Desde a sua primeira longa-metragem, “Martha Macy May Marlene”, em 2011, um estupendo “indie” sobre o tormento de uma rapariga que escapa de uma seita cujo líder a rebatizou, e procura adaptar-se à vida normal e reintegrar-se na família, que o canadiano Sean Durkin não rodava um filme, preferindo dedicar-se à produção (nomeadamente, de “Cristine”, de Antonio Campos, ou de “O Segredo do Refúgio”, de Dave Franco, este exibido no MOTELX e estreado recentemente em Portugal). Nove anos depois da sua auspiciosa estreia atrás das câmaras, Durkin regressa à realização com “O Ninho”, filmado em Inglaterra.

[Veja o “trailer” de “O Ninho”:]

Para quem viu “Martha Macy May Marlene”, gostou e estava à espera do que Durkin ia fazer a seguir a uma estreia tão entusiasmante, “O Ninho” é uma forte deceção. Passado nos anos 80, embora nunca pareça de forma convincente que decorre nesta época, tirando pelas canções escolhidas para a banda sonora, “O Ninho” tem Jude Law no principal papel, o de Rory O’Hara, um ambicioso gestor de fundos inglês que vive em Nova Iorque com a mulher americana, Alison (Carrie Coon), a filha adolescente e um filho mais pequeno. Rory decide, num impulso, regressar a Inglaterra e à sua antiga empresa em Londres, comprando uma dispendiosa e enorme mansão no campo onde se instala com a família, oferecendo mesmo um cavalo à mulher.

[Veja uma entrevista com Sean Durkin e Jude Law:]

Por alguns momentos, pensamos que Sean Durkin nos vai mergulhar numa história de fantasmas à maneira clássica inglesa, tão grande e vetusta, apesar de ter todos os confortos modernos, é a mansão dos O’Hara, e tão pouco à-vontade eles começam por lá se sentir, sobretudo Alison e o filho. Mas não. “O Ninho” transforma-se muito depressa num filme emocionalmente mortiço e raso, banalmente previsível e pobremente demonstrativo, sobre um homem que veio de baixo e vive acima das suas posses, obcecado pelas aparências de riqueza e movido pela cobiça; e sobre a gradual alienação e implosão da sua família, tudo pontuado com aqueles “clichés” sobre os gananciosos anos 80 vistos e revistos nas fitas deste tipo feitas nessa altura.

Sem surpresas de enredo e com fraca voltagem dramática, sem picos de conflito nem estremeções narrativos, com personagens transparentes como papel vegetal e uma história repleta de situações que adivinhamos logo no que vão dar (o plano de Rory para a firma que o vai deixar sem problemas de dinheiro para o resto da vida, a trajetória de frustração de Alison, o comportamento cada vez mais ríspido da filha mais velha), “O Ninho” torna-se penoso de acompanhar. E bastante antes do final em aberto, já nos fartámos da superficialidade torturada de Rory e das dores estereotipadas da família O’Hara. Talvez Sean Durkin devesse ter feito o “ghost movie” que, em dois ou três momentos, “O Ninho” nos sugere que vai ser mas em que nunca se transforma.