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Depois do arco da Ponte da Arrábida ou da cúpula do Pavilhão Rosa Mota, a Porto Secret Spots, empresa responsável por promover visitas guiadas a moradas pouco prováveis da cidade, inaugura um percurso pelo Coliseu este sábado. Numa altura em que a casa de espetáculos mais emblemática do Porto comemora 80 anos de vida, e aguarda por obras de reabilitação, a iniciativa pretende dar a conhecer a sua história, arquitetura e revelar alguns pontos menos conhecidos do público.

O trajeto começa no átrio, onde normalmente se mostram os bilhetes para os espetáculos, e ali começam também as explicações dadas pela equipa da Porto Secret Spots, que se centram sobretudo no brasão da cidade cravado numa das paredes, onde estão representadas várias profissões. Sentados na 2ª plateia, os visitantes poderão ver num ecrã várias imagens antigas, que contam cronologicamente a história da sala capaz de acolher até quatro mil pessoas, em diferentes configurações.

Já pode subir à cúpula do Pavilhão Rosa Mota e contemplar uma vista do Porto a 360 graus

O rol de fotografias começa ainda antes da construção do edifício que hoje conhecemos, já que em 1908 aquela morada era ocupada pelo Salão Passos Manuel, um espaço de inspiração parisiense que incluía um teatro, restaurante e um jardim a céu aberto. Este polo cultural famoso entre a mais alta sociedade portuense acabou por ser demolido 30 anos depois, dando lugar a um projeto mais ambicioso arquitetonicamente. Em 1941 inaugura o Coliseu do Porto, um dia solene com direito a um concerto da pianista Helena Sá e Costa e a brindes festivos numa adega situada no piso inferior, onde hoje ainda restam as paredes em granito, o balcão em madeira e as torneiras diretamente das pipas do vinho.

Além das fotografias da inauguração, é possível ver-se cartazes de eventos emblemáticos como o carnaval, o circo ou a ópera, concertos de Amália Rodrigues, Beatriz Costa ou Miles Davis, mas também momentos políticos marcantes, como um comício de Humberto Delgado, que em 1958 se candidata à presidência da república.

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Nos anos 90, o Coliseu entra num declínio e a seguradora detentora do edifício decide vendê-lo à Igreja Universal, uma notícia que em 1995 mereceu muita contestação por parte da cidade. Pedro Abrunhosa acorrentou-se à porta numa manifestação, Álvaro Siza Vieira, Agustina Bessa-Luís ou Jorge Nuno Pinto da Costa criticaram a decisão nos jornais e um ano depois é criada a Associação Amigos do Coliseu que adquire o imóvel por cinco milhões de euros. Nesse mesmo ano, em 1996, depois de um desfile do Portugal Fashion, onde a manequim Cláudia Schiffer foi uma das protagonistas, há um incêndio que destrói o palco por completo. A sala acabou por resistir e dois meses depois do incidente reabriu com um espetáculo de circo.

A mítica sala tem capacidade para acolher quatro mil pessoas e a famosa cúpula é composta por 300 lâmpadas @Lara Jacinto

Após conhecer a fundo a história do Coliseu, é hora de voltar a percorrer o edifício com paragens obrigatórias em cada uma das vitrinas luminosas dos corredores. Onde antes cabia publicidade a vários negócios da cidade, hoje expõem-se notícias sobre espetáculos de outros tempos, mobiliário antigo, máquinas de projeção da época em que o Coliseu funcionava como sala de cinema, livros de visitas, materiais de impressão e de bilheteira ou croquis do projeto arquitetónico. No meio do caminho, é provável que se cruze com uma porta pequena, junto ao bengaleiro, onde antigamente existia uma cabine com um telefone público.

Camarins com história, um palco imponente e um livro de honra especial

Tempo também para explorar locais nunca antes visitados pelo público: tudo começa para lá da porta dos artistas, ao fundo do corredor, um elemento que guarda algumas histórias. Quando o circo tinha a presença de animais, os de grande porte também passavam por aquela porta, exceto um elefante que uma dia se recusou a entrar por ali e teve mesmo que o fazer pela entrada principal do Coliseu.

Pelo pátio das traseiras do edifício, que dá acesso à rua Formosa, entra todo o material técnico e equipa de produção e se uns sobem diretamente para os camarins, outros descem para debaixo do palco. Esta zona foi reconstruída após o incêndio de 1995 e hoje guarda material de cenografia, um elevador para cargas e descargas e dá ainda acesso a um dos fossos da orquestra, com capacidade para 65 músicos.

Antes de pisar o palco, passará pelo corredor dos camarins. Há individuais e coletivos e guardam muitas histórias @Lara Jacinto

Uma das portas dá acesso direto ao palco, outra para os 12 camarins. Entre coletivos e individuais, todos os espaços têm direito a espelhos, bengaleiros, luz natural e casa de banho, mas o camarim número 1 é o maior. Por lá já passaram dois prémios Nobel, Barack Obama e Bob Dylan, mas também músicos e artistas como Marylin Manson, que pediu para o pintarem de preto e o decorarem com caveiras, ou Maria Bethânia, que instalou num canto um verdadeiro altar.

O corredor dos camarins tem acesso direto a uma das mangas do palco imponente com 17 metros de largura, 13 metros de profundidade, 23 metros de altura. No teto podem contar-se 38 varas metálicas, utilizadas para manusear material técnico e de iluminação, e observar de perto a famosa cúpula constituída por 300 lâmpadas. Nas duas laterais do palco estão penduradas duas bandeiras do Futebol Clube do Porto e um cartaz preto da gala Dragões de Ouro, organizada pelo mesmo clube. Aparentemente não há uma explicação para isso, a não ser o facto de a maioria dos funcionários que trabalham no Coliseu serem adeptos ferrenhos do clube.

Amália Rodrigues é um dos nomes presentes no livro de honra do Coliseu, que pode ver de perto no final da visita @Lara Jacinto

Descendo o palco, a visita guiada, com duração aproximada de uma hora, termina no átrio onde é oferecido um cálice de vinho do Porto e cada visitante pode assinar um livro de honra especial, com réplicas de assinaturas do livro original.

Sábados e domingos, às 10h e às 12h, mediante a disponibilidade da sala. Bilhetes disponíveis na bilheteira do Coliseu e na Ticketline. Preços variam entre os 5€, para crianças dos 4 aos 10 anos, e 12,50€, para adultos.