Numa altura em que Reguengos de Monsaraz regista 166 casos de infeção e 12 óbitos — um surto que começou num lar de terceira idade —, António Lacerda Sales é perentório: “Não equacionamos fechar Reguengos de Monsaraz.” Foi desta forma que o secretário de Estado da Saúde respondeu à questão dos jornalistas sobre o surto naquele concelho do Alentejo.

“Estamos a mobilizar meios. Não se equacionam pedidos de ajuda externa, temos meios no país para dar resposta não só aos surtos no Alentejo, como aos surtos de outras regiões do país, respeitando os direitos dos profissionais que também precisam do seu período de descanso”, disse esta segunda-feira na habitual conferência de imprensa aos jornalistas.

Já em Lisboa e Vale do Tejo os números mostram “estabilidade com ligeira tendência decrescente”. “É sempre um sinal de esperança para nós, mas também de grande cautela. Estamos numa fase de planaltos sucessivos”, comentou ainda Lacerda Sales, referindo que o objetivo do Governo “é que não haja nenhuma zona do país em situação diferenciada.” “Se surgir algo que não esteja previsto, tomaremos, como sempre temos tomado, as medidas adequadas e proporcionais.”

Até ao momento, Portugal já fez 1 milhão e 300 mil testes, sendo que atualmente existem 94 laboratórios aptos para o efeito, entre laboratórios do SNS, de iniciativa privada e até da academia.

Inquérito serológico concluído. Contou com 2.072 participantes

Durante a conferência de imprensa, Fernando Almeida, presidente do Conselho Diretivo do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) anunciou que o inquérito serológico nacional terminou na última sexta-feira. Conta com 2.072 participantes de todas as idades e provenientes de todas as regiões do país, sendo que os resultados preliminares vão ficar concluídos na segunda quinzena deste mês.

O inquérito vai dar “respostas cruciais para a preparação da nossa resposta no futuro”, adiantou Lacerda Sales. “Vai determinar a extensão da infeção na população geral residente em Portugal”, entre outros dados determinantes.

Referindo que este é o primeiro estudo piloto, Fernando Almeida revelou que se vai “repetir este estudo daqui a cinco meses e, depois, de três em três meses até um ano. Isto sempre de acordo com situação epidemiológica.”  O dirigente do INSA assinalou ainda que serão feitos ainda outros três estudos: um dedicado a doentes que tiveram um diagnóstico Covid-19, para perceber o nível de anticorpos que decorreu do facto de terem estado internados; outro apostado nos profissionais de saúde, o qual contará com o contributo e interesse da Organização Mundial de Saúde, e um terceiro considerando mães com recém-nascidos, isto é, “perceber em que medida uma mãe que teve Covid-19 pode transmitir anticorpos ou algum tipo de imunidade ao recém-nascido”.

Visitas a lares no outono-inverno para coincidir com “campanha maciça” contra a gripe

“É um dos grandes desígnios nacionais proteger os mais vulneráveis. Sabemos que nestes lares estão pessoas vulneráveis”, comentou Graças Freitas, referindo-se aos lares e às visitas ao centros de dia.

Vão ser “mantidas e intensificadas” todas as medidas a ser tomadas até então, sendo que vai haver um “reforço centrado num plano de visitas conjuntas” a estas instalações, por parte das autoridades de saúde e da Segurança Social. As visitas em questão têm “um carácter pedagógico” e vão acontecer no período de outono-inverno para coincidir com uma “campanha maciça” contra a gripe.

Objetivo até ao final do ano passa por recuperar 25% das cirurgias

Por outro lado, Lacerda Sales abordou as cirurgias e os atos médicos em atraso na sequência da pandemia: comparando os meses de janeiro a maio de 2019 com o período homólogo de 2020, registaram-se menos um milhão e 437 mil consultas de cuidados primários de saúde; menos 902 mil consultas hospitalares e menos 85 mil cirurgias.

“Estamos a fazer um esforço grande de recuperação” da atividade assistencial nos hospitais, garantiu. Em maio deste ano já tinham sido remarcadas 40% das consultas desmarcadas devido à Covid-19 e ainda 30% das cirurgias. Existe como “objetivo até ao final do ano” alcançar entre 230 mil a 250 mil consultas, bem como 25% de recuperação cirúrgica.

Questionado sobre as sequelas psicológicas e físicas resultantes da pandemia, o secretário de Estado reforçou que a linha de acompanhamento psicológico integrada no SNS24 recebeu, desde o dia 1 de abril, mais de 20.500 chamadas e remeteu para o plano de saúde mental do Governo. “As sequelas físicas ainda não as conhecemos. Ainda é cedo para fazer essa avaliação.”

Graça Freitas: “Muitos países não reportam com esta regularidade”

Falando ainda sobre os dados publicados nos boletins, Graça Freitas afirmou que a vigilância epidemiológica em Portugal nunca foi tão escrutinada”. Referiu que até à data quase 400 mil pessoas foram consideradas suspeitas, o que gera “milhões de informações”. “Nunca tivemos um sistema tão escrutinado e que tenha sofrido ao longo destes meses tantas melhorias”, disse a diretora-geral da saúde garantindo que os números fornecidos pelo Governo sobre casos com coronavírus “é fiável”.

Há mais de 125 dias que Portugal reporta “ininterruptamente o total de casos confirmados”. “Digo Portugal com muito orgulho, porque muitos países não reportam com esta regularidade. (…) Creio que temos de estar muito orgulhosos do caminho que temos feito.”

“O número de total de casos confirmados que conhecemos é um número fiável”, reiterou. Relativamente aos concelhos, Graça Freitas disse que a nível local existem outros instrumentos. “[A nível local] Conseguem captar dados precocemente que ainda não entraram nas plataformas informáticas. (…) Ao próprio dia esta informação não é completamente compatível.” “Vão sempre existir diferenças”, disse.