A deputada Rita Matias admitiu esta segunda-feira que o Chega não confirmou a veracidade da lista de nomes estrangeiros que o líder do partido, André Ventura, leu na semana passada durante o debate parlamentar em torno da lei da nacionalidade e da imigração com o objetivo de denunciar uma suposta “mudança cultural e civilizacional” em curso no país, gerando um momento de grande controvérsia no Parlamento.

“O Chega recebeu a lista. Não fez uma confirmação de maior, não fomos ver qual era a escola”, afirmou Rita Matias na Rádio Observador, durante o programa Explicador, durante o qual interveio também o deputado Paulo Muacho, do Livre. “Aliás, eu fiquei surpreendida por perceber que a extrema-esquerda é que se deu ao trabalho de ir ver a escola, de divulgar o vídeo ‘n’ vezes. Se não tivessem feito tanto alarido, o vídeo passava absolutamente normal, como tantos vídeos que publicamos diariamente.”

Divulgar nomes de crianças no Parlamento é inconstitucional?

Na semana passada, Rita Matias publicou um vídeo na sua página do Instagram no qual surge a ler uma lista de nomes, muitos deles de origem estrangeira, afirmando estar a ler “uma lista de uma escola portuguesa”. Na descrição do vídeo, chega mesmo a escrever: “Não, não me enganei. É mesmo uma lista de uma escola portuguesa. Quantas pessoas por aqui não conseguiram vaga para os seus filhos?”

No dia seguinte, André Ventura fez o mesmo número, mas desta vez no Parlamento. Ao contrário de Rita Matias, Ventura não usou os apelidos das crianças, afirmando que, dessa forma, não estaria a identificar ninguém de forma concreta. O momento gerou forte agitação no Parlamento, com os partidos à esquerda a oporem-se fortemente à leitura da lista de nomes. Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, lembrou como o Chega tinha um deputado com o nome Marcus Vinicius — um nome de origem brasileira.

Por outro lado, a deputada Isabel Moreira, do PS, lembrou que tem um apelido estrangeiro — Mayer, de origem judaica — e que a própria Rita Matias tem um apelido de origem muçulmana: Cid. Trata-se de um nome de origem islâmica, com raiz na palavra sayyid, transformada depois em Sid e, posteriormente, em Cid. Rita Matias, porém, quis rejeitar este facto, pedindo “respeito” pela sua família e reagindo: “Cid é um nome português e não tem qualquer alusão à comunidade muçulmana.”

Esta segunda-feira, na Rádio Observador, Rita Matias disse compreender “perfeitamente que queiram utilizar politicamente este momento para atacar o Chega, sobretudo depois do seu crescimento eleitoral, onde já perceberam que não é pela via das urnas que vão conseguir atacar”. “Por isso parece-me conveniente que agora ataquem André Ventura e a líder da Juventude Chega para tentar descredibilizar o partido”, acrescentou.

No mesmo programa, o deputado do Livre Paulo Muacho disse que o partido está ainda a estudar a possibilidade de apresentar uma queixa contra Ventura e Matias. “Não temos uma decisão sobre essa matéria, até porque aquilo que se pode fazer relativamente, por exemplo, à intervenção em plenário do deputado André Ventura é muito limitado. Estamos a avaliar essa questão”, afirmou.

“Há muitas pessoas, também, que nos têm contactado absolutamente indignadas com isto que aconteceu, com esta instrumentalização de crianças para estes fins políticos. É isto que está sempre em causa. É isto que deve ser denunciado. Não há limites para a instrumentalização que o Chega quer fazer. É com todo o tipo de pessoas, até com crianças”, acrescentou ainda.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 8.º e último episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui]