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Richard Gere, Julia Roberts e uma noção de estilo que já lá vai, mas que, ainda assim, não magoa. É difícil explicar... melhor reverem o filme

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Richard Gere, Julia Roberts e uma noção de estilo que já lá vai, mas que, ainda assim, não magoa. É difícil explicar... melhor reverem o filme

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30 anos depois, voltei a ver "Pretty Woman". E é mesmo verdade: ela beija na boca /premium

É um dos filmes mais vistos de sempre, pelo menos em VHS. Isto a acreditar nas contas de Hugo van der Ding, que regressou ao clássico das comédias românticas, fechado em casa mas feliz.

A prostituta mais famosa dos anos 90 faz trinta anos. Não, não vou falar de prostituição infantil. Para falar desses temas, não me convidem, que já tenho problemas que cheguem. Falo, claro, da emblemática comédia romântica “Pretty Woman”, que estreou precisamente a 23 de março de 1990.

Em Portugal, o filme leva o título “Um Sonho de Mulher”. Mas referir-me-ei a ele aqui como Pretty Woman, porque odeio regionalismos.

E que fiz eu para celebrar tão importante data? Fui rever o filme. Confesso que pela centésima septuagésima quarta vez. O que é que querem? Sou um incurável romântico! E este filme fala sobre as minhas três paixões: o sexo, o poder e a prostituição. “Mas, não é possível! São três desejos!”, diria a mãe daquele anúncio do Ferrero Rocher. Sim, é possível! Graças a Hollywood.

Pretty Woman envelheceu bem, tal como Julia Roberts. Reparem que falo de Julia Roberts, mas deixo propositadamente Richard Gere de fora. Eu nessas coisas sou implacável. Lá chegarei, à idade dele, e quero que façam o mesmo por mim.

E é essa imortal história de amor que hoje me traz aqui.

[o trailer de “Pretty Woman”:]

Geralmente, para efeitos económicos, reduziria na escrita a palavra “prostituta” a quatro letras apenas, mas, nesta época de quarentena, em que tanto precisamos de nos entreter, com estas dez letras sempre ocupo mais umas décimas de segundo do meu tempo.

Ora que este clássico intemporal (para quem não sabe, é esta a definição de clássico, ser intemporal) nos conta a história de um pobre menino rico, Edward Lewis, interpretado por esse grande canastrão, o Richard Gere. É engraçado lembrar, pelo menos para mim, que Gere se tornou famoso, em 1980, precisamente com o filme “American Gigolo” (não sei como se chama o filme em português, mas não deve ter nada a ver, como de costume), em que ele próprio faz o papel de um prostituto. Isto é um dia da caça e outro dia do caçador, como diria o Manuel Alegre.

Onde é que eu ia? Ah, sim. O “Pretty Woman”. Estou a escrever estas linhas já bastante embriagado, como suponho que as estejam a ler nas mesmas condições, devido à estada forçada dentro das nossas casas.

Dizia eu que o filme conta a história do canastrão Edward Lewis, interpretado pelo empresário Richard Gere. Ou talvez seja ao contrário. Bom, a personagem masculina principal é um homem sem escrúpulos que se dedica profissionalmente a comprar empresas falidas para depois desmantelá-las e vendê-las com um lucro enorme. Mais ou menos como o Comendador Berardo. Estou a brincar, não sei se foi assim que o comendador fez a sua fortuna, se calhar foi, se calhar não foi. Este empresário — o tal Edward Lewis, não Berardo — começa o filme a levar uma tampa da sua namorada. E pelo telefone. Classe… As mulheres realmente às vezes… Disse ela que está farta das viagens constantes dele e de ser apenas um acessório na sua vida. No filme não se conta o que aconteceu depois a esta namorada, mas, com este feitio, suponho que esteja sozinha passados estes trinta anos. As relações exigem compreensão e compromisso. Ora se o homem tinha de viajar para trabalhar, o papel da namorada era apoiá-lo e não dar-lhe ainda mais dores de cabeça. Atenção que isto não é a minha opinião, estou a apenas a entrar no espírito sexista do filme.

Richard Gere não era propriamente um homem feio. Era um género. Que há. Talvez demasiado asseado. Mas há quem prefira. Gostos não se discutem. Tem o seu público. Dificilmente o encontrarão no caixote de lixo de alguém. Mas sei lá, há gente tão esquisita... Não é o caso de Vivian. Ela lá aceita, claro.

Depois da referida tampa, Edward, se me permite tratá-lo assim, que está em mais uma das suas viagens de trabalho, desta vez em Hollywood, resolve afogar as mágoas, como sói dizer-se, com prostitutas e vinho verde. Corrijo-me: com vinho verde, que a prostituta ainda não apareceu no filme.

