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Uma casa apalaçada por fora, toda catita, e um espaço em total degradação por dentro, como uma fruta fora de época, bonita por fora, sensaborona por dentro — foi assim que Jackson e Elliot encontraram o antigo hostel Oasis Backpacker’s, junto ao miradouro de Santa Catarina. O interior não tinha ponta por onde se lhe pegasse e isso serviu para que arregaçassem mangas, com mais meia dúzia de amigos, no último confinamento, para voltarem a erguer um espaço que já viveu os seus tempos de glória. Não para nascer outro hostel, mas para abrir aquilo que é uma casa colaborativa, o CoCasa. Durante o dia quer ser um cowork com café de especialidade, ao final da tarde transforma-se numa espécie de festival de street food todos os dias com comida diferente.

“Depois destes confinamentos e do afastamento que a Covid trouxe, queríamos criar aqui uma comunidade que juntasse no mesmo espaço o que nós gostamos”, confessa Jackson. O espaço foi durante 15 anos um hostel, dirigido sobretudo à comunidade viajante, onde Jackson se incluía e onde até chegou a trabalhar durante algum tempo. No primeiro confinamento o australiano decidiu mudar-se para Lisboa e deu conta do estado de degradação em que o espaço estava a entrar. Já Elliot, que tinha passado pela cozinha do restaurante Crispy Mafya, acabou por ter no Verão do ano passado um pop up só seu, o Tutti Frutti — mas as burocracias e os encargos não compensavam o investimento.

Posto isto, juntaram-se a mais uma catrefada de amigos para tornar o espaço apetecível. Todos ao molho e com fé numa comunidade criativa— é assim que se vive o CoCasa, numa lógica de lar colaborativo, mas sem camas para dormir. Aqui trabalha-se, vive-se a cultura e come-se, mas come-se muito e diferente. São, aliás, os restaurantes pop up que tomam conta deste sítio todos os dias que mais saltam à vista. “A ideia é que possamos ter aqui uma espécie de mini festivais de street food todos os dias”, explica Elliot.

O palco será o pequeno pátio que dá acesso ao espaço, já com mesas e cadeiras para chamar o verão, e os carrinhos que vão mudando o que é servido a cada dia, que pode ir de kebabs a ostras. A cozinha é partilhada por todos os conceitos pop up que por aqui se instalarem.

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De terça a sexta feira funcionam em permanência as marcas de Elliot, que se aventurou em dois novos projeto plant-based desta vez: o Beauty’s Burger Club e o Bonitas Burrito Club. Os nomes denunciam os elementos centrais de cada um dos pop ups, sendo que o primeiro é inspirado nos hambúrgueres americanos ainda que 100% vegetais, como o Double Patty (10 euros), Beautys Classic (10 euros) e o Bacon Double Classic (12 euros), acrescentando as batatas fritas normais (2 euros) ou batata doce frita (3 euros). No menu estão ainda milkshakes (5 euros) de pastel de nata, Oreo e coco e morango.

Os pop ups Beauty’s Burger Club e o Bonitas Burrito Club são os que estarão no CoCasa em permanência ©João Pedro Morais/OBSERVADOR

Já o Bonitas Burritos são “ao estilo californiano” também veggie e têm opções como Barbacoa Beef (9 euros) com “carne” vegetal assada lentamente, feijão pinto, arroz cítrico, pico de gallo e salsa verde, o Chipotle Chicken (8 euros), com “frango vegetal” grelhado, pimentos assados, cebola, feijão e arroz cítrico, sendo que está também disponível a versão bowl (8 euros) de ambos os burritos, que podem ser acompanhados com nachos temperados (7 euros).

Às sextas é dia de Nico entrar em ação com as suas sanduíches Kendrick, o nome do pop up que criou quando chegou a Lisboa. São uma espécie de kebabs de base vegetal feitos com raíz de aipo marinada e depois condimentada com molhos antes de rechear por completo o pão pita caseiro feito de propósito pela padaria Slow Sourdough&Co.. Custam 7 euros e o molho é escolhido na hora.

As ostras da Oyster Point estão presentes também, sendo que os dias vão sendo anunciados na página de Instagram da marca ©João Pedro Morais/OBSERVADOR

Além destes com dia fixo, vão oscilando nos restantes dias o pop up de Maria da Oyster Point, que traz ao CoCasa ostras frescas do Sado e crab rolls, usualmente aos sábados, e também o pop up mais calórico, o da Basic Pizza com pizzas napolitanas quentes e fofas. No menu há apenas três opções: a Margherita (7 euros), a Bianca (8 euros) com queijo de cabra, queijo fresco e avelãs, e uma calzone (9 euros) com queijo fresco, tomate e salame.

Aos domingos, é habitual acontecer um brunch turco (15 euros por pessoas) com halloumi grelhado, dips de beterraba, tomate e beringela, flatbread com vegetais e cordeiro ou queijo, bal kaymak, uma especialidade turca feita a partir do leite de búfala regado com mel, e ainda bebidas quentes e frias. Às segundas há massa fresca do projeto italiano Hungry4Pasta, cujos menus são divulgados na sua página.

No mesmo piso onde está a cozinha e a zona de cafetaria — entregue ao café de especialidade Buna, com casa no Poço dos Negros —, logo à entrada, funciona também um espaço de cowork informal, para quem quer passar um dia a trabalhar fora da sua zona de conforto. Nesta zona, as pessoas podem ficar para trabalhar e pegar um montante diário que inclui também uma refeição do menu fixo da casa. O segundo piso, com três quartos, está reservado a salas de cowork de maior duração, podendo ser alugadas mensalmente ou por períodos de tempo mais longos.

O último piso é mais versátil e além de uma pequena sala para terapias de relaxamento tem outra multifunções para receber eventos de toda a espécie ©João Pedro Morais/OBSERVADOR

No último piso, com direito a uma varanda com vista desafogada para os telhados lisboetas e para a outra margem do rio, está uma sala híbrida pronta a receber todo o tipo de eventos, conta-nos Jackson. É aqui, onde antes repousavam camas e beliches do hostel, que vão acontecer grande parte dos eventos que têm pensados para o espaço que não estejam relacionados com a comida — isso será na esplanada — como é o caso de sessões de cinema, exposições ou aulas de yoga. Ainda nesse piso, existe outro compartimento que será um centro de bem-estar onde não entra tecnologia, só terapias alternativas e de relaxamento. Já na varanda querem fazer provas de vinhos, sobretudo naturais.

Paulo, que já conhecia os dois amigos, foi chamado para assumir o papel de community manager, ficando assim responsável por manter a agenda cheia de conversas, noites de cinema, eventos de bem-estar, para que “haja sempre alguma coisa para fazer, comer e beber, sempre algo a acontecer”, diz. “No fundo, a ideia é montar um espaço dentro da cidade que possa ser um oásis, como o hostel digamos, onde tens tudo, um refúgio para quando precisas de fugir”.

Na cave do espaço a magia é outra: numa das salas funciona uma espécie de oficina de fermentação para fazer kombucha caseira, obra de Maria — também responsável pelas ostras — e de uma amiga. O espaço deste piso ainda está a ser reorganizado e a ideia é que nasça ali também um estúdio para fazer rádio e podcasts num futuro próximo.

Mais à frente, dentro da garagem, que tem um portão para a rua, está instalada a Janvier Plants, uma loja de plantas de Noemie e Claire, duas parisienses que se instalaram em Lisboa e começaram um negócio de plantas de interior e exterior, vindas de produtores ambientalmente responsáveis de França, Holanda e também Portugal.