Emílio Rui Vilar não irá fazer mais um mandato como presidente do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), anunciou o próprio esta sexta-feira, através de comunicado. O mandato atual termina a 31 de dezembro e o gestor, que tem 81 anos, considera que “é altura de virar a página, de renovar e reforçar a equipa da CGD para lançar e cumprir um novo e desafiante plano estratégico” (2021-2024).

Num longo comunicado, Emílio Rui Vilar explica que assumiu o encargo de verificar a disponibilidade dos restantes membros do conselho para continuar no próximo mandato, algo que envolveu, também, refletir sobre a sua própria disponibilidade. E, aí, concluiu: “A minha decisão é de não disponibilidade“.

“Poderia invocar a fórmula habitual das ‘razões pessoais’ mas sempre tenho procurado no exercício de responsabilidades públicas, agir com transparência e prestação de contas”, escreve Emílio Rui Vilar.

Recordo que, quando em abril de 2015, recusei o convite dos acionistas chineses e omanitas da REN para continuar como chairman, fi-lo no entendimento de que, nas vésperas de completar 76 anos, seria boa altura de encerrar a atividade profissional nas empresas e dedicar-me apenas a tarefas pro bono no setor não lucrativo. Inesperadamente, porém, fui confrontado com o apelo para uma missão considerada de interesse público e em circunstâncias excecionais. Estava em causa o novo conselho de administração da CGD quando se iniciavam as negociações de um acordo entre o Governo português e as autoridades europeias, com vista a que a recapitalização, de dimensão ímpar no sistema financeiro nacional, não fosse considerada ajuda do Estado”.

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Emílio Rui Vilar já tinha liderado o banco público, entre 1989 e 1996, “nos tempos da preparação para o mercado interno de 1992 e da mudança estatutária – instituto público com privilégios para um banco plenamente concorrencial”. E considerou este novo desafio algo que “estaria fora do que seria prudente e razoável”. “No entanto, considerei que, se a minha presença na administração ajudasse a ultrapassar o longo período de resultados negativos vivido pela instituição, não deveria recusar. Mantive, todavia, a regra que tinha definido para mim próprio: trabalhar pro bono.

O gestor acabaria por passar para a presidência do conselho de administração “de forma inusitada quando, em dezembro de 2016, o presidente [António Domingues], seis administradores e dois membros do conselho fiscal renunciaram aos respetivos cargos”. “Se a minha presença outro mérito não tivesse, acabou por ser útil ao assegurar o normal funcionamento do banco até surgir uma nova equipa”, refere.

O plano estratégico associado à recapitalização pública que se seguiu “tem vindo a ser rigorosamente cumprido, tendo a CGD atingido e, em vários domínios, ultrapassando os objetivos e as métricas definidas”, diz Emílio Rui Vilar, acrescentando que “apesar dos reflexos negativos da conjuntura atual, decorrente da pandemia do Covid-19, tudo indica que a CGD o cumprirá no atual e último exercício do plano”. Isto apesar de, nos últimos anos, ter havido uma auditoria e três comissões parlamentares de inquérito sobre o banco público: “tudo obrigando a afetar tempo e recursos não negligenciáveis, para além dos reflexos negativos no campo reputacional”. Mesmo assim, diz o gestor, a CGD mostrou ser uma “instituição extremamente forte, positivamente avaliada pelos mercados, prestigiada na opinião pública e, acima de tudo, digna da confiança que merece aos Portugueses”.

Nesta fase, e elogiando o trabalho do presidente da comissão executiva – Paulo Macedo – e da sua equipa, Emílio Rui Vilar conclui: “Não se verificam nenhumas circunstâncias de exceção e de especial interesse público que, na minha idade, pudessem novamente inculcar a eventual ponderação da minha continuidade, como aconteceu no início de 2016“.

“Diz-se que, além da motivação altruística, uma das razões da filantropia é a devolução à sociedade dos benefícios que esta nos concedeu. Se o exercício pro bono das minhas responsabilidades como chairman da CGD for assim entendido, terá sido para mim uma suficiente e gratificante recompensa”, remata o gestor.