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Kelly Lindsey é uma antiga jogadora de futebol norte-americana que, atualmente, é head of performance no Lewes FC, um clube da costa sul de Inglaterra. Um clube semi-profissional detido e financiado por membros da comunidade local, fundos esses distribuídos por homens e mulheres de forma semelhante, em que ambas as equipas são tratadas como é suposto, de forma semelhante. O que não é igual, efetivamente, são os campeonatos em que as equipas estão inseridas. Enquanto a equipa masculina está na Isthmian Legaue Premier Division, uma espécie de divisão de nível 7, o conjunto feminino está na Women’s Championship, a segunda divisão nacional. Lindsey está agora nesta pequena cidade e, sem desprimor nenhum, neste pequeno clube, mas o seu percurso é vasto, rico e até com experiências mais humanitárias do que futebolísticas, mesmo que tenham vindo do desporto.

Atualmente com 42 anos, a norte-americana foi, em 2001, a primeira escolha do draft da então liga de futebol feminina dos EUA, quando esta ainda estava em tentativa-erro, sendo escolhida pelos San Jose CyberRays. Terminou a época como rookie do ano, vencendo inclusivamente o campeonato. internacional pelo seu país, mas retirou-se do futebol, como jogadora, logo aos 23 anos, depois de dez operações em dez anos, como explica o The Guardian, ao qual Lindsey concedeu uma entrevista. Sobre o atual clube, a natural de Omaha, Nebraska, EUA, é clara: “Estamos desejos de fazer algo que o mundo não acredita ser possível: levar este pequeno clube e sermos campeões num palco mundial, assegurando que o fazemos com os valores corretos”.

A carreira de jogadora e até de treinadora pode parecer curta à primeira vista, mas Kelly é treinadora desde os 13 anos, altura em que decidiu que devia partilhar com as crianças ainda mais novas do que ela o saber e a experiência que estava a adquirir em campos de treino que reuniam as principais craques dos EUA na seleção. “A minha primeira experiência de seleção foi em Sub-16. Tinha 13 anos quando entrei e vinha de um sítio onde o meu pai era o treinador e não tinha um treinador profissional enquanto jovem. Quando fui para a seleção nacional vi todas as jogadoras a virem dos grandes meios, Califórnia, Nova Jérsia, Texas, Michigan ou Florida, onde as grandes jogadores surgiam. Eu era apenas um pequeno pião naquele mundo. Então voltei à minha terra natal e pensei: ‘Uau, ganhei todo este conhecimento, quero dá-lo aos miúdos da minha comunidade'”, referiu.

Lindsey foi treinadora em universidades como as do Colorado, Texas ou Saint Mary’s, antes de ser adjunta das Sky Blue FC. Quando chegou a treinador principal, ganhou o campeonato. E a experiência que ajudou nas competições e nos títulos vem muito da sua vida na terra natal, Omaha, um sítio onde diz que “as pessoas tratam umas das outras e a comunidade interessa”. “Enquanto ficava mais velha, percebi que a maneira como liderava, treinava e pensava sobre os jogadores e as suas vivências através do futebol era baseada em ter crescido num sítio positivo em que as pessoas e os treinadores preocupavam-se comigo enquanto pessoa”, explicou. Acabou por regressar ao futebol (soccer como dizem nos EUA) universitário, antes de deixar o desporto, para tentar, de certa forma, descobrir quem era e o que queria: “Perguntei a mim mesma se estava a fazer isto porque amava o futebol realmente, ou porque era tudo o que sabia, tudo o que sempre tinha feito”.

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Mais do que a bola na rede, a resposta acabou por vir de outras experiências e conclusões, ao perceber que, pelo menos para ela, “que muitas pessoas nos níveis altos da sua vida não tiveram lições de vida importantes porque não jogaram desportos coletivos”. “Isso como que terminou um ciclo e revigorou-me, fazendo-me voltar a ser treinadora de futebol”, explicou ao The Guardian.

Foi na Julie Foudy Sports Leadership Academy, uma instituição ligada inclusivamente à ESPN, que conheceu jogadoras do Afeganistão e, consequentemente, as suas vidas, vivências e problemas. Uma das fundadoras acabou por convidá-la para treinar efetivamente a seleção afegã, alguém que entendesse que “o que tentavam construir era maior do que o futebol”. Mais do que treinar a seleção feminina do Afeganistão, ajudou-as a fugir a maus comportamentos e abusos do presidente da federação afegão e até ajudou algumas atletas a fugir do país devido à recente ascensão dos talibãs ao poder.

“És significativamente insignificante. Este é o meu mantra para trabalhar com estas raparigas. Torna-te humilde quando não consegues comunicar verbalmente da mesma forma. Como é que te conectas com outros humanos? Quando não consegues ensinar verbalmente e fazes com que se ensinem umas às outras.  Como é que se queria uma cultura se de onde elas vêm não confiam em ninguém? Nem nos vizinhos, nem na família. Como é que se cria confiança entre estas mulheres e as deixamos liderarem-se umas às outras? Elas ajudaram-me mais do que provavelmente eu as ajudei a elas”, garantiu.

Agora, com o fator comunidade e igualdade na equipa do Lewes FC, que Kelly pensa “poder mandar uma mensagem poderosa ao mundo”, e depois de ter sido diretora e treinadora na Federação Marroquina de Futebol, sente-se em casa: “Posso ser eu, não tenho de questionar a minha integridade e não tenho de tomar decisões em que não acredito. Posso ser eu a 100%”.