A subida das pressões inflacionistas na zona euro pode obrigar o Banco Central Europeu (BCE) a “normalizar a política monetária mais rapidamente do que a maioria dos especialistas em mercados financeiros estão a prever”, defendeu esta quarta-feira Robert Holzmann, governador do banco nacional austríaco e, por isso, membro do Conselho do BCE (liderado pela francesa Christine Lagarde). Na prática, o alerta do austríaco significa que os estímulos monetários (compra de dívida) podem terminar mais cedo do que o previsto e as taxas de juro também podem subir.

Em artigo de opinião na revista Eurofi, publicado na véspera de uma reunião do BCE que se antevê tensa, o austríaco demonstrou ter receio de que as pressões inflacionistas na zona euro sejam mais persistentes do que se acredita. A taxa de inflação anual da zona euro acelerou, em agosto, para os 3,0%, face aos 2,2% de julho e aos -0,2% do mesmo mês de 2020, segundo uma estimativa rápida do Eurostat divulgada no final de agosto.

“Existe a possibilidade de podermos ter condições para normalizar a política monetária mais cedo do que a maioria dos especialistas prevê”, afirmou Holzmann, citado pela Reuters. “Isso não significa que iremos retirar os estímulos de forma prematura mas, sim, que os estímulos serão necessários por menos tempo do que os mercados antecipam”, clarificou.

Inflação da zona euro acelera para 3% em agosto

O mandato do BCE concentra-se não na taxa de inflação passada mas, sim, nas expectativas de inflação a médio prazo, pelo que a política não tende a reagir a momentos de subida ou descida causada por efeitos transitórios. Mas alguns especialistas, em ambos os lados do Atlântico, têm alertado que a inflação que está a verificar-se não é apenas causada por efeitos transitórios relacionados com o efeito-base e a comparação com o choque económico que a pandemia causou há um ano.

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Escassez de mão-de-obra, subida dos preços das matérias-primas, dificuldades no fornecimento de vários produtos (como a crise dos chips, ou semicondutores, por exemplo) e o efeito de uma poupança acumulada no pico da pandemia que, agora, está a levar a um aumento do consumo. Estes são alguns dos fatores que estão a ser apontados pelos especialistas como aqueles que estarão a levar à subida dos índices de preços – se estes efeitos serão apenas transitórios ou mais duradouros é um debate intenso que tem existido nos últimos meses.

O risco é que a inflação, caso seja mais duradoura do que o previsto, se entranhe nas expectativas de subida dos preços. Aí, no cumprimento do seu mandato (único) e para evitar o risco de uma espiral de inflação, o BCE poderá ter de subir as taxas de juro e acabar mais cedo do que o previsto com as compras de dívida que têm sido decisivas, por exemplo, para a redução dos custos de financiamento do Estado português, bem como das empresas e famílias.