Quatro elementos do staff, um membro da equipa de serviços técnicos, um jornalista e o diretor da competição. Ao todo, foram sete os casos de Covid-19 ao longo de toda a Volta a França: nenhum de um atleta. Este domingo, na derradeira etapa da maior e melhor competição de ciclismo do mundo, não era só o já confirmado vencedor Tadej Pogacar que estava de parabéns. Todo o pelotão, toda a caravana e toda a organização da Volta estavam de parabéns. No meio de uma pandemia, com máscaras entre as centenas que se foram juntando nas bermas das estradas francesas, a Volta nunca parou e só acabou no sítio certo — os Campos Elísios.

Depois de um contra-relógio histórico, em que o jovem Pogacar eliminou os 57 segundos que o separavam do camisola amarela Primoz Roglic, o esloveno de 21 anos tornou-se o segundo mais novo de sempre a ganhar o Tour e entrava para a última etapa com a certeza de que seria coroado em Paris. Os vídeos em que se emocionou quando percebeu que iria mesmo ficar em primeiro na classificação geral, assim como os do momento em que abraçou o compatriota Roglic, correram mundo e tornaram-se absolutamente virais nas redes sociais. Este domingo, ainda antes da partida oficial, Roglic e Pogacar voltavam a protagonizar alguns segundos bonitos e circularam lado a lado, entre sorrisos de cumplicidade apesar de menos de 24 horas antes um ter roubado o sonho do outro para concretizar o seu.

Com Pogacar a levar para casa a camisola amarela, a branca que diz respeito à classificação da juventude e a pontilhada que assinala o melhor ciclista em montanha, a última etapa podia ainda decidir quem ficava com a camisola verde — a que distingue o vencedor da classificação por pontos. Peter Sagan era o principal pretendente mas Sam Bennett parecia ter a posição assegurada, sendo que o mítico Sagan tinha de ganhar este domingo a última corrida e esperar que o irlandês registasse um resultado muito abaixo do esperado. Por isso mesmo, o eslovaco deu os parabéns a Bennett ainda antes do início da 21.ª etapa, considerando desde logo impossível chegar ao primeiro lugar da classificação em causa.

“Demos o nosso melhor e vou com certeza dar tudo o que tenho para tentar ganhar em Paris. Parabéns ao Sam Bennett por ficar com a camisola verde neste Tour”, escreveu Sagan no Instagram. Certo é que a corrida nem precisou de terminar para o irlandês assegurar desde logo a camisola verde, já que os pontos que alcançou no sprint intermédio já em Paris foram suficientes para ganhar matematicamente a classificação. Nessa altura, um grupo de quatro corredores, composto por Pierre-Luc Périchon, Max Schachmann, Greg Van Avermaet e Connor Swift, soltou-se do pelotão e começou a cavar uma distância que chegou aos 18 segundos a cerca de 30 quilómetros do final da etapa.

A cinco quilómetros do sprint final, os quatro da frente foram apanhados pelo pelotão e Sam Bennett mostrou que teria uma palavra a dizer quanto à vitória da etapa — assim como Peter Sagan, que também era dos mais rápidos a saltar do agrupamento de ciclistas rumo à dianteira da corrida. Nos últimos 500 metros, foi mesmo o irlandês a assumir a vitória na derradeira etapa deste Tour 2020, com Mads Pedersen a ficar em segundo e Sagan a fechar o pódio da corrida. Na classificação geral, e com a consagração do histórico Tadej Pogacar e a segunda posição já garantida de Primoz Roglic, foi o australiano Richie Porte a ficar com o terceiro lugar da classificação geral, à frente do espanhol Mikel Landa.

Em Paris, nos Campos Elísios, foi o camisola verde que celebrou, assim como um jovem camisola amarela que levantou na capital francesa o troféu mais apetecível do ciclismo internacional. Mas acima de tudo isso, fica a ideia de que este ano, este verão e no meio de uma pandemia, foi mesmo o Tour que ganhou. Não só porque superou todas as contingências sem que um único atleta fosse infetado mas também porque há muito que a vitória final não era decidida ao segundo, entre dois ciclistas, num contra-relógio tão emotivo como o deste sábado.