Em 1936, dez anos após a morte de Gaudí, um incêndio levou a maior parte dos desenhos que o arquiteto acumulara ao longo de uma vida dedicada à arquitetura: Gaudí começava por um desenho geral, por assim e, à medida que o trabalho progredia, produzia inúmeras variações do original, frequentemente para melhorar ou adornar micro-detalhes que fazem da sua obra um espanto de cada vez que a revisitamos.

Sabemos deste processo porque, apesar do incêndio, os desenhos que sobreviveram confirmam o modus operandi acima descrito, bem como o grau obsessivo de pormenor do arquiteto, que tantas dores de cabeça dava aos construtores, a quem frequentemente eram pedidas alterações porque o génio havia sido tomado por uma epifania (epifania essa que, muito provavelmente, seria o resultado de muito e árduo trabalho).

Ver os esquissos de Gaudí ou de Michelangelo é a nossa possibilidade de sermos uma mosquinha na parede da oficina destes génios, isto para usar uma expressão querida a Angel Olsen, que chamou “Fly on the Wall” a uma das suas melhores canções. Podemos imaginar como a atenção destes mestres partia de uma visão global para uma atenção cada vez mais pormenorizada de cada ínfimo detalhe e imaginamos uma incessante busca da perfeição a que não será alheio algum tormento.

All Mirrors foi – passe a desproporcionada comparação arquitetónica – a catedral de Angel Olsen, o disco em que ela finalmente se libertou das seis cordas de uma guitarra e, envolta em sintetizadores e cordas, criou uma montanha-russa de vertigem emocional, um vitral em que apenas existia o claro e o escuro a pairar em redor daquela voz ora angelical ora zangada ora cansada.

[O vídeo de Whole New Mess]

Olsen vinha, como confessou em entrevistas, de uma separação, a pele ainda ferida, e a tormenta a bater-lhe forte no peito; sentou-se com a guitarra a cantar a ver se (e perdoem a aliteração fácil) conseguia sarar mas apesar de gostar das cantigas que criou sentiu que lhes faltava alguma coisa: ascensões, explosões, zonas de sombra, mistério. Terá sido nessa altura que Ben Babbitt entrou no processo – e ajudou Olsen a transformar as suas canções folk de dor de corno na dita e monumental catedral que é All Mirrors.

All Mirrors era um disco quase inapreensível – parecia pairar no ar, ser feito de gaze ou transformar-se constantemente numa nova substância, desconhecida até então. Não parecia haver outro centro para as canções que a voz de Angel Olsen e os instrumentos rodopiavam em seu redor como se eles próprios não tivessem recebido instruções acerca do que era suposto fazerem.

Que mistério era aquele? Talvez não houvesse grande mistério: tirando a guitarra do papel frontal, de âncora, que tem tantas vezes na pop, ficava a voz no centro e os sintetizadores e as cordas a vaguear. Sem centro explícito cada movimento das cordas era ainda mais acentuado, o que significa que cada mudança (por assim dizer) emocional era ainda mais notória. E era essa dicotomia entre o espectral e o carnívoro (como é que um disco tão delicado pode ser tão carnal?) que alimentava o mistério de All Mirrors.

Mas isto é especulação, porque na realidade desta catedral não temos esquissos. Não sabemos mais do que Olsen nos disse: que, de coração partido, pegou na guitarra, fez canções, não gostou por aí além e depois com Ben Babbitt as alterou, recriou, orquestrou – e por fim chegou a All Mirrors. Isto é tudo o que temos – nem uma pauta de uma versão original, nem uma demo do primeiro momento de composição de um só tema.

Perdão, isto era tudo o que tínhamos: Whole New Mess é, no fundo, uma seleção do conjunto de demos à guitarra que Olsen criou para All Mirrors, as tais versões que não a deixaram totalmente satisfeita e que a levaram a mudar de rumo. Whole New Mess são os esquissos de Gaudí que sobreviveram ao incêndio, a casa de campo onde por fim acabou por se erguer uma catedral.

Não é por acaso que falo em casa de campo onde por fim se ergueu uma catedral: quase todos os temas de Whole New Mess servem-se apenas de voz e guitarra, o que dá às condições um tom campestre, ampliado pelo ligeiro ruído da gravação caseira: All Mirrors é um disco para se ouvir em absoluta solidão, no quarto, em ritual de purga existencial; Whole New Mess pede uma rede na balaustrada.

Algumas canções aguentam-se perfeitamente na versão rural – em particular aquelas em que a melodia é mais pungente e em que a voz sobe mais: “We are all mirrors” (que em All Mirrors corresponde a All Mirrors), seria canção de culto se tivesse sido editada assim: perde um bocadinho de elegância, um bocadinho de subtileza, mas a imensidão da voz é viciante.

“Lark Song” (que em All Mirrors corresponde a Lark) seria sempre um momento alto da carreira de Angel Olsen, se só se conhecesse esta versão: a subida da voz é inacreditável, arrepiante. Claro que as inflexões, que em All Mirrors equivalem a vulcões a explodir com tornados altaneiros, não têm, aqui, o mesmo impacto. “Chance (forever love)”, que em All Mirrors acabou por ser “Chance”, é lindíssima assim, só com a guitarra elétrica, embora eu prefira a versão acetinada. “Tonight (without you)” talvez não seja tão sumptuosa como “Tonight” (a versão que surge em All Mirrors) mas é ainda assim altamente comovente.

Claro que há faixas que ficam abaixo do que encontramos em All Mirrors: “Summer song” e “What it is (What it is)” ficam abaixo de “Summer” e “What it is”, os nomes que lhes foram dados em All Mirrors, respetivamente.

A capa de Whole New Mess, lançado esta sexta-feira, 28 de agosto

O que fazemos com Whole New Mess, que lugar lhe damos na desarrumada discografia de Angel Olsen, qual o seu significado?

Antes de mais dá-se o caso de ela parecer apreciar por cá para fora aquilo que, por alguma razão, em determinado momento rejeitou: Phases, de 2017, era uma compilação de temas previamente por editar, que haviam ficado de fora dos discos para os quais foram compostos. Que mais não fosse, tinha uma canção genial, “Fly on Your Wall”.

Whole New Mess não é um Phases, não é um aglomerado de canções dispersas, não serve para limpar a gaveta das ideias inacabadas – é um objeto por inteiro, em que o uso da voz e de melodias operáticas denuncia uma fuga tanto ao estilo folk de início de carreira de Angel Olsen como à rockalhada 70s de My Woman.

Musicalmente, sendo tão lo-fi é como se situasse entre a fase folk e My Woman, quando ele começou a fugir à folk, a encher as canções, a dar-lhes corpo, a preocupar-se com os arranjos. Melodicamente é do mais inventivo que ela criou e encontra-a com uma confiança na voz só superada pela versão turbinada vamos-invadir-a-Polónia de All Mirrors.

O melhor é termos sempre à mão as duas versões: quando estivermos em isolamento recolhemo-nos com All Mirrors e quando quisermos que, por entre a música, se ouçam os grilinhos do campo, recorremos a Whole New Mess. Se não estivermos com paciência para invadir a Polónia ficamos com a guitarra e a voz de Whole New Mess; caso estejamos em modo estrepitoso e operático, com vontade de partir a loiça, vamos para All Mirrors.

A obra-prima permanece All Mirrors – mas, raios, dá mesmo prazer olhar para estes esquissos da catedral, antes de esta ter sido erguida, quando era para ser só uma casa no campo.