Há desculpas que não se pedem: evitam-se. Como quando o nosso amigo cinéfilo nos pede a pés juntos para ir ver “aquele novo filme de que toda a gente está a falar”, mas a vontade é pouca, a preguiça ainda maior e anda por aí um vírus no mínimo incoveniente. Mas os canais TVCine vão trocar as voltas aos compromissos de 20 a 22 de novembro. Não é uma sala de cinema, nem substitui as pipocas a suar de açúcar, mas sempre tem mais uma opção para o segundo fim de semana com o recolher obrigatório. Durante três dias, estes quatro canais vão ficar em sinal aberto, com mais de 150 filmes para ver, qualquer que seja a sua operadora (Vodafone, MEO, NOWO ou NOS). É certo que não vai poder convidar o amigo cinéfilo — a não ser que more consigo. Pode sempre ligar-lhe mais tarde e contar-lhe todos os spoilers, para se vingar dos eternos convites. “Crown Vic” (que não foi estreado em Portugal), “Bombshell — O Escândalo” ou “Tristeza e Alegria na Vida das Girafas” são algumas das dez sugestões que o Observador tem para lhe dar.

“Midsommar”

Sábado, 21, 23h15, TVCine TOP

Sim, terror ancestral à luz do dia na Suécia. É tudo o que precisa nestes dias. O filme de Ari Aster (realizador de “Hereditário”, que escreveu uma espécie de bíblia com 100 páginas para este seu novo trabalho), tem como protagonista Dani (Florence Pugh, que tem entretido milhares de pessoas com as suas lições de culinária no Instagram) que vai com o seu namorado, mais dois dos seus amigos, até à comunidade dos Hagra, para assistirem às comemorações do Solstício de Verão, celebradas de 90 em 90 anos. Sim, é uma história para não o deixar a dormir à noite, principalmente porque “Midsommar” é tudo menos o tradicional filme de terror: ritmo lento, crenças e rituais que nos dão a volta à cabeça, mas que não nos deixam levantar da cadeira (ou do sofá, neste caso). Aqui não há sustos imediatos, há o confronto entre o passado tradicional e religioso e o presente ocidental, exercício digno para lhe tirar o sono. Agora já sabe, pense duas vezes antes de voltar a fazer uma coroa de flores. Ou de viajar até à Suécia.

“Crown Vic”

Domingo, 22, 21h30, TVCine Top

Já recuperou das imagens que viu do “Midsommar”? Então agora aqui fica uma sugestão mais leve, patrocinada por Joel Souza (realizador), na qual um turno de patrulha de dois polícias (um veterano, outro rookie) nos leva pela noite dentro e por diferentes tipos de incidentes, desde assaltos a carros a arder. O filme teve estreia em 2019 mas não passou por cá, e olhando para a média das críticas no agregador Rotten Tomates (58%), a razão é percetível. Mas nada tema, até porque para os fãs de automóveis, há uma ou duas boas razões para ver este filme: uma delas é que o título é pedido emprestado ao primeiro modelo de carro da polícia de Los Angeles feito pela Ford. Não se ponha é com ideias de desrespeitar a autoridade por estes dias. O resultado não tem sido o melhor. Fique-se pelas ficções.

“Amy”

Sexta, 20, 22h00, TVCine Edition

Amy Winehouse morreu em 2011 aos 27 anos, mas continua a deixar saudades. Este documentário, estreado em 2015, esteve envolto em polémica. Tudo porque a família da cantora de soul e R&B criticou bastante o projeto, sendo que numa primeira fase até chegou a apoiá-lo. Neste filme acompanhamos o trajeto de Amy Winehouse através de imagens de arquivo, sem a sua voz off, mas através das suas letras. Será difícil não se deixar levar pela emoção, mas não se esqueça de uma coisa: a equipa que realizou este documentário, liderado por Asif Kapadia, foi a mesma que fez “Senna”, sobre o piloto brasileiro de Fórmula 1, que morreu com 34 anos. O preço da fama, a vida e a morte, anjos e demónios, ascensão e queda. Tudo ingredientes que asseguram as melhores histórias, mais ainda se forem reais.

“Bombshell — O Escândalo”

Sexta, 20, 21h30, TVCine Top

Donald Trump, o ainda presidente dos Estados Unidos da América, fartou-se da Fox News. Mas o cinema não. Os casos de assédios sexuais na cadeia de televisão mais republicana da América que ditaram, por volta de 2016, o princípio do fim de Roger Ailes (aqui interpretado por John Lithgow), o homem que revolucionou o canal. A história centra-se em três personagens femininas, duas pivôs de currículo invejável e uma novata que simboliza toda a política de contratação por aqueles lados: Gretchen Carlson (Nicole Kidman), Megyn Kelly (Charlize Theron) e Kayla Pospisil (Margot Robbie). Parte desta denúncia pública deu gás ao movimento #MeToo, mas o filme consegue fazer outra coisa: na hora da discriminação somos, infelizmente, todos iguais. Jay Roach (“Trumbo”) foi o homem escolhido para realizar esta autêntica bomba interna que explodiu no edifício que, como muitos já escreveram, contribuiu e muito para uns EUA cada vez mais divididos. Não se esqueça de mandar um tweet a Trump com um frame do filme. Pode ser que deixe mesmo de seguir a Fox News ou lhe faça uma review no final.

