Reconhecido contista, poeta, dramaturgo e ensaísta, José Viale Moutinho lança agora, com selo da Caminho, A estranha vida dos ausentes, um compêndio de mais de cem curtos contos, escritos entre 2020 e2021, num total de 302 páginas. Como contista, já o autor é conhecido pelo público, tendo arrecadado duas vezes o Grande Prémio do Conto Camilo Castanho Branco: Cenas da vida de um minotauro (2000) e Monstruosidades do tempo do infortúnio (2000). O trabalho do autor conta com livros traduzidos para várias línguas, incluindo o russo, o búlgaro e o asturiano.

Ler A estranha vida dos ausentes vai dando uns certos de ares de vertigem. As histórias são curtas, os ambientes são bem montados e há uma originalidade que nunca parece perder-se. Em vez disso, a cada página o texto renova-se: com uma técnica irrepreensível, o leitor nunca fica à margem de um poder de criação que evita a repetição. Ao mesmo tempo, a efabulação que o autor traz às narrativas é de particular destaque, uma vez que nunca passa ao lado a estranheza que parece imprimir-lhes. Entre uma e outra história, o leitor navega sem saber bem para onde vai. Aqui e ali, há um certo tom de Juan José Millás, a ideia de se estar perante um impossível – e de haver a suspensão do possível para que a literatura se faça. Isto fica visível logo no primeiro conto, “Comprar dois chapéus”. Aliás, isto fica visível no primeiro parágrafo do livro, deixando alta a expectativa para os textos seguintes:

Encontrava-me numa chapelaria bem conhecida. (…) perdera a cabeça que habitualmente usava entre os ombros. Aliás, mal se abriram as portas de vidro automáticas, o segurança achou que o cliente era um tanto estranho, diferente de todos os outros. Casa fundada em 1837.” (p. 13)

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