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Itália pode não ser uma monarquia há 75 anos, mas como em muitos outros casos, incluindo Portugal, as dinastias perduram muito para além do regime. No caso, o ano de 2019 voltou a agitar as águas entre os Sabóia, linhagem milenar que ocupou o trono durante 85 anos. Vittorio Emanuele, duque de Sabóia, filho do último rei italiano e herdeiro legítimo de uma coroa que já não existe, deu à neta um belíssimo presente pelo seu 16º aniversário — estendeu o direito de sucessão às mulheres da família. A princesa, atualmente com 17 anos, é agora o mais jovem elo na linha de sucessão — se o país não fosse uma república, Vittoria estaria destinada a ser a primeira rainha de Itália.

“Foi o melhor presente que me podia ter dado”, admitiu a própria, entrevistada pelo The New York Times, em Paris. Vittoria nasceu em Genebra, na Suíça, filha de Emanuele Filiberto — príncipe de Veneza e único filho (e único descendente homem) do duque de Sabóia — e da atriz francesa Clotilde Courau. Vive e estuda na capital francesa e é seguida por mais de 48 mil no Instagram. É aquilo a que chamamos influencer — partilha escolhas de moda e aponta a mira às últimas tendências, mas também já usou a rede social para se dirigir ao presidente Emmanuel Macron, quando os alunos dos colégios privados franceses se viram obrigados a comparecer presencialmente durante a época de exames, ao contrário dos estudantes das escolas públicas.

Vittoria de Sabóia, a influencer herdeira do trono italiano © Instagram.com/vittoria.disavoia

Ocasionalmente, viaja até Montecarlo, onde vive o pai, e visita a propriedade da família em Itália. Conquistar a simpatia dos italianos é a árdua tarefa que tem pela frente, embora fosse um erro subestimar o poder de uma influencer junto daquele público. A família imagina-a a abraçar causas sociais e a ascender a uma elite de herdeiras de tronos europeus, ao lado de Leonor de Espanha, Elisabeth da Bélgica, Victoria e Estelle da Suécia e Ingrid Alexandra da Noruega. Enquanto isso, uma Vittoria na flor da adolescência sonha em criar a sua própria marca de roupa.

“Ela passa os dias a estudar para os exames finais, a exibir tops curtos no Instagram, a dançar com os amigos e a comentar cusquices sobre Harry e Meghan na escola”, escreveu o The New York Times, no início de maio. “Não quero parecer diferente. Sou a Vittoria”, admitiu na mesma entrevista ao jornal norte-americano. Uma coisa é certa: a família tem uma imagem a limpar e não é preciso recuar quatro gerações para encontrar nódoas difíceis de eliminar. Em 2006, o duque de Sabóia, seu avô, atualmente com 84 anos, foi detido por suspeitas de corrupção e lenocínio. Dias depois, foi colocado em prisão domiciliária e libertado semanas mais tarde. Entre 2007 e 2010, foi ilibado de todas as acusações.

2018 Vanity Fair Oscar Party

O príncipe Emanuele Filiberto e a mulher, a atriz francesa, Clotilde Courau, país de Vittoria © Axelle/Bauer-Griffin/FilmMagic

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Durante décadas, os descendentes do último rei de Itália estiveram impedidos de entrar no país, situação que mudou apenas em 2002, declarada publicamente a lealdade de pai e filho à Constituição Italiana. Desde então que o príncipe de Veneza, atualmente com 48 anos, se tem esforçado por cair nas boas graças dos italianos, participando em concursos de televisão e dando a cara em campanhas publicitárias.

Uma breve (e recente) história da monarquia italiana

Itália é uma terra sem rei desde 2 de junho de 1946 (os 75 anos de república assinalam-se muito em breve), dia em que, por meio de um referendo, o povo escolheu passar a ter um presidente como chefe de Estado. Umberto II, bisavô da princesa Vittoria, exilou-se então em Cascais para nunca mais regressar ao seu país. Para trás ficava pouco mais de um mês de reinado (ficou conhecido como o ‘Rei de Maio’) e uma missão praticamente impossível, a de restaurar a confiança dos italianos na monarquia, numa altura em que esta estava por um fio.

