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Jason Merritt

Jason Merritt

A adolescente, a destemida, a amante e a torturada: as eras de Taylor Swift em 11 álbuns

Sete álbuns na última década, 11 desde que começou, a artista escreve e grava a um ritmo desenfreado e procura a reinvenção na mesma medida. Dias antes dos concertos, recordamos a música.

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Durante anos, havia quem fosse à procura de Taylor Swift pelas controvérsias e nunca ficasse pela música. Da mesma forma, apesar de ser a maior estrela pop da atualidade, também há quem pense na americana como cantora country. Não foi óbvio para Taylor descolar-se dos rótulos e passar grande parte dos seus vinte anos em constante reinvenção, sem se atropelar, avançando e refinando a escrita de canções, a voz e o gosto em arriscar.

Pode parecer impossível, dada a dimensão da empreitada, mas a Eras Tour começou em mistério. Poucos acreditavam que a cantora ia dar dezenas de espectáculos com mais de três horas cada. Não só conseguiu concretizar a tarefa como continuou a reeditar a própria discografia (as chamadas “Taylor’s Version”), estreou um filme-concerto da digressão atual e lançou um novo álbum, The Tortured Poets Department, que entra no alinhamento dos concertos, fazendo alterações numa tour que já estava planeada e ultra produzida.

A Eras Tour é uma digressão diferente das outras. Por um lado, é uma jogada artística e económica para fazer de Taylor Swift a maior artista pop da atualidade e a maior empresa do showbiz, protagonizando ao mesmo tempo um desafio para indústria. Este é um momento que define uma época: pode criar um novo padrão ou, então, ser o expoente da megalomania e forçar um reset. Não sabemos, mas há que apreciar o momento por aquilo que é — uma artista no topo das suas capacidades.

Tanto a carreira de Taylor Swift como esta digressão estão assentes nos álbuns (são eles que marcam as tais “eras”). Assim sendo, recordemo-los por ordem cronológica. Desde a ingenuidade da estreia homónima de 2006, passando pelo génio disruptivo de 1989, os dois discos lançados durante a pandemia ou o mais recente, lançado há cerca de um mês.

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“Taylor Swift”

2006

Quando o álbum é editado, em outubro de 2006, Taylor Swift ainda tem dezasseis anos. Tendo em conta que já se passaram quase duas décadas, parece injusto dizer que há aqui ainda algo que persegue a cantora, mas nestas origens está o estigma de durante muito tempo ter sido visto como a típica cantora country-pop norte-americana. Cresceu fascinada com esse universo, um que requer treino e trabalho, como se fosse uma modalidade desportiva.

Taylor passou por isso, mas de forma diferente daquela que outras artistas que a antecederam desde finais da década de 1990 protagonizaram. Talvez por isso o álbum homónimo seja tão ingénuo e adolescente. Ao sê-lo, é também muito genuíno, com referências e imaginários que acabariam por marcar presença nos álbuns seguintes. Há boas canções, como o primeiro single Tim McGraw, A Place In This World ou Our Song, e não há problema em admitir que algumas envelheceram mal. Este álbum não faz parte da Eras Tour, mas a cantora tem interpretado alguns temas aqui e ali nas secção surpresa do concerto.

[Já saiu o segundo episódio de “Matar o Papa”, o novo podcast Plus do Observador que recua a 1982 para contar a história da tentativa de assassinato de João Paulo II em Fátima por um padre conservador espanhol. Ouça aqui o primeiro episódio.]

“Fearless”

2008

Ao ver a versão em filme de The Eras Tour, é evidente como as canções de Taylor Swift encaixam bem, apesar da atitude ser bastante diferente de álbum para álbum. Esta não é bem uma digressão de Greatest Hits ou uma victory p. É, isso, sim uma forma de se ligar todos estes momentos e provar que fazem sentido, que formam um imaginário evolutivo que pode ser compreendido sem ser necessário seguir exatamente uma ordem. Ao segundo álbum, Taylor escreveu uns quantos clássicos — incontornáveis são os casos de Love Story, You Belong With Me, Fearless e The Way I Loved You — e mostrou que conseguiu sair da ingenuidade do álbum homónimo.