Saindo de uma festa, com uma gigantesca cardina, mal consegue guiar o carro, um Lotus. Para quem não sabe, Lotus, marca mítica das corridas de Fórmula 1, são uns carros que parecem Ferraris, mas não são. Havia uns modelos giros nos anos 60, mas daí para cá, transformaram-se no sonho húmido das pessoas ricas há muito pouco tempo em geral.

Bêbedo e ao volante (não tentem isto em casa, até porque provavelmente um Lotus não caberia na vossa casa), Edward vai parar ao red light district de Hollywood, o que parece uma redundância, mas não é necessariamente assim. E é lá que o seu caminho se vai cruzar com a prostituta Vivian Ward. Sem querer ser picuinhas para com os autores do guião, tenho de dizer que isto é tudo menos nome de prostituta. Talvez esteja a ser preconceituoso, mas Vivian Ward lembra-me muito mais o nome de uma violinista famosa, ou de uma ministra das Finanças inglesa. Seria o mesmo que, fosse o filme português, ela chamar-se Manuela Ferreira Leite.

Mas pronto, é Vivian Ward, é Vivian Ward, não se fala mais nisso. E é, claro, interpretada por Julia Roberts que, agora que penso nisso, tem mais nome de prostituta do que a própria personagem, que Deus me perdoe. Não consigo decidir se Julia é ou não uma grande canastrona, o que penso ser uma dúvida comum a toda a Humanidade. E não é seguramente neste filme que essas dúvidas se dissipam. Em “Pretty Woman”, Julia Roberts está soberbamente canastrona. Se houvesse um Óscar para Melhor Canastrona num Papel Principal, era dela. Ao contrário do que cantava Adelaide Ferreira, cujo papel principal, como se sabe, era seu.

Voltemos ao filme: os astros alinham-se sobre Hollywood Boulevard e Edward e Vivian vão conhecer-se. A prostituta, vendo o estado de embriaguez do empresário, oferece-se para guiar o Lotus e levá-lo para o Regent Beverly Wilshire Hotel. Tal como costuma muitas vezes acontecer na vida real. Por tal serviço, cobra-lhe 20 dólares. Isto, em frente ao Instituto Superior Técnico, em Lisboa, daria para bastante mais do que uma boleia. Mas na América, já se sabe, ganha-se sempre melhor. Por isso é que foge muito gente de valor para a América. Como foi, por exemplo, o caso do Professor António Damásio. E de muitos outros cientistas.

Julia Roberts, ou Vivian, que teve de se portar como uma senhora e dar uma repaginada ao seu guarda-roupa, que, na altura, eram minissaias pelo umbigo e tops com decotes até aos joelhos

Depois de andar de rabo tremido até ao hotel, Edward e Vivian lá se separam. Mas por pouco tempo. É que Edward tem uma ideia genial. Como, aliás, os ricos costumam ter. Veja-se o caso de Isabel dos Santos ou de Ricardo Salgado. E qual é a ideia de Edward? Desviar uns quantos milhões de euros? Não! Melhor! Pagar a Vivian 3 mil dólares por dia para que ela o acompanhasse na sua agitada vida social durante a semana que estaria em Los Angeles. Que isto um homem sozinho nessas coisas gera logo falatório. “Ai, deve ser maricas!”, “Ai, deve ter mau feitio, nenhuma mulher o atura!”. Além disso, um homem destes só consegue mostrar o seu poderio económico através da mulher, que tem vestidos e joias mais giros. A moda masculina, neste segmento, é mais tudo à base do smoking. Adiante. Vivian aceita. Ainda para mais, a proposta nem sequer envolve sexo. Ou, se calhar, APESAR de não envolver sexo. Sim, que o Richard Gere não era propriamente um homem feio. Era um género. Que há. Talvez demasiado asseado. Mas há quem prefira. Gostos não se discutem. Tem o seu público. Dificilmente o encontrarão no caixote de lixo de alguém. Mas sei lá, há gente tão esquisita… Não é o caso de Vivian. Ela lá aceita, claro.

Edward explica melhor o trabalho: Vivian terá de se portar como uma senhora e dar uma repaginada ao seu guarda-roupa, que, na altura, eram minissaias pelo umbigo e tops com decotes até aos joelhos.

As pessoas mais antigas lembrar-se-ão de “My Fair Lady”. A história é a mesma, mais ou menos. Mas passada em Inglaterra e com bons atores.

Tal como Audrey Hepburn no musical de 1964, Julia Roberts, ou antes, a sua personagem, e com a ajuda do gerente do Regent Hotel, transforma-se numa senhora. Épica é a cena em que, ao som da música de Roy Orbison que dá nome ao filme, Vivian vai partir o dinheiro de Edward nas lojas chiques de Rodeo Drive. Eu próprio recriei muitas vezes esta cena em Amesterdão, quando roubava o cartão de crédito da minha Mãe para ir comprar erva às várias coffeeshops da Nieuwe Zijdsvoorburgwal (desculpem, os nomes das ruas na Holanda têm nomes enormes e difíceis de dizer para estrangeiros).

