A Amnistia Internacional (AI) acusou o Hamas e os seus aliados de terem cometido crimes contra a humanidade no ataque do dia 7 de outubro de 2023 num relatório publicado esta quinta-feira pela organização não governamental (ONG). O documento, com 173 páginas, analisa todas as ações das organizações palestinianas que participaram no ataque, concluindo que mostraram “um desprezo abominável pela vida humana” ao atacarem “deliberada e sistematicamente civis em localizações como as suas casas” ou no festival de música Nova, realizado perto da fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza.

Após análise de testemunhos pessoais e provas de vídeo recolhidas no local, a ONG acusou o Hamas de cometer crimes de “homicídio” contra centenas de civis e de “extermínio“, por se tratar de uma “matança sistemática” e em massa de uma população civil. Foram também acusados de “encarceramento“, “desaparecimento forçado” e “outros atos desumanos” por terem levado alguns desses civis como reféns sem informar onde estariam retidos e por lhes terem negado comida e ajuda médica no cativeiro.

“Eles mataram deliberadamente centenas de civis, usando tiros e granadas para expulsar pessoas aterrorizadas, incluindo famílias com crianças pequenas, dos seus abrigos e esconderijos, ou atacando-as enquanto fugiam”, disse a secretária-geral Agnes Callamard no comunicado que acompanhou o relatório.

A ONG afirma ainda que os elementos das várias forças atacaram propositadamente as casas e os edifícios civis, além de dispararem mísseis e munições de artilharia de forma indiscriminada — ambas violações do direito internacional humanitário.

No relatório, a AI também acusa o movimento de cometer o crime definido pelo Tribunal Penal Internacional como “violação, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez à força, esterilização à força ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável”.

Neste caso, a organização conta que só conseguiu falar com uma pessoa que disse ter sido violada, para além de consultar relatos públicos e um psiquiatra que trabalhou com vítimas de abuso sexual. A organização concluiu que formas de abuso sexual foram cometidas pelos militares do Hamas, mas a falta de testemunhos na primeira pessoa feitos à própria Amnistia levou a ONG a considerar que, apesar de provavelmente ter acontecido, não havia provas que tenha acontecido casos de violação propriamente ditos.

No entanto, a AI fez questão de sublinhar que foi possível concluir que houve casos de abuso sexual, para além de outras formas de abuso. “Agressores palestinianos, compostos por combatentes vestidos com roupas militares e homens armados ou desarmados vestidos com roupas civis, submeteram as pessoas que capturaram em 7 de outubro de 2023 a abusos físicos, sexuais ou psicológicos, tanto em Israel como em Gaza. Eles também abusaram dos corpos das pessoas mortas“, escreveu a Amnistia no relatório.

Sobre os reféns, a Amnistia Internacional disse ter documentado “uma abundância de provas” que refutam as alegações do Hamas de que não teria participado — ou planeado — no rapto dos civis e soldados colocados em cativeiro nesse dia.

“Vídeos, imagens e outras provas recolhidas pela Amnistia Internacional identificam um padrão claro em que as Brigadas Al-Qassam [braço armado do Hamas] raptaram civis, incluindo crianças e idosos, em vários locais civis”, lê-se, acusando ainda a organização de infligir “abusos psicológicos”.

“O rapto e a retenção de civis como reféns, bem como a retenção de soldados como reféns, constituem violações graves do direito internacional humanitário”, reforçou a AI, referindo ainda, face à dificuldade em encontrar os corpos após o cessar-fogo, que “o mau tratamento de cadáveres” também constituem um violação da lei.

Por razões diferentes, Israel e Hamas criticaram relatório

Nem Israel, nem o Hamas mostraram qualquer tipo de satisfação face às conclusões do relatório. O movimento islamita palestiniano considerou que o relatório tinha “falhas” e era “pouco profissional”, pedindo para que fosse retirado especialmente devido às acusações de crimes sexuais e às referências ao tratamento dos reféns, que têm sido negadas pela organização.

“A repetição no relatório das mentiras e alegações promovidas pelo governo de ocupação sobre violação, violência sexual e maus-tratos a prisioneiros demonstra claramente que o objetivo deste relatório é incitar e distorcer a imagem da resistência“, afirmou o Hamas no comunicado citado pela Al Jazeera.

Já o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, Oren Marmorstein, na rede social X, acusou a ONG de demorar “mais de dois anos” a abordar “os crimes hediondos do Hamas” e de, mesmo assim, ficar “longe de refletir toda a extensão das atrocidades horríveis cometidas” pelo movimento.

“Os horrores perpetrados pelo Hamas e pelos civis palestinianos em 7 de outubro e nos dias seguintes são tão graves que nem mesmo uma organização tendenciosa como a Amnistia Internacional pode ignorá-los”, acrescentou Marmorstein, comentando ainda que “felizmente, o mundo não precisa da Amnistia Internacional para reconhecer a verdade sobre a monstruosidade do Hamas”.