Após um prolongado período de espera e alguma expectativa, a recém-criada Ineos Automotive revelou, por fim, as fotos do seu primeiro modelo, o Grenadier 4×4, um jipe puro e duro, sem concessões para optimizar o comportamento em asfalto, mas repleto de soluções para o tornar robusto e capaz de enfrentar as situações mais difíceis no todo-o-terreno.

Esta opção pela construção de um jipe à moda antiga, por parte deste pequeno fabricante de veículos, integrado num grande grupo dominado pela petroquímica Ineos, propriedade de Sir James Ratcliffe (considerado o homem mais rico do Reino Unido), pode parecer estranha à primeira vista, mas está longe de ser desprovida de lógica empresarial. A aposta no Grenadier 4×4 visa ocupar o espaço deixado livre pela concorrência, numa fase em que todos os jipes tradicionais estão a ser substituídos por SUV mais refinados, mais à vontade em asfalto, mas com maiores limitações para enfrentar cursos de água e pedregulhos – o novo Defender, da Land Rover, é apenas o exemplo mais recente.

4 fotos

Robustez é a palavra-chave

Ratcliffe, além de possuir uma fortuna avaliada em 21 mil milhões de libras, cerca de 23 mil milhões de euros, é um apaixonado pelo Defender original, que usa com regularidade. Daí que não espante que, depois de ter tentado comprar à Land Rover os direitos de produzir o Defender, depois da fabricação deste ter cessado em 2016, o industrial britânico tenha optado por produzir a sua própria versão do Defender original.

O chassi do Ineos mantém as longarinas e as travessas, similar ao Defender original e a outros tantos jipes e pick-up considerados como veículos de trabalho, por ser a solução mais robusta. A carroçaria é aparafusada mas, em vez de ser integralmente em alumínio, mistura painéis de alumínio (portas e capot) com materiais compósitos e aço de alta resistência, para incrementar a rigidez da estrutura. Contudo, esta solução será igualmente responsável por um certo aumento do peso, com a Ineos a apontar para 2400 kg, contra apenas cerca de 2100 kg do Defender de 2016, com a explicação a poder ser encontrada na carroçaria mais pesada e, sobretudo, no motor de seis cilindros, em vez de um com apenas quatro e na caixa e diferenciais aptos a lidar com binários superiores.

As formas gerais da carroçaria não sofreram alterações, com o Grenadier 4×4 a surgir na versão jipe e pick-up. O pára-brisas é plano e bastante vertical, tal como as três janelas laterais e as dobradiças exteriores das portas e capot do motor, o que não é bom para a aerodinâmica, mas é barato e reforça a sensação de robustez.

Motor BMW com 6 cilindros para maior suavidade

Para mover o Grenadier 4×4, a Ineos optou por adquirir uma mecânica BMW e nada menos do que o seu conhecido 3.0 turbodiesel com seis cilindros em linha, capaz de fornecer mais potência e mais binário, acompanhado de uma sonoridade e suavidade que só os blocos deste tipo conseguem assegurar. É claro que esta solução será necessariamente mais volumosa e pesada do que o quatro cilindros a gasóleo que o Defender montava, mas os seus 122 cv vão ficar envergonhados, face aos 265 a 400 cv que é possível extrair do seis cilindros alemão, da mesma forma como os 360 Nm de binário do motor turbodiesel do Defender de 2016 vão empalidecer face ao torque do motor BMW, que pode oscilar entre 620 e 760 Nm. Paralelamente, o Grenadier 4×4 pode estar equipado com um seis cilindros da BMW similar, mas a gasolina.

Ao motor adquirido à marca alemã, a Ineos alia uma caixa automática de oito velocidades produzida pela ZF que, por sua vez, está acoplada a umas redutoras, com o jipe da Ineos a montar um sistema 4×4 permanente. Sempre na tentativa de garantir a maior resistência às pancadas e às incursões mais radicais pelo fora de estrada, o Grenadier monta eixos rígidos à frente e atrás, fabricados pela Carraro, enquanto a austríaca Magna Steyr produz as suspensões, sendo este actualmente o único no mercado, em companhia do Jeep Wrangler e do Suzuki Jimny, a recorrer a este tipo de solução.

Por dentro, reina o segredo

Se a Ineos revelou alguns pormenores sobre o exterior do Grenadier 4×4, bem como algumas fotos, por dentro nada transpirou. Além da promessa que será mais refinado e agradável do que o que conhecíamos do Defender até 2016.

É exactamente no habitáculo que o novo jipe britânico tem de evoluir de forma mais evidente, face ao velho Land Rover, uma vez que este tinha uma posição de condução desconfortável, demasiado em cima da porta devido à imensa consola central, para alojar a mecânica.

Em termos de segurança, a sua concepção antiga também o limitava fortemente, levando-o a ser o único modelo do mercado que não podia montar airbags, dado não existirem estruturas deformáveis capazes de absorver impactos de forma controlada, nem à frente, nem lateralmente. Isto é obviamente uma circunstância que é forçoso resolver.

Quando chega e quanto poderá custar?

Segundo o construtor, a divulgação destas primeiras fotos do Grenadier destinou-se a permitir uma maior liberdade para os técnicos da marca procederem a testes nas mais diversas condições em plena via pública, tanto em alcatrão como em terra, com a Ineos a prever mais de 1,8 milhões de quilómetros de ensaios até começar a entregar as primeiras unidades a clientes.

Segundo os responsáveis pelo fabricante, tudo indica que, no final de 2021, as primeiras unidades começarão a sair da linha de montagem em Bridgend, no País de Gales, que espera fabricar entre 20.000 e 30.000 veículos por ano.

Curiosamente, estes Grenadier 4×4 têm uma pequena (mas importante) componente portuguesa, uma vez que o chassi de longarinas é produzido pela Gestamp Automoción, empresa espanhola fornecedora da indústria automóvel europeia que possui três fábricas em Portugal, com o chassi para a Ineos a sair da Gestamp Aveiro.

A cerca de ano e meio da primeira unidade ser entregue ao cliente final, é natural que o preço ainda seja uma incógnita. Contudo, a imprensa britânica conseguiu que os responsáveis pela Ineos avançassem com um preço estimado a partir das 40.000 libras, cerca de 44.500€. Um valor que não difere muito do Defender que a Land Rover comercializava em Inglaterra em 2016, apesar das vantagens do Ineos, em termos mecânicos e de performance. A este valor, relativamente competitivo, há que juntar o facto de a pick-up Grenadier usufruir de vantagens fiscais em mercados como o português.