Mensagens de WhatsApp envidas pelo presidente do Governo espanhol, e que têm vindo a ser divulgadas na sequência da investigação a suspeitas de corrupção conhecidas como o caso Koldo, mostram que Pedro Sánchez teve uma intervenção direta no resgate pelo Estado da companhia Air Europa.

O resgate da segunda companhia aérea espanhola ocorreu em 2020, no quadro da pandemia, e poucos meses depois de em Portugal o Estado ter ficado com o controlo da TAP após um empréstimo de emergência e da compra da participação de David Neelenam.

As mensagens trocadas entre o presidente do Governo e o então ministro dos Transportes, José Luis Ábalos, têm vindo a ser publicadas pelo jornal El Mundo, que esta quarta-feira noticia as preocupações partilhadas, via WhatsApp, entre Pedro Sánchez e o seu ministro relativas a uma tomada de controlo da Air Europa pela IAG, o consórcio que detém a Iberia e a British Airways.

Ábalos está no centro da caso Koldo que investiga o pagamento de alegados subornos a um seu assessor — Koldo Garcia — em troca de contratos do Estado para a compra de equipamento médico e máscaras a uma empresa ligada ao presidente do clube de futebol de Zamora. Uma investigação criminal em Espanha que já encontrou ligações a Portugal.

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A iniciativa da troca de mensagens em setembro de 2020 terá partido de Pedro Sanchez, que reencaminha ao ministro dos Transportes uma mensagem que recebeu de “um conhecido de há muitos anos” que não identifica. Este “amigo” defendia junto do presidente do Governo espanhol o resgate pelo Estado da Air Europa, de modo a evitar que a companhia aérea de capital espanhol caísse nas mãos da Iberia, lembrando que o consórcio que detém a Iberia — a IAG — é britânico e que num contexto do Brexit (à data ainda em fase de preparação), seria preferível que fosse espanhola.

A IAG tinha feito um acordo para a compra da Air Europa em 2019, mas o negócio foi posto em cheque pela pandemia, que provocou uma forte desvalorização do preço da companhia que ia ser adquirida, o que levou o comprador a reduzir o preço da oferta e a rever os termos da operação.

Na mensagem enviada a Sánchez é sugerida uma alternativa através da qual a Air Europa poderia ser o ponto de partida para uma “plataforma aérea para o sul da Europa” que envolvesse também a Alitalia e a TAP — “o que ao nível da estratégia de política externa poderia ser muito interessante — tudo debaixo de acionistas espanhóis e da União Europeia”. A então dona da Air Europa, a Globalia, era descrita como um grupo “muito interessante”, mas a quem faltava um grande gestor, uma vez que o fundador tinha já uma certa idade.

A Globalia foi parceira da TAP na empresa de handling durante alguns anos, mas acabou por revender a Groundforce. O grupo espanhol chegou a manifestar interesse na privatização da companhia portuguesa lançada em 2014, mas não avançou

Ainda assim, acrescenta o conhecido de Sanchez, a Globalia tem uma base sólida de negócio com uma integração vertical sobre a qual se poderia montar a tal plataforma de gestão “muito interessante, paneuropeia, privada com supervisão e um certo controlo do Governo (pelo menos temporariamente)”. Logo, defende, “não faz sentido deste meu ponto de vista resgatar a Air Europa para a deixar nas mãos de Hidalgo (o empresário dono da Globalia) e ainda menos para oferecê-la à IAG ou deixar que desapareça”.

Na resposta, o presidente do Governo espanhol é sintético e não se pronuncia sobre as configurações sugeridas pelo amigo. Mas concorda que “vale a pena dar uma volta sobre o assunto”. Já o então ministro dos Transportes, que responde a Sanchez, alinha nas “inquietudes” manifestadas e disponibiliza-se para explicar ao presidente do Governo como é que estavam a ser preparadas as respostas do Estado à Air Europa e à IAG, havendo ainda referência a uma reunião com a Iberia que era então presidida por Luis Gallego, que viria mais tarde assumir a presidência da própria IAG.

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Sánchez valida esta abordagem, mas insiste na dúvida. “A não ser que me convenças do contrário, a operação com a IAG não me convence”. Em todo, o caso, sublinha “teríamos de refletir sobre como a enquadrar”.

No verão de 2020, com a aviação paralisada, o futuro das companhias áreas estava nas mãos dos governos, um pouco por toda a Europa, sobretudo depois das ajudas públicas concedidas a empresas públicas e privadas. Quer a TAP, quer a Alitalia tinham a especificidade de estarem já a atravessar dificuldades financeiras antes da pandemia, o que obrigou os governos a implementarem planos de reestruturação das operações. Mas no horizonte futuro esteve sempre a intenção de voltar a encontrar acionistas privados para as duas empresas.

A Air Europa foi resgatada pelo Governo espanhol em outubro de 2020 através de uma deliberação da holding pública espanhola SEPI. O resgate de 475 milhões de euros previa o reembolso pelos acionistas privados em tranches ao longo de seis anos e foi pago através do fundo público de apoio às empresas afetadas pela pandemia.

O processo que conduziu a este desfecho envolveu outras personalidades. Para além da mulher de Pedro Sánchez, Begoña Gómez, que terá sido contactada pelo dono da Air Europa para interceder a favor da ajuda pública à companhia aérea, há mais uma figura central no caso Koldo, escreve o El Mundo.

O presidente do Zamora, Victor de Aldama (e empresário que ganhou os contratos suspeitos ligados à pandemia), era assessor da Air Europa. O jornal espanhol divulga uma mensagem emocionada trocada com o presidente da Globalia, Javier Hidalgo, que consta do relatório da investigação levada a cabo pela Unidad Central Operativa (ICO) da Guardia Civil.

“Estoy llorando como un puto bebé de la emoción», le añadió. «Tu familia tiene que estar orgullosa de la persona y empresario que eres». «Qué alegría más grande, hostiasssss, siiiiiiii coño siiiiiiiii”. (“Estou a chorar de emoção como um miúdo. A tua família tem que estar orgulhosa da pessoa e do empresário que és. Que grande alegria. Sim… Caramba. Sim”.)

Segundo a investigação do órgão criminal da Guardia Civil, a ajuda à Air Europa pelo fundo público foi decidido num prazo cinco vezes mais curto do que o tempo médio de outros apoios, alegadamente devido à influência exercida pela família Hidalgo e pelo seu assessor.

Bruxelas receia que compra da Air Europa pela dona da Iberia reduza a concorrência

Pouco depois da intervenção pública, no início de 2021, a dona da Air Europa retomou as negociações para a venda da companhia à IAG por 500 milhões de euros. Esta venda foi aprovada pela SEPI, mas a Comissão Europeia impôs condições drásticas para mitigar o impacto que a concentração teria na concorrência em vários destinos onde a Air Europa e a Iberia eram os principais, ou mesmo únicos, concorrentes.

A IAG acabou por desistir da companhia espanhola, mas mantém-se como uma das principais concorrentes à compra da TAP cuja privatização entretanto tem sido adiada devido à instabilidade política em Portugal.

Já a companhia italiana Alitalia, também referida na mensagem enviada ao presidente do Governo espanhol, foi alvo de uma reestruturação mais profunda do que a TAP, da qual resultou uma empresa mais pequena, a ITA Airways. No início de 2025, a Lufthansa finalizou o acordo com o Estado italiano para adquirir 41% do capital da ITA. A companhia alemã é também uma das mais fortes concorrentes à privatização da TAP.