É a pergunta do momento. Em Itália, em Portugal e um pouco por todos os sítios em que o ciclismo é relevante. João Almeida é líder do Giro há uma semana e continua a defender a camisola rosa — mas será que vai conseguir segurar a liderança até ao fim da competição e tornar-se o primeiro português a ganhar uma Grande Volta? As opiniões divergem. Incluindo a do próprio protagonista.

“Gostava de manter a camisola rosa até lá mas não sei se isso será possível. Sinceramente, não acredito muito nessa possibilidade [de vencer], mas temos de esperar para ver. Nunca disputei uma corrida tão longa, há gente com muito mais experiência do que eu e basta um dia mau para deitar tudo a perder”, disse o ciclista português numa conferência de imprensa online. João Almeida recordou ainda que “o pior ainda está para vir” até à última etapa, no dia 25 e a acabar em Milão, e que a “parte final é a mais dura”. “Serão etapas muito duras, com muito frio também e muitas subidas [a montanhas] cobertas de neve”, explicou, garantindo que ainda não é olhado com um respeito acrescido apesar de estar há uma semana no topo da classificação.

[Ouça aqui a entrevista completa de José Poeira:]

Como se explica o sucesso do ciclismo nacional

“Tendo em conta que só passou uma semana, olham para mim como alguém que tem capacidade. Mas como alguém que lhes deve causar preocupação na luta pela vitória? Ainda não. Se mantiver a camisola rosa durante mais uma semana, se calhar, vão pensar de forma diferente”, terminou João Almeida. Já José Poeira, selecionador nacional de ciclismo, tem uma opinião semelhante mas menos definitiva. Em entrevista ao programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador, o treinador lembrou que esta é “a primeira Grande Volta” que o ciclista faz.

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“Não se sabe, sinceramente. Sabemos o que ele conseguiu até aqui, já superou algumas expectativas. Uma corrida destas são muitos dias, é preciso estar bem todos os dias. Ele é um miúdo de 22 anos, vamos ver. Também há corredores que estão à espera da última semana para fazer ataques mais fortes. Mas se não conseguir este ano, passado um ano ou dois, com mais experiência e ais resistência, ainda a traz”, garantiu José Poeira. Certo é que esta terça-feira, na 10.ª etapa e depois do primeiro dia de descanso, João Almeida voltava a defender a camisola rosa do Giro ao longo de 177 quilómetros entre Lanciano e Tortoreto que tinham a possibilidade de terminar ao sprint.

Mitchelton-Scott e Jumbo-Visma desistem do Giro devido a casos de Covid-19. Kruijswijk, que era 11.º, está infetado

O dia começou intensamente marcado pela Covid-19. Depois dos 571 testes realizados esta segunda-feira, a Mitchelson-Scott e a Jumbo-Visma acabaram por desistir da competição: a primeira detetou quatro casos positivos no staff, a segunda tinha Steven Kruijswijk, o chefe de fila, infetado. O ciclista holandês de 33 anos estava em 11.º, a 1.24 de João Almeida, e deixa assim o Giro depois de já ter falhado o Tour devido a uma lesão no ombro. Pelo meio, Michael Matthews, sprinter da Subweb, também testou positivo e abandonou a prova, enquanto que a INEOS e a AG2R La Mondiale também detetaram casos na estrutura.

Depois de ter sido fotografado com a camisola rosa a servir de almofada — na sequência da imagem viral em que aparecia a dormir vestido com a mesma camisola na primeira noite em que a levou para casa –, João Almeida aparecia nos primeiros lugares do pelotão à passagem dos 50 quilómetros iniciais. Por perto, estava Rúben Guerreiro, líder da classificação de montanha e vencedor da etapa de domingo; mais à frente, cerca de sete fugitivos, incluindo Peter Sagan, Simon Clarke e Filippo Ganna.

103rd Giro d'Italia 2020 - Rest Day 1 - Team Deceuninck - Quick-Step - Press Conference

A sessão fotográfica em que João Almeida apareceu com a camisola rosa a fazer de almofada

Sagan passou mesmo em primeiro no sprint intermédio de Giulianova, seguido por Ganna e Jhonatan Restrepo, e a cerca de 50 quilómetros do final os ciclistas arrancaram a série de exigentes subidas ao Tortoreto — incluindo uma de categoria 4 — debaixo de alguma chuva. O pelotão encurtou para dois minutos a distância para o grupo da frente quando faltavam pouco mais de 30 quilómetros para a meta e Pello Bilbao, terceiro classificado da geral, foi o primeiro a fugir para se aproximar definitivamente dos fugitivos. Mais atrás, os ciclistas da Astana apareciam seguidos de João Almeida, que descolou do pelotão guiado por dois colegas da Deceuninck–Quick-Step.

A ver Bilbao a apanhar o grupo da frente, o ciclista português começou a pedir mais ritmo aos colegas de equipa e assumiu pessoalmente a dianteira do pelotão, acelerando para encurtar a distância para o espanhol da Bahrain-McLaren — numa extraordinária demonstração de força não só da Deceuninck como do próprio João Almeida, que deixou clara a vontade de segurar a camisola rosa pelo menos por mais um dia. Com Bilbao já só com Peter Sagan e Ben Swift pela frente, o eslovaco assumiu a candidatura à vitória na corrida a pouco mais de 10 quilómetros da meta: praticamente na mesma altura em que João Almeida, sozinho, voltou a levar novamente o pelotão às costas.

Já nos últimos quilómetros, o ciclista português liderou o pelotão até apanhar Bilbao e assegurar desde logo a manutenção da camisola rosa e do primeiro lugar da classificação, terminando em terceiro depois de voltar a surpreender na reta da meta — e conquistando segundos tanto a Kelderman como ao espanhol, segundo e terceiro da geral. Lá à frente, Peter Sagan ganhou a 10.ª etapa do Giro e regressou às vitórias mais de um ano depois, seguido por Mikkel Bjerg, da UAE Team Emirates.