“Seberg — Contra Todos Os Inimigos”

Sábado, 21, 21h30, TVCine Top

Já estamos todos um bocadinho cansados de ver Kristen Stewart a morder pessoas no “Twilight”, não estamos? A pergunta não é ingénua, já que o filme costuma repetir muitas vezes nos canais portugueses. Ora, esta sugestão de longa metragem não inclui seres imortais com super poderes nem lobisomens, mas sim direitos civis, o movimento Black Lives Matter e o FBI. Pois bem, Jean Seberg, atriz americana que viveu em França (protagonista de filmes como “Bom Dia, Tristeza” ou “O Acossado”), vê-se envolvida numa luta com aquela agência federal americana, liderada por J. Edgar Hoover, por defender direitos humanos — e por se envolver com Hakim Jamal, ativista dos direitos civis. Uma espécie de biopic mas com uma evidente intenção política. Há lá melhor sugestão para os tempos que vivemos?

“A Lagosta”

Sábado, 21, 00h50, TVCine Edition

Este filme contraria, quase por completo, o momento pandémico que vivemos: o realizador grego Yorgos Lanthimos resolve criar uma história (a sua primeira em língua inglesa) sobre uma lei que proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Já o novo coronavírus quase que proíbe as pessoas de se divorciarem. Colin Farrell e Rachel Weisz são os protagonistas deste enredo bizarro e absurdo que os leva até a um hotel onde têm 45 dias para encontrar um parceiro, se não transformam-se num animal, que servirá de caça. Um filme negro, divertido (para os mais sádicos), mas que não é mais do que um exercício para nos questionarmos sobre o que de mais básico nos une: o amor, muitas vezes esquecido só para fazer “check” na “lei” das aparências da vida moderna. Mas descanse, da próxima vez que estiver a comer lagosta, não vai estar a deglutir o amor da sua vida. Quer dizer, a não ser que o seu nome seja Yorgos Lanthimos, claro.

“Para Sama”

Sexta, 20, 13h35, TVCine Edition

Documentário que esteve nomeado para os Óscares, aborda um país cada vez mais esquecido nos nossos dias: a Síria. Assenta, sobretudo, na vida de Waad al-Kateab durante os anos de revolta em Aleppo, onde consegue encontrar algum resquício de esperança, casando-se e dando à luz a filha Sama. Sim, o filme é home made, registado com uma câmara digital durante cinco anos, em que Waad Al-Kateab teve também a ajuda na montagem do jornalista e documentarista inglês Edward Watts. O conflito, o horror, o amor, a indecisão de fugir, tudo na primeira pessoa, ao mesmo tempo que vários países interferiam na guerra. Uma carta de amor repleta de humanidade, no meio de um dos cenários mais aterrorizadores do século.

“Tristeza e Alegria na Vida das Girafas”

Domingo, 22, 15h05, TVCine Edition

Pode-lhe ter passado despercebido, mas este é um dos filmes portugueses mais bem escritos dos últimos tempos. Não por ser um daqueles dramas que nos atiram ao tapete, mas por ser profundamente imaginativo,  numa história que gira à volta de uma criança (Maria Abreu), da importância de uma girafa e de um urso, o Judy Garland (Tonan Quito está de levar às lágrimas de riso). Uma fábula trágico cómica que tem como missão encontrar uma solução que envolve o Discovery Channel e o primeiro-ministro (Tiago Rodrigues). Este filme de Tiago Guedes, baseado numa peça de 2011 — quando a troika estava por cá em peso –, traz-nos as dores de crescer, das que nos obrigam a esquecer a ingenuidade e a aceitar responsabilidades, mas também nos mostra como o país estava (ou ainda está) à beira do abismo. É duro dizer adeus à nossa infância, aos nossos brinquedos. Talvez seja mais fácil aos olhos de uma criança. E talvez seja mais fácil com cinema contemporâneo português.

“Filme do Bruno Aleixo”

Domingo, 22, 15h20, TVCine Emotion

Sim, esse mesmo. A personagem cómica natural de Coimbra, que anda ali entre um cão e um ewok, criada por João Moreira e Pedro Santo, ganhou um filme o ano passado. Tudo porque Bruno Aleixo foi convidado para fazer um filme sobre a sua vida. Para isso, resolve pedir a ajuda a alguns dos seus amigos mais próximos (Renato Alexandre, Homem do Bussaco e Busto), com o objetivo de se debruçarem sobre vários géneros da sétima arte, do terror ao policial, juntando caras “menos conhecidas” como Gonçalo Waddington, Adriano Luz ou Rogério Samora. Mais uma peça para juntar a este fenómeno português de culto, que tanto serve como homenagem ao cinema, como para recordar o porquê de Bruno Aleixo ter ganho tantos fiéis seguidores (daqueles que até compram meias com a sua cara estampada): o de ser um retrato genuíno de todo o mundo que existe neste país para lá de Lisboa e Porto. Não se engane no canal, se não já sabe: “calhou cócó”.

“Histórias Assustadoras para contar no Escuro”

Domingo, 22, 14h05, TVCine Action

Este filme quase não precisa de explicação, o título é esclarecedor. Um bom final para esta lista, uma história que nos crie arrepios na espinha. Foi assim que começou, é assim que vai terminar. É verdade que o cinema serve como escapatória para a vida real — que já está bem sombria — mas também precisamos de ganhar coragem, por isso, apague todas as luzes, junte-se a quem tiver à mão e abra as cordas vocais em histeria para ver esta história que se passa em Mill Valley. Em pleno Halloween de ‘68, e de visita a uma casa assombrada, um grupo de adolescentes dá de caras com um livro repleto de histórias macabras que foram escritas por outra jovem. Mas atenção, se está à espera de mais um terror previsível, desengane-se. Pelo menos tendo em conta alguns elementos que fazem parte da equipa técnica liderada por André Ovredal, como Guillermo del Toro, que foi um dos argumentistas e produtores. Um “Stranger Things” para celebrar a puberdade, no fundo. A melhor parte de tudo isto é que o filme passa no domingo à tarde. Portanto, quando acabar, abra as cortinas e respire à janela. Mas não se esqueça de trancar a porta de noite.