As duas vitórias frente ao Inter na Liga dos Campeões não foram suficientes para apagar os tropeções que vieram a seguir, assim como o triunfo em Camp Nou com o Barcelona não tinha chegado para estabilizar todo o percurso da equipa. Depois da surpreendente derrota caseira frente ao Alavés após mais uma primeira parte onde a equipa não existiu em campo, o Real Madrid perdeu na Ucrânia com o Shakhtar Donetsk e colocou em risco a passagem aos oitavos da Champions, a que se juntava um quarto lugar na Liga com apenas cinco vitórias em dez jogos realizados. Num inquérito feito pela Marca, 57% dos adeptos ainda acredita na passagem aos oitavos da prova europeia a uma jornada do final mas é na análise ao desaire com a equipa de Luís Castro que se centram atenções, com 29% dos inquiridos a considerar que faltou intensidade e entrega, 20% a falar de problemas na finalização, 18% a ficar os erros defensivos, 17% a não concordar com as opções de Zidane e 16% a criticar a forma de jogar da equipa.

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Até aqui, a análise é mais ou menos expectável e até natural perante tudo o que tem acontecido sobretudos nos últimos cinco jogos, onde os merengues ganharam um e perderam três. Mas havia duas outras perguntas que dão pistas para o que se passa no conjunto de Madrid: perante este novo ciclo que envolvia uma deslocação a Sevilha, a recepção ao B. Mönchengladbach e o dérbi da cidade com o Atlético, havia mais pessoas a considerar que não iria ganhar na Liga e na Champions (40%) do que quem considerava que ganhava sempre na Champions e fazia quatro pontos na Liga (33%). E culpados? Um misto entre a qualidade do plantel (38%), o treinador (28%) e a falta de reforços no último verão (26%). Se Zidane se tornou um autêntico herói pela forma como regressou ao clube depois das experiências falhadas de Julen Lopetegui e Santiago Solari, e se na última época conduziu mesmo a equipa à conquista da Liga, a atual temporada trouxe o reverso da medalha e o próprio lugar em risco.

“Sabemos a situação que enfrentamos mas temos de mudar o chip. A situação é complicada, passámos algumas vezes por estes momentos e confio nos jogadores. Gostamos destes jogos. Se sinto a confiança do clube? Sim, aí completamente. Não podemos estar contente com o que se passa mas sabemos onde estamos e onde queremos ir. Críticas? Não posso comentar porque não me afetam, no meu cargo quando não se ganha é assim, surgem logo as críticas, mas não vou mudar a forma de pensar. Já tivemos muitos momentos complicados como este, até pode ser o pior mas penso positivo. Nunca me senti intocável, nem como jogador, nem como treinador, nem como pessoa. Estou aqui para viver o clube até ao último dia”, destacou Zidane antes do jogo em Sevilha.

O As, no lançamento do jogo grande da jornada em Espanha, ia mesmo buscar as projeções da FiveThirtyEight em relação aos clubes espanhóis, destacando que, embora o Real Madrid esteja numa posição sem margem de erro na Europa, tinha mais probabilidades de chegar aos oitavos da Champions (67%) do que em terminar nos quatros primeiros lugares do Campeonato (65%). No entanto, e mesmo defrontando um Sevilha com a situação resolvida na Champions apesar da última goleada sofrida com o Chelsea com póquer de Giroud que fez algumas poupanças para este encontro, contava-se com o “efeito Zidane” no balneário merengue, que consegue fazer chegar a ideia de redenção aos jogadores em situações limite mesmo havendo alguns jogadores esgotados entre o natural encantamento pelo técnico e os seus métodos, como realçava o El País. Foi isso que voltou a acontecer.

E falando de números, como tantas vezes foram citados antes neste texto, o filme estatístico da primeira parte era um enredo muito diferente daquilo que aconteceu. O Sevilha teve vários períodos de maior posse (consentida), foi jogando de forma mais segura a subir em termos territoriais, mas as oportunidades pertenceram quase todas ao Real Madrid em dois momentos distintos: primeiro, e em ataque continuado, Viníciu atirou a rasar o poste após assistência de Rodrygo (2′) e Bono ia deitando tudo a perder ao ver um pontapé para a frente bater em Vinícius antes de Benzema cabecear para o corte de Diego Carlos em cima da linha (4′); depois, já com um plano assente nas transições, Kroos rematou de meia distância a rasar o poste da baliza do Sevilha (20′) e Benzema obrigou Bono a grande defesa para canto após uma boa combinação coletiva (38′). Golos até ao intervalo, nada.

Também não demorariam muito mais, de novo contrariando a lógica do que se assistia em campo: com o Sevilha melhor, a jogar no terreno adversário e a ter muito mais posse, uma transição com combinação entre Benzema, Mendy e Vinícius acabou com um leve desvio do brasileiro que traiu o marroquino Bono, que estava à espera da bola antes do toque do avançado e acabou por fazer um autogolo (55′). Como tinha destacado numa entrevista ao ABC há duas semanas, “no Real Madrid não há sonhos, há só objetivos”. E foi isso mais uma vez que aconteceu, apesar de um livre de Gudelj que passou ao lado e um remate de Ocampos para defesa de Courtois contra um Real Madrid que se limitou a defender a vantagem com linhas baixas na última meia hora de jogo.