Fê-lo ainda a escrever canções adolescentes, vigorosas e povoadas pelas fantasias norte-americanas — dos ritos de passagem aos mitos da ficção — que consegue colocar facilmente o ouvinte no lugar de protagonista — virtude, aliás, que até hoje domina.

“Speak Now”

2010

Talvez o álbum mais dúbio da carreira, Speak Now dá o salto da adolescência para a idade adulta e, com isso, as inevitáveis dores de crescimento. Por exemplo, a saída do capítulo country-pop e o virar de página para a pop acontece com canções muito cheias, assoberbadas com a própria tentativa.

Hoje torna-se fácil classificá-las como barrocas em relação à restante discografia. Speak Now é um grito, mas um que complementa e refina o passo dado em Fearless, ao invés do desejado salto para fora de pé — isso viria quatro anos mais tarde, com 1989. Ainda assim o tema homónimo é uma grande canção. Pontos extra para Enchanted, Mine, Sparks Fly, The Story Of Us ou até Dear John.

“Red”

2012

Abre com a melhor primeira canção de um álbum de Taylor Swift, State Of Grace e é o verdadeiro álbum da maioridade de Taylor Swift. Aquele em que concretiza as intenções de sair do berço onde foi criada para começar a escrever a canções mais distantes da adolescência, sem negar o que está para trás: não porque o respeitinho é bonito, mas porque Taylor gosta de manter um fio de continuidade. Além do habitual produtor Nathan Chapman, Taylor convida Max Martin, Jacknife Lee e Shellback para trabalharem algumas canções, como We Are Never Ever Getting Back Together, 22 e I Knew You Were Trouble.

A eletrónica que serviu de visita especial em Speak Now, existe aqui com um propósito e concretiza o sonho pop-rock que vinha sendo anunciado noutros temas. E, lá pelo meio, uma ótima canção criadora de mitos, de histórias e teorias da internet, All Too Well. Consta que é sobre a sua relação com Jake Gyllenhaal, mas mais importante do que isso, reza a história era para ter sido um épico de vinte minutos. No álbum original entrou uma versão de quase seis, mas quando Swift gravou a “Taylor’s Version”, incluiu como bónus uma versão de dez minutos, que é a que toca na Eras Tour.

“1989”

2014

Após anos de desgaste por ser um centro de atenções, pelo escrutínio das suas relações, pela sensação de que o talento era secundarizado face à vida privada e de que teria de ser — para os media e para a América — uma espécie de modelo exemplar que nunca quis ser, nasce 1989. Red era atrevido, mas 1989 atira-se de cabeça para a pop com muito menos vergonhas. Max Martin e Shellback escrevem e produzem a maioria dos temas com Taylor e, lá pelo meio, surge Jack Antonoff, ainda a dar os primeiros passos como o produtor que é hoje. 1989 é conhecido por uma série de canções que não param de tocar desde então, seja Blank Space, Shake It Off, Style, Bad Blood ou Out Of The Woods, mas é muito mais do que isso.

Álbum de rutura estética e conceptual, onde Taylor continua a falar dela própria, mas através de personagens que cria para encararem certos cenários. Uma fuga da realidade, onde é irónica e ataca, levando essa postura até para as entrevistas de promoção, chegando a ser demasiado teatral para si mesma nas aparições televisivas. Hoje é evidente que algo não estava bem — a própria fala disso no documentário Miss Americana — e é desse lugar que sai o seu melhor álbum. Há dez anos, 1989 deveria ter sido suficiente para ganhar o epíteto de “maior estrela pop”. Corajoso, com alguns dos melhores momentos autodepreciativos, paranoicos e, por consequência, megalómanos da pop deste século. Resulta na perfeição, sólido de uma ponta à outra e com a fibra certa para se aguentar durante décadas.

