmbito de uma estratégia de “gestão de risco”.

Mas a auditora, a EY, recusou aprovar as contas da empresa porque simplesmente não tinha evidências de que aquele dinheiro existia, ou qual era o seu paradeiro. Isto embora a mesma auditora tenha sempre aprovado os números da empresa, antes da investigação jornalística e antes de uma auditoria externa contratada à KPMG.

A empresa já tinha reconhecido, no final da semana passada, que existiam indicações de “confirmações de balanço falsas” dadas com o intuito de “enganar o auditor” e “criar perceções erradas” acerca da existência de fundos. O que ajudou a que a agência Moody’s tenha cortado o seu rating para “lixo”.