The Italian Royal Family Around 1941

Umberto II em 1941, com a mulher, Maria José da Bélgica, e três dos seus quatro filhos: os príncipes Vittorio Emanuele, Maria Gabriela e Maria Pia © Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images

O pai, Vittorio Emanuele III, abdicara do trono. A sua passividade perante a ascensão de Benito Mussolini rapidamente se convertera num apoio silencioso ao homem que mergulhou o país numa ditadura fascista durante mais de duas décadas. Mas esta não foi a única mancha na imagem do monarca, o penúltimo a ocupar o trono. As demoradas negociações com os Aliados, pela manutenção da monarquia, após a queda do ditador resultaram na invasão do país por parte da Alemanha de Hitler. Mais tarde, a assinatura do rei viria a ser descoberta em diplomas que autorizaram a deportação de judeus italianos para campos de concentração nazis.

A atuação do soberano causou danos irreversíveis na imagem da monarquia italiana. No país, a repulsa pela família real dura até hoje. Em 2017, decorridos 70 anos da sua morte, os restos mortais de Vittorio Emanuele III, bem como os da mulher, Elena de Montenegro, regressaram a Itália. Sem pompa ou aparato, os caixões foram depositados no mausoléu dos Sabóia, em Vicoforte, Piemonte. A decisão, que contou com o aval do presidente da república Sergio Mattarella e ainda com o apoio de Maria Gabriela de Sabóia, neta do antigo rei, suscitou polémica de ambos os lados.

Vittorio-Emanuele Iii, King Of Italy In The 1930S

O rei Vittorio Emanuele III, nos anos 30 © Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images

A comunidade judaica italiana demonstrou preocupação com o “regresso” de uma figura, para todos os efeitos, infame, enquanto Luigi Di Maio, hoje ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, fez referência ao acontecimento como o “reabrir de uma ferida histórica”. À direita, falou-se no completar de um ciclo de “pacificação nacional”. O acontecimento acentuou a contenda dentro da família. Sobre o regresso dos restos mortais do bisavô a solo italiano, o príncipe Emanuele Filiberto reiterou uma posição já antes assumida — de que o antigo rei deveria ter tido como última morada o Panteão de Roma e não um jazigo de família.

Sabóia: uma família em contenda por um trono que não existe

O anúncio de que o atual duque de Sabóia havia estendido à neta o direito de sucessão, estatuto vigente em praticamente todas as monarquias europeias, da britânica à espanhola, não caiu bem ao outro lado da família, encabeçado pelo príncipe Amadeo, duque de Aosta. O desagrado deve ser contextualizado à luz de uma contenda que já vai longa e que se inflamou em julho de 2006. À data, este príncipe, trineto de Vittorio Emanuele II, rei de Itália entre 1861 e 1878, e bisneto de Amadeo I, o único Sabóia da história a ocupar o trono espanhol, autoproclamou-se chefe da Casa de Sabóia e herdeiro legítimo da coroa italiana, retirando o direito ao seu primo afastado.

Amadeo, atualmente com 77 anos, alegou que Vittorio Emanuele havia perdido o direito de sucessão ao casar-se sem a permissão do pai (com uma esquiadora de alta competição), violando a lei que rege a monarquia italiana. Este, por sua vez, juntamente com o filho, ripostou na justiça. Em 2010, o tribunal de Arezzo decidiu a seu favor, obrigando o duque de Aosta e o filho, o príncipe Aimone, a compensar os primos pelos danos causados. Além dos 50 mil euros a pagar, aquele lado da família ficou ainda impedido de usar o sobrenome Sabóia — Sabóia-Aosta é a assinatura que lhes é imposta desde então.

Amedeo Of Savoia And Vittorio Emanuele

Os príncipes (e primos) Amadeo e Vittorio Emanuele (à direita), em 1964 © Giorgio Lotti/Mondadori via Getty Images

Uma coisa é certa: sem estender o direito de sucessão às mulheres da Casa de Sabóia, a linhagem do duque tinha os dias contados — o príncipe Emanuele Filiberto é filho único e tem apenas duas filhas, Vittoria e Luisa. A decisão reacendeu a contenda. Ao The New York Times, o príncipe Aimone classifica a nova sucessora como “totalmente ilegítima”, embora demonstre um bom senso que terá escapada à geração anterior.

Apesar de nunca ter sido confirmado, Vittorio Emanuele terá agredido o primo, o príncipe Amadeo, com dois murros na cara, isto em 2004, no casamento do então príncipe Felipe de Espanha. “Não é uma boa relação, no mínimo”, admitiu. Para o herdeiro da Casa de Sabóia-Aosta, nada como evitar disputas em praça pública: “Tento manter-me o mais digno possível, de acordo com a responsabilidade que o nome acarreta”.