Era a notícia que ninguém queria dar. Era a notícia que, sendo uma notícia, todos gostariam de ser os primeiros a dar. Era mais do que uma notícia, era a notícia. Em Portugal, como em Espanha, em Itália ou no Brasil, todos foram começando a fazer uma linha, um título e uma frase citando aquele link viral que não demorou a inundar grupos de WhatsApp, caixas de mensagens e contas de emails: a peça que acabara de ser publicada pelo jornal argentino Clarín (o mesmo que tinha dado a conhecer há uns meses aquele burofax da rescisão de Lionel Messi com o Barcelona, numa saída que acabou por não acontecer). Que podia ter saído mais cedo mas que demorou o que foi preciso até haver certeza da notícia que ninguém queria dar mas que todos gostariam de ser os primeiros a dar.

Desde que o redator Mariano Verrina enviou a mensagem “Morreu” ao editor de Desporto, Martín Voogd, às 13h06 locais (mais três em Portugal), foram 58 segundos até a notícia ser publicada. “Morreu Diego Maradona”, a abrir. “Comoção mundial”, a seguir. “Já é uma lenda”, acrescentaram de seguida. Antes, tudo acontecera em 17 minutos, entre uma informação recebida por Voodg que dizia que o astro argentino estava mal e a confirmação. Foi também nesse tempo que todo o resto da redação começou a preparar as dezenas de textos que se seguiriam.

E como se chegou a essa informação? O estado de espírito da enfermeira que monitorizou Maradona desde que foi para a sua casa no bairro de San Andrés de Tigre dizia quase tudo. “Não, não pode ser… Não, não…”, dizia entre dentes enquanto andava de um lado para o outro à entrada da casa já com duas ambulâncias no local. A terceira, ao contrário das outras, vinha de sirenes ligadas. Foi a partir daqui que o Clarín percebeu que esta não era apenas mais uma recaída como as outras que tivera antes, em diferentes ocasiões. E começou a fazer chamadas.

As pessoas do círculo mais próximo de Diego que estavam em casa, como entretanto se tinha sabido, eram Johnny Espósito e Maximiliano Pomargo, além da “segunda mãe” Monona, que cozinhava e tratava há muito do astro. Foram os dois primeiros que começaram a ligar a pessoas próximas, como as três filhas que vivem na Argentina, Dalma, Gianinna e Jana, ao médico particular, Leopoldo Luque, e ao advogado, Matías Morla. Já se percebia aí que a situação era complicada, com a confirmação de que existiam tentativas de reanimação. Um outro editor, Julio Chiappetta, confirma a informação por outra fonte. O responsável pela Última Hora escreveu, um editor fez a revisão, um outro elemento procurou a foto. Às 13h04, o Clarín publica “Maradona com quadro grave”. Nova ronda de contactos e, dois minutos depois, duas das fontes dizem que acabou: Diego tinha morrido.

Na redação, uns recordaram a capa do jornal Crónica quando morreu o maior ícone da política nacional na era moderna, Perón, que tinha também apenas uma palavra: “Morreu”. Outros começaram a receber as reações de Nápoles, onde Maradona também era mais Deus do que era para o resto do mundo. Todos colocaram mãos à obra para um dos dias mais longos de sempre na redação do Clarín, que nessa altura ainda não tinha acedido ao último vídeo de Diego, na sua caminhada habitual, amparado, a acenar a uma vizinha que tinha o filho ao colo. Assim foi o dia que não mais será esquecido. Ali e em todo o lado. 25 de novembro não voltará a ser o mesmo.