Grupos rebeldes em Cabo Delgado, Norte de Moçambique, realizaram esta terça-feira 29 de dezembro, dois ataques simultâneos no distrito de Palma, um dos quais nas redondezas dos megaprojetos de gás natural em Afungi, disseram à Lusa fontes locais.

Segundo um residente de Palma, os ataques ocorreram por volta das 5h (3h em Lisboa) e visavam a sede do Posto Administrativo de Olumbi e o povoado de Monjane, este último que fica a menos de 10 quilómetros das obras de construção dos megaprojetos de gás liderado pela francesa Total no Norte de Moçambique.

Durante a incursão dos rebeldes, pelo menos em Monjane, houve fortes confrontações com as Forças de Defesa e Segurança, que permanecem em elevado número na região, referiu o residente, acrescentando que, em função do ataque, o acesso a região está condicionado e as Forças de Defesa e Segurança permanecem na região.

“Nos dois ataques, não sabemos se houve mortes ou feridos, mas o que está claro é que agora não dá para entrar nem sair de Afungi com facilidade”, declarou a fonte em Palma, vila costeira, sede de distrito, adjacente ao megaprojeto.

Um funcionário de uma empresa subcontratada pela Total que está em Afungi disse à Lusa que os trabalhadores foram orientados a não abandonarem o recinto onde decorre onde vivem. “Fomos orientados a não abandonar o recinto e realmente quase que não estão a entrar carros em Afungi desde a manhã de hoje”, afirmou o funcionário, que acrescenta que as atividades do protejo que estão a decorrer no perímetro próximo a Monjane estão temporariamente paralisadas.

A Lusa contactou o porta-voz do comando-geral da Polícia da República de Moçambique, Orlando Modumana, que disse não ter informações sobre o assunto.

Este é o segundo ataque este mês próximo aos megaprojetos de gás, após um primeiro que ocorreu no dia 7 de dezembro na aldeia de Mute, a menos de 25 quilómetros da área onde está a ser construída a zona industrial de processamento de gás natural da Área 1 da bacia do Rovuma. O projeto, liderado pela Total, é o maior investimento privado em África, da ordem dos 20 mil milhões de euros.

Os novos ataques desta terça-feira ocorrem um dia depois de o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, pedir às Forças de Defesa e Segurança “máxima prontidão” face ao “silêncio do inimigo”, após operações com “bons resultados” por parte das forças governamentais em Macomia, outro distrito de Cabo Delgado que tem sido afetado com frequência pelas incursões dos rebeldes.

Das operações em Macomia, segundo dados oficiais, pelo menos 37 insurgentes foram abatidos e 27 armas foram apreendidas, em operações levadas a cabo pelo 7.º batalhão das Forças de Defesa e Segurança posicionado na região.

A violência armada em Cabo Delgado começou há três anos e está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes e 560 mil deslocados, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba. Algumas das incursões passaram a ser reivindicadas pelo grupo jihadista Estado Islâmico desde 2019.