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Depois de Aissa Aida, o primeiro nome africano a pisar a passerelle do Bloom, a plataforma dedicada aos novos talentos da moda, foi a vez de Vítor Dias se estrear nestas andanças. O jovem de 26 anos, natural de Famalicão, venceu o prémio Eco Design este verão e apresentou esta quarta-feira 15 coordenados para homem e mulher. “Chegar ao Portugal Fashion era um dos meus objetivos”, conta, já depois do desfile, ao Observador.

Ainda a “respirar de alívio” nos bastidores, Vítor Dias trabalha desde os 18 anos nesta área e vive agora um momento de validação. “Comecei por fazer vestidos de noiva na minha garagem, mas depois fartei-me da onda mais cerimonial e apostei no streetwear, que é aquilo que mais consumo. Hoje é um culminar de oito anos de muito trabalho, sinto que há uma validação do meu trabalho depois de ouvir tantos nãos e isso traz-me mais confiança.”

A coleção, desenvolvida em apenas um mês, onde reinam os bolsos, os botões vistoso, os tecidos fluídos e os chapéus com abas grandes, é uma vénia “à luta das pessoas para serem elas próprias na sociedade”, com o  jovem criador a misturar o estilo safari e militar, mesclando traços masculinos e o femininos, estruturas leves e mais pesadas e tons claros e mais escuros. “Há também um estampado floral que, embora não pareça muito delicado, quis mostrá-lo de uma forma mais camuflada”, acrescenta.

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A sua marca homónima é de slow fashion, funciona apenas por encomenda, mas nem por isso Vítor deixa de lado a preocupação por procurar matérias primas sustentáveis. “Procurei usar materiais que não necessitem de muitas lavagem ou de muitos cuidados com o ferro para não gastar energia”, explica, sublinhando que as suas opções recaíram sobretudo em tecidos orgânicos, como o algodão, nas t-shirts, o lyocel, em vestidos, ou a fibra de cânhamo, em alguns casacos. “A marca não tem desperdício, tudo o que sobra é reaproveitado para outras peças ou coleções”, salienta.

O designer de Famalicão tem trabalhado sobretudo para o público feminino, mas fica sempre surpreendido quando os homens também querem vestir as suas roupas. “Aqui trabalhei os dois géneros, vamos ver como corre no futuro.” As peças assinadas por Vítor Dias estão à venda online e em espaços físicos no Porto, na loja Scar.Id, e na Corunha, em Espanha, sendo que o feedback do seu trabalho é diferente nos dois pontos do globo. “Vendo muitos básicos em Portugal, mas em Espanha consigo vender mais peças de coleção essencialmente para mulher, como casacos ou vestidos.”

Vítor Dias

Sílvia Rocha, o nome por detrás da marca Ahcor, foi finalista do concurso Bloom no ano passado e este foi o seu primeiro desfile com público a assistir. Apresentou “Maré”, uma coleção feminina que espelha várias emoções e estados de alma, onde parece não haver espaço para a coerência ou para a previsibilidade. “Tentei passar o êxtase e a tristeza em peças muito justas ou muito largas, em ausências de cor ou em cores muito fortes”, explica ao Observador.

A jovem criadora explorou contrastes e sobreposições em peças pinceladas de rosa, vermelho, lima e laranja, onde os tecidos funcionaram como “ponto de partida”, tendo sido “dead stock” de algumas fábricas da zona norte. As texturas, os brilhos, as transparências, os drapeados, os folhos e as caudas encheram o olho e os ramos de flores secas tingidas, os lenços na cabeça, as misturas de diferentes padrões e os detalhes com pérolas em acessórios fizeram-nos mergulhar nesta maré. Até agora, a Ahcor vende essencialmente online, através das suas redes sociais, mas a partir do próximo ano terá direito a uma morada própria na baixa do Porto, um espaço que funcionará como estúdio de trabalho, mas também como ponto de venda em open days regulares.

A rimar com o verão esteve também “After Sun” a nova coleção masculina de Huarte, o jovem designer espanhol que chegou ao Porto em 2017 à boleia do programa Erasmus e por cá ficou depois de se formar em design de moda, em Matosinhos. Encontramo-lo nos bastidores, já depois do desfile, agarrado a uma das suas peças favoritas desta coleção: uns jeans estampados com um laser a imitar as ondas do mar e um cinto feito de corda.

“Esta é uma coleção disruptiva, que contrasta com tudo o que fiz até hoje. Foi um desafio porque apostei muito na cor e nunca tinha experimentado trabalhar com cores tão vivas”, conta ao Observador, garantindo ter gostado da experiência. “After Sun” tem uma ligação direta ao verão, mas também às memórias das férias no mediterrâneo que Victor Huarte passava com a família. “Depois de um dia da praia, a minha mãe passava sempre after sun nas nossas costas quando nos queimávamos. Acho que é uma coleção otimista que reflete bem este regresso à normalidade em que já podemos fazer planos juntos, como uma ida à praia, por exemplo.

Colares de búzios que penduram óculos de sol, boinas de marinheiro, denim, tricotados, crochês, malhas a imitar toalhas de praia usadas em calções e hoodies ou padrões às riscas a fazer lembrar as típicas barras de praia são alguns apontamentos do verão que Huarte quer ter.

Ahcor

Rita Silva, o motor da marca Rita Ibs, lançada em 2019, teve mais uma vez presente no seu processo criativo um lado místico e esotérico, inspirando-se na ilustração de uma das cartas do Tarot: a Torre. “Esta imagem tem como simbolismo a distribuição das nossas defesas exteriores para a criação de algo novo e melhor, quase um esperar pelo inesperado, o que num período de pós pandemia fez-me todo o sentido”, explica ao Observador, enquanto arruma um dos seus cinco coordenados femininos do charriot.

Durante essa viagem pelo mundo da criação, a jovem designer de Lisboa viveu na pele as limitações provocadas pela pandemia. “Pensei a coleção toda de uma forma, encomendei materiais e fui vítima desta coisa do mundo parar. Não chegou muito daquilo que tinha encomendado, o que me obrigou a fazer ou a finalizar peças à mão”, recorda, acrescentando que, apesar da frustração inicial, gostou do processo e, claro, do resultado final.

Os efeitos da pandemia, o público na sala e a moda de autor. Constança Entrudo, Maria Carlos Baptista e Ricardo Andrez em Paris

Entre sedas, malhas finas com brilho e fibras de sacos de plástico reciclados, Rita provou mais uma vez a sua preferência em usar materiais com o menor impacto ambiental possível, aliando o conforto, a elegância, a tradição, mas também a tecnologia. Nas suas propostas para a próxima estação não faltam aberturas, rasgões e assimetrias. “A ideia foi criar conjuntos bonitos e coerentes, com algumas aberturas, como se algo novo quisesse entrar.”

Até ao verão, Rita Ibs lançará a sua loja online, onde terá à venda peças únicas que desfilaram pelo Bloom, algumas réplicas dos coordenados apresentados e outras variações mais comerciais e adaptadas ao dia a dia que promete já estar a trabalhar.

O dia terminou com os desfiles de Maria Carlos Batista, que apresentou a sua coleção na Semana de Moda Feminina de Paris, Marcelo Almiscarado e Ariev.