Há ainda uma ou duas cenas engraçadas em que Vivian já é quase uma senhora, mas ainda não é bem uma senhora. Um bocado como a Lili Caneças nos anos 90. Estou a brincar! Há uma caracoleta (escargot em francês) lhe salta da mão para o colo de uma senhora num restaurante chiquésimo. Quem nunca…

Para fazerem as pazes, e onde os vossos namorados ou namoradas ou ambos vos ofereceriam uma rosa ou uma subscrição da Sport TV, Edward pega num jato privado e leva Vivian para ver a Traviata à Ópera de São Francisco. Isto põe a vossa relação em perspetiva, certo? Pois.

Os dois vão também a um jogo de polo (que, em “My Fair Lady” é uma corrida de cavalos), onde acabam por se chatear. Não por causa da chatice que é o polo em si, que é, mas por ciúmes. Os ciúmes são sempre uma chatice. Talvez ainda maior que o polo.

Para fazerem as pazes, e onde os vossos namorados ou namoradas ou ambos vos ofereceriam uma rosa ou uma subscrição da Sport TV, Edward pega num jato privado e leva Vivian para ver a Traviata à Ópera de São Francisco. Isto põe a vossa relação em perspetiva, certo? Pois.

Esta ópera de Verdi, estreada no Teatro La Fenice, em Veneza, no dia 6 de março de 1853, e baseada no romance de 1848 A Dama das Camélias de Alexandre Dumas (Filho, não confundir com o Pai. Eram de facto muito parecidos, assim ao longe nem dava para perceber quem era quem, só depois ao perto é se distinguia seja a voz de bagaço de Alexandre Dumas Pai ou a de cana rachada de Dumas Filho), conta justamente a história de uma prostituta que se apaixona por um jovem rico. Não vos vou contar o resto, vejam a ópera ou leiam o livro. Mas posso dizer que acaba em tragédia, o que não é o caso do filme. Hollywood não tem estaleca para fazer filmes que acabem mal, como se sabe.

Comovidos com a história e inebriados com a música, Vivian e Edward voltam para o hotel e pinam. Perdoem-me esta palavra mais vulgar. Vivian chega a quebrar a sua regra de ouro de não beijar na boca. Aprendam, que ela não dura sempre.

A esta altura, já o espetador (isto com o novo acordo é preciso esclarecer que se trata de quem está a ver o filme) percebeu que estão os dois caidinhos um pelo outro. Mas eles são casmurros. Ainda se chateiam mais uma vez.

Mas o espírito rebelde de Vivian deixou marcas em Edward que se tornou um empresário escrupuloso. Aparece então o Pai Natal e o Rato Mickey e todos apanham uma grande bebedeira. Brinco. Claro que existem empresários escrupulosos. Não quero que fiquem a pensar que sou comunista ou assim. Credo.

Resumindo e baralhando: ao fim daquela semana, Vivian volta para o seu apartamento, pronta para retomar a sua vida de prostituta, e Edward volta à sua vida de homem rico.

Fim.

Um filme muito giro.

ESTOU A GOZAR, PÁ!

Richard Gere, protagonista de um dos filmes mais vistos de sempre, pelo menos em VHS

Claro que ele volta para trás, qual príncipe encantado montado num cavalo branco, para salvar a donzela presa na sua torre. Numa das cenas mais famosas das comédias românticas, Richard Gere salta pelo tejadilho da sua limusine branca e sobe pelas escadas de incêndio da casa de Julia Roberts com um ramo de rosas na mão, vencendo as suas terríveis vertigens.

“E agora? O que acontece depois de o príncipe subir à torre e de salvar a donzela?”, pergunta ele. “Ela salva-o de volta”, responde ela.

E aqui sim, é o fim. Foi há trinta anos, mas parece que foi ontem. É uma terna recordação de um dos filmes mais vistos de sempre, pelo menos em VHS. E que mostra que é possível falar de prostituição nos Estados Unidos nos anos 80 e 90 sem uma única referência a crack. Obrigado, Hollywood.

E eu, consegui incluir num texto sobre o “Pretty Woman” os nomes de Manuel Alegre, de Joe Berardo, de Manuela Ferreira Leite, de Adelaide Ferreira, do Professor António Damásio, de Isabel dos Santos, de Ricardo Salgado, de Lili Caneças, de Verdi, de Alexandre Dumas, Pai e Filho, do Pai Natal e do Rato Mickey.

Era uma aposta com um amigo.

Mil euros. E ganhei.

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