“Foi um corredor muito forte, certamente um dos mais fortes”. A 12.ª etapa da Volta a Itália era mais do que uma etapa, por toda a carga simbólica que transportava por se passar na totalidade dos seus 204 quilómetros na cidade de Cesenatico, na costa do Adriático. Aqui é a terra de Marco Pantani. Aqui está a memória de Marco Pantani. Aqui ficará todo o legado de Marco Pantani. O Pirata, como também era conhecido, que ganhou há exatamente 20 anos a última etapa de uma grande Volta, partiu cedo com apenas 34 anos mas deixou uma marca forte no ciclismo em termos mundiais, não só pelas vitórias no Tour e no Giro mas também pelo próprio carisma. Toda a etapa, na estrada ou nos comentários, iria versar sobre o trajeto do corredor transalpino. A surpresa, que o é cada vez menos, até terem perguntado a João Almeida, que nasceu no ano de maior sucesso de Pantani (1998), que imagem tinha sobre o filho pródigo da terra, na condição de líder da Volta a Itália na partida para a etapa.

Mais um dia, mais uma rosa: João Almeida soma nono dia na liderança do Giro (mais do que o vencedor em 2019)

E este era um ponto muito importante, no limite com carácter decisivo, não só nesta segunda semana de corrida mas também na própria prova – até segunda-feira, o segundo e último dia de descanso, havia esta etapa, depois no sábado o contrarrelógio de 34 quilómetros e no domingo a etapa a subir até Piancavallo. No entanto, a tática do português estava bem definida, até pelo que aconteceu na terça-feira quando agarrou nas rédeas do pelotão, foi “buscar” Pello Bilbao e fechou com um terceiro lugar que lhe deu mais quatro segundos de bonificação. “Não tenho planos em atacar mas continuar a fazer o meu melhor. Vai ser um dia duro mas estou confiante. Continuarei a dar o meu melhor para defender a camisola rosa”, destacou o ciclista da Deceuninck Quick-Step.

Se alguém atacar, toda a gente tem de perseguir, não sou só eu que quero ganhar. Não tenho intenção de atacar, só vou dar tudo para defender a liderança. Sei que vão tentar qualquer coisa, num dia com muito sobe e desce, vamos ver como estarão as pernas. Acho que não vão atacar na última subida, vai ser antes. Será um teste de força”, reforçou na antecâmara da etapa em Cesenatico.

Como seria de esperar, o primeiro grupo de fugitivos saiu ao quilómetro 12 e com 12 corredores. Mais à frente, eram 13 os elementos com mais de dez minutos de avanço sobre o pelotão, François Bidard,  Simon Pellaud, Mark Padun,  Manuele Boaro, Cesare Benedetti, Joey Rosskopf, Jesper Hansen, Simon Clarke, Albert Torres Barcelo, Victor Campenaerts, Jhonatan Manuel Narvaez Prado, Maximiliano Richeze e Etienne Van Empel, a que se juntou poucos quilómetros a seguir Hector Carretero Milan. Pellaud, Van Empel e Richeze foram os três primeiros a passar na primeira contagem de montanha, neste caso de quarta categoria, uma classificação que teve muitos pontos parecidos na segunda contagem, com Pellaud e Van Empel a serem os melhores. Rúben Guerreiro continuava no pelotão, “abdicando” da luta pelos pontos para reforçar a liderança da camisola azul da montanha para poupar energias e por perceber que não era pelo dia de hoje que colocar o objetivo em risco.

O pelotão estava cada vez mais curto mas com todos os favoritos juntos, com mais ou menos acompanhamento da equipa. Já na frente, Simon Clarke, da EF Pro Cycling, arriscou fugir de um grupo onde continuavam Joey Rosskopf, Jhonatan Narváez, Jesper Janse, Manuele Boaro, François Birard, Mark Padun e Simon Pellaud, de onde descolaram de seguida Padun e Narváez. A diferença para o pelotão era de quase cinco minutos, numa parte mais complicada ainda pelo frio e pela chuva que obrigava os corredores a tirar e colocar capa. A 15 quilómetros no final, Narváez estava na frente, Padun a tentar encostar, os restantes fugitivos perderam o contacto na luta pela etapa e João Almeida manteve-se muito sólido num pelotão reduzido a 30 elementos mas sem margem para grandes ataques, que foram sendo adiados e adiados até deixarem de fazer sentido na parte final.

Jhonatan Narváez conseguiu mesmo ganhar na terra de Pantani, com uma diferença sempre a subir em relação a Padun nos últimos quilómetros naquela que foi a terceira vitória em etapas da Ineos depois dos dois triunfos de Filippo Ganna. Quanto a João Almeida, manteve a vantagem de 34 segundos para Wilco Kelderman e de 43 segundos para Pello Bilbao. Esta sexta-feira, a etapa de 192 quilómetros entre Cervia e Monselice será sobretudo para rolar, tendo apenas duas pequenas contagens de montanha de quarta categoria na parte final. E o duelo de que já se fala é o mesmo dos últimos dias: conseguirá Démare chegar à quinta vitória (o que permitiria igualar o registo de Mark Cavendish) ou será Sagan a conseguir o segundo sucesso ganhando os 50 pontos?