Aos poucos o cinema regressa às salas de cinema. E o documentário também. Durante esta semana (25 de junho a 1 de julho), o Cinema Ideal, em Lisboa, acolhe uma seleção da edição 2019 do DocLisboa. Cada sessão terá início às 21:30 e contará com a participação de convidados especiais para apresentarem os filmes.

As sessões arrancam esta quinta-feira com dois filmes tão históricos como atuais, ambos com origens na imagem e no cinema. “A Story From Africa”, de Billy Woodberry, conta a história da campanha de pacificação portuguesa no sul de Angola em 1904 através dos registos visuais e escritos de Velloso de Castro; “Sonhámos Um País”, de Camilo de Sousa e Isabel Noronha, conta a história do primeiro, de como se tornou cineasta e guerrilheiro da Frelimo, a partir das suas memórias e reencontro com dois camaradas.

“A Story From Africa” e “Sonhámos Um País” passam em conjunto esta quinta-feira, pelas 21h30 no Cinema Ideal com a presença dos realizadores. Ao longo dos próximos dias, à mesma hora, serão projetados “Un Film Dramatique”, Eric Baudelaire, “143 Rue du Désert”, deHassen Ferhani, “Santikhiri Sonata”, de Thunska Pansittivorakul, “This Film Is About Me”, de Alexis Delgado Búrdalo, “中孚 61. La verdad interior”, de Sofía Brito, e “Um Filme de Verão”, de Jo Serfaty. Programação completa aqui.

Estivemos à conversa com o realizador Billy Woodberry, por email, para tentar perceber como chegou à fotografia de Velloso de Castro que é o motivo para o seu filme. A fotografia não foi só um ponto de partida para um filme, mas também para a descoberta de uma obra maior e, de certa forma, inovadora à época, sobre o registo e a perceção dos eventos que decorriam no sul de Angola.

Como é que se cruzou com a fotografia que serviu de ponto de partida para “A Story from Africa”?
Durante o processo de investigação para um documentário que estou a realizar há algum tempo – sobre Mário Pinto de Andrade –, fui ao Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Quando visitei o museu havia uma exposição dedicada aos movimentos de libertação portugueses em África. Foi aí que vi a fotografia e que fiquei alarmado para o que representaria, dentro daquele contexto.

O que é que o motivou a procurar mais sobre a fotografia? A sua primeira leitura, como admite no filme, não estava correta.
Primeiro pensei que fosse uma imagem referente à era da troca de escravos transatlântica. Uma imagem que me é familiar, como afro-americano, mas havia ali algo de diferente. Depois vi que datava de 1907. Quando soube disso, tive de tentar saber tudo sobre o contexto que levou à produção daquela fotografia, naquele sítio e naquele período tão particular da história europeia.

E quando é que avançou para o seu filme?
Imediatamente após ter visto essa fotografia pela primeira vez. Pensei que poderia fazer uma curta-metragem sobre esta fotografia. Mas o filme tornou-se maior quando durante a minha pesquisa descobri que a fotografia fazia parte de um grupo maior de fotografias, da campanha de pacificação portuguesa no sul de Angola. Ao investigar os álbuns de fotografias, percebi que a pessoa que as tirou [Velloso de Castro] estava a ir além do seu trabalho, de registar a campanha. Ele foi muito cuidadoso e perspicaz em escolher os elementos que surgiam nas suas fotografias. O seu critério revela uma determinação em mostrar como o povo de Cuamato e a sua terra iria ter um papel importantíssimo nesta campanha desastrosa de 1904.

Como foi descobrir esse processo de Velloso de Castro, através dos seus registos e fotografias?
Foi excitante e desafiante conhecer o autor e o seu trabalho. Ele criou uma forma original, direta e muito franca de contar o que se passou. A partir dos registos consegue-se perceber a sua sensibilidade como um observador participante, íntimo, mas que vai além da sua patente militar e da mentalidade daquele período histórico. Ele teve de lutar muito para ter o seu livro publicado em Luanda e em Lisboa, mas graças a isso, conseguimos hoje ter uma noção mais clara sobre o que aconteceu: tanto o regicídio em Portugal como a descolonização nos anos 1960 e 1970.