Houve alguns momentos de magia, houve algumas fases de incapacidade em gerir a vantagem, houve uma grande capacidade de reação à adversidade, houve mais um dose de sofrimento nos instantes finais. Houve um pouco de tudo. O encontro de Portugal frente à Sérvia transformou-se numa autêntica montanha-russa de emoções com prolongamento à mistura mas a Seleção conseguiu puxar os galões de campeão europeu para garantir a vitória pela margem mínima (4-3) e a passagem aos quartos. Agora, eram esses galões que tinham mais uma prova de fogo pela frente e logo contra o adversário na final do último Europeu.

Brilhar, sofrer e voltar a brilhar para sofrer: Portugal vence Sérvia no prolongamento e está nos quartos do Mundial

O histórico contra a seleção espanhola em Mundiais não era propriamente famoso, com duas derrotas na segunda fase de 2000 e de 2004. No entanto, também o percurso em Campeonatos da Europa não tinha muito de bom até a essa final de 2018 em que Portugal conseguiu aquela que foi a primeira grande vitória internacional a nível de seleções. Era nisso que os comandados de Jorge Braz voltavam a apostar, naquele que seria também o reencontro de Ricardinho com alguns dos seus antigos companheiros quando jogava na Liga vizinha ao serviço do Inter FS, como o capitão espanhol Carlo Ortiz. “Eles estão em Vilnius e vou passar por lá para falar um pouco com ele enquanto tomamos um café. Vou dizer para ir com calma porque ele é daqueles jogadores que tira sempre algo especial da cartola nos jogos decisivos”, comentou.

O capitão da Seleção pode já ter 36 anos mas continua a ser uma figura como poucos no mundo do futsal, como se viu na imagem tirada com toda a equipa de Marrocos após o último jogo da fase de grupos ou mais algumas selfies com jogadores de outras equipas. No entanto, Portugal iria precisar de mais para bater uma Espanha com quatro vitórias até ao momento frente a Paraguai, Japão, Angola e Rep. Checa. “Atingir objetivos e superarmo-nos depende da coragem e ambição. Quando alguém nos quer pressionar, é não nos intimidarmos e irmos nós para a frente. Temos de ser extremamente racionais mas ambiciosos. Para ir atrás do nosso objetivo, temos de passar esta etapa e estamos com ambição de a passar”, dissera Braz.

Um empate que foi como vitória: Portugal segura primeiro lugar do grupo frente a Marrocos antes dos oitavos do Mundial

Passando ao lado da final do Europeu de 2018, o selecionador recusou a ideia de que esta Espanha não fosse tão forte como outras num passado recente, destacando que “continua a ser a equipa mais organizada que existe, que sabe muito bem o que fazer em cada momento do jogo e que gosta de ser dominadora em todas as situações”. “Quando somos muito gulosos, às vezes as coisas correm mal. Sabemos muito bem como alterar isso e tornar uma vantagem para nós”, frisara. Mais uma vez, naquela que tem sido a característica mais comum neste Mundial, houve qualidade, resiliência e sobretudo muito coração.

Portugal fez apenas uma mexida em relação ao cinco mais habitual de início, colocando Fábio Cecílio em vez de Erick – que em alguns momentos se tem colocado mais como pivô. Mais do que nomes, a maneira como a equipa entrou, mais agressiva e com maior intensidade, permitiu duas boas aproximações um livre para defesa de Herrero até ao primeiro remate com perigo da Espanha, por Mellado (5′). Ato contínuo, Chino obrigou Bebé a nova intervenção apertada (7′) antes da resposta quase imediata de Ricardinho para Herrero brilhar (8′). No entanto, o encontro acabaria por mudar de características a meio do primeiro tempo, quando um critério muito discutível da arbitragem colocou Portugal com cinco faltas.

