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Um conjunto de “perplexidades”: assim resumiu Paulo Portas, no seu habitual espaço de comentário na TVI, este domingo, o que reteve da decisão de Ivo Rosa sobre a Operação Marquês, e que definiu que José Sócrates irá — se o Tribunal da Relação mantiver esta decisão — a julgamento por seis dos 31 crimes de que estava acusado. Uma das perplexidades será sobre a forma como Sócrates vivia, de “doações, pagamentos ou empréstimos”: “nunca conheci ninguém que vivesse assim…”.

Mas foram muitas mais as “perplexidades” que ficaram na cabeça do antigo líder do CDS, depois de uma decisão instrutória que mais “parecia um julgamento”: “Faz sentido uma instrução demorar dois anos? Faz sentido o TCIC (Tribunal Central de Instrução Criminal) ter apenas dois juízes? Faz sentido podermos ter praticamente a certeza de que se por acaso o sorteio fosse o oposto a decisão seria praticamente oposta? Será possível que a questão fiscal seja abordável daquela forma?”, questionou Paulo Portas.

Por tudo isto — e por Ivo Rosa ter considerado que existiam indícios de corrupção mas que esses crimes já estariam prescritos –, Portas censurou a reação de Sócrates, que com as suas declarações antes e depois de ouvir a decisão terá “contribuído para que parecesse que era o julgamento”. “Celebrar em tom de vitória uma decisão instrutória que pronuncia um ex-primeiro-ministro por crimes de branqueamento, associados a crimes de corrupção que prescrevem ou não têm prova determinada… não vejo que faça de uma pessoa vitoriosa”.

De resto, a opinião de Portas, que foi ministro e depois vice primeiro-ministro do Governo liderado por Pedro Passos Coelho depois da era Sócrates, a nível político “não muda” e “é definitiva”: “Foi o primeiro-ministro que irresponsavelmente nos conduziu à insolvência, chamou a troika, negociou com a troika aquele memorando, colocou-nos sem acesso a financiamento e numa situação de protetorado provisório”. Para mais, acrescentou, a “convicção que existe na sociedade” de que Sócrates vivia de “doações ou pagamentos ou empréstimos” para “mercadejar a personalidade” — expressão de Ivo Rosa — espanta Portas: “Nunca conheci ninguém que vivesse assim. Portanto, o juízo que faço sobre isso, sobre essa forma de vida, está feito. Outra coisa é que o sistema judicial seja capaz de qualificar esse comportamento como crime, se o for, e provar esse crime”.

O democrata-cristão deixou ainda um apelo: “Eu não olho para os processos judiciais como se fosse um jogo de futebol em que cada um veste uma camisola e deseja um resultado. Acho que não se deve incentivar esse comportamento”. O resto se verá quando houver decisões definitivas; como Portas lembrou várias vezes, esta etapa foi apenas instrutória e tem ainda de ser confirmada pelo Tribunal da Relação.

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