A margem para mais faltas era nula mas, ainda antes da paragem técnica de Jorge Braz, foi Portugal a ter duas excelentes oportunidades, por João Matos e Miguel Ângelo, ambas travadas por Herrero. “Temos de nos adaptar, temos de nos adaptar. Não conhecem a história do leão? Assim vamos ser comidos”, dizia o selecionador, pedindo mais cabeça na forma como os jogadores, não deixando de pressionar alto e tentar explorar os espaços entre linhas nas saídas. As oportunidades até ao intervalo foram divididas, com a Espanha a ficar também tapada por falta aos 14′ e Bebé a cometer um erro crasso já no último minuto, saindo mal da baliza e cometendo falta para um livre direto que Adri, com Vítor Hugo pela frente, atirou ao lado quando faltavam poucos segundos para o apito final para o descanso na Vilnius Arena.

Portugal não tinha sido em nada inferior à Espanha no primeiro tempo, Portugal entrou bem pior do que a Espanha na segunda parte – e pagou por isso. Raúl Campos, jogador que passou pelo nosso país (jogou no Benfica), acertou na trave logo no primeiro minuto e Adolfo inaugurou mesmo o marcador quase de seguida, num grande chapéu a Bebé após uma bola nas costas de João Matos (22′). A missão nacional ia ficando mais complicada, a missão ainda mais se complicou de seguida: na sequência de um livre descaído sobre a direita por falta desnecessária de Tomás Paçó, Adri bateu direto e surpreendeu Bebé, que foi mal batido no lance (23′). Em dois remates, dois golos em menos de dois minutos para os espanhóis.

Portugal precisava de um golo para reentrar de novo no jogo e estabilizar em termos emocionais, algo que não aconteceu mais cedo porque Jesús Herrero fez duas defesas seguidas fantásticas a um remate de Miguel Ângelo e à recarga de Zicky Té (28′). O guarda-redes espanhol parecia insuperável mas acabou por ser no primeiro erro ao longo do encontro que nasceu o 2-1 para Portugal, com André Coelho a rematar de fora e Herrero a colocar a bola na baliza na tentativa de defender (31′). A Espanha tentava ter posses mais longas para gerir o enccontro, a Seleção não desistia e por pouco não deu a volta em 20 segundos: depois do empate por Zicky Té na sequência de uma jogada estudada com assistência de Miguel Ângelo, Pany Varela teve um lance de 1×1 pelo centro com remate colocado que bateu no poste (36′).

O encontro acabaria mesmo por ir para prolongamento, com um final de loucos que teve Herrero a evitar o golo de cabeça de Ricardinho dentro do último minuto antes de três remates muito perigos da Espanha e uma bola no poste de Adolfo ao segundo poste num canto… no último segundo. Portugal tinha um ponto negativo para os dez minutos extra, que era de novo as cinco faltas, mas mantinha-se vivo numa partida que tinha a Roja a assumir mais o comando e a Seleção a apostar nas transições ou na posse em Zicky para afundar e dar metros à equipa com bola. O golo da reviravolta, esse, surgiria como menos se esperava: João Matos explorou as costas da defesa espanhola, Raya tentou cortar mas a rosca enganou Herrero e foi para a própria baliza (43′). Tudo mudava, a Espanha arriscava logo na segunda parte do prolongamento o 5×4 mas foi Portugal a aumentar a vantagem por Pany Varela (48′).

Portugal ainda viu uma bola no poste mas conseguiu mesmo a vitória por 4-2, conseguindo apenas pela terceira vez na história chegar às meias de um Mundial, a segunda consecutiva, ficando à espera do vencedor do último encontro dos quartos entre Irão e Cazaquistão. Próximo objetivo? Chegar pela primeira vez a uma final da competição, depois das derrotas com o Brasil em 2000 (terceiro lugar após vitória com a Rússia) e com a Argentina em 2016 (quarto posto depois do desaire nas grandes penalidades com o Irão). Na outra meia-final já conhecida, o Brasil, que venceu Marrocos apenas por 1-0, vai defrontar a Argentina, que eliminou a Federação Russa no desempate por grandes penalidades (1-1, 5-4, g.p.).

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