“Reputation”

2017

Com Reputation quebra-se o ciclo de um novo álbum de dois em dois anos, e acontece o mesmo que já tínhamos visto com Speak Now: é o álbum barroco que marca o fim de uma fase e a passagem para outra. Contudo, aqui a coisa resulta, por ser menos ambígua. Em Reputation, Taylor Swift sabe exatamente onde quer estar, continua a trabalhar com os mesmos produtores dos álbuns anteriores — sedimentando a relação com Antonoff — e avança sem medo para instrumentais maximalistas, cheios, habitados por graves, distorção e ritmos que se colam a subgéneros do hip hop.

É o álbum mais vigoroso e sujo de Taylor Swift, uma espécie de bad boy numa discografia bem comportada. O ato, contudo, é propositado, queria avançar para lá do que tentou em 1989, ambicionava controlo, queria provocar e assumir uma atitude em tudo distante da vitimização. Com canções mais musculadas e vistosas, para muitos Reputation representa a melhor era desta Tour.

“Lover”

2019

Do preto e branco de Reputation, salta-se para as cores de Lover, as mesmas que abrem esta Eras Tour. Foi a digressão que acabou interrompida pela pandemia (e que a traria a Portugal em 2020). Programa adiado, ficaram as canções que cresceram durante estes anos todos.

Cruel Summer, o single que nunca foi single e que se tornou numa das canções favoritas dos fãs, ou Lover, vencedora na simplicidade (“Can I go where you go? / Can we always be this close forever and ever? / Take me out, and take me home“), pela entoação e encadeamento e por ser capaz de encaixar um mundo de emoções em cinco segundos. O ”I am so sick of running as fast as I can“ de The Man procura encapsular o mesmo, mas nunca o conseguiu com tanto efeito; Miss Americana & The Heartbreak Prince, Death By A Thousand Cuts, London Boy e The Archer reforçam um bom momento criativo e, outra vez, um à-vontade para lançar os dados e voltar a mudar.

“Folklore”

2020

No final do primeiro confinamento Taylor Swift surpreende tudo e todos com um álbum gravado num processo criativo partilhado com Aaron Dessner (dos The National), Jack Antonoff e com o namorado de então, o ator Joe Alwyn. A mudança de rumo também poderia ser uma surpresa, tal como este álbum de verão, não se estivesse já habituado a isso.

Folklore e, posteriormente, Evermore reforçam as qualidades enquanto escritora de canções e o exemplar talento de construir momentos através do banal, tornando-o reconhecível e partilhável, sobretudo naqueles tempos incertos, apesar dos tons indie e intimistas. Folklore revelou-se enquanto álbum quente, num processo de constante auto-análise, sem parecer demasiado expositivo, como era habitual até Lover. Cardigan, My Tears Ricochet, August, Illicit Affairs, This is Me Trying e Betty são canções que entrariam em qualquer best of.

“Evermore”

2020

Um álbum surpresa? E que tal dois? Editado ainda antes do final do ano 1 da pandemia, Evermore saiu em dezembro e continuava o processo criativo de Folklore, com a mesma equipa. Evermore consolida a ideia de que Taylor Swift criou um mundo e um imaginário para estas canções, deixando uma certa fantasia entrar. Willow é a apresentação deste universo, que prossegue com Champagne Problems, Tolerate It, No Body No Crime, Long Story Short e Marjorie.

Sem a pandemia, estas canções poderiam ter existido de outra forma, mas como a criação é fruto de uma época, Taylor usou isso a seu favor (sem cinismos) e recriou-se mais uma vez, sem destoar do corte que já existia em Lover, mantendo o processo de extinção de excesso e procurando formas mais simples, uma calma que até então não existia na sua discografia.

“Midnights”

2022

Lover foi a elevação da relação criativa entre Taylor e Antonoff, Midnights é a depuração desse processo-rebuçado-pop interrompido pela pandemia e os dois álbuns que gravou em 2020. Não é um passo atrás, antes a incorporação da calma — e até do vazio — de Folklore e Evermore num território mais pop. Swift e Antonoff levaram ambiências, sensações e estados que trabalharam nesses dois álbuns e para o disco mais noturno da cantora. Mais uma vez, comunica os seus problemas, as suas dúvidas e inseguranças de uma forma universal.

Canções como Anti-Hero servem de panfletos naturais facilmente murmurados e, depois, decorados pela combinação de um beat perfeito e uma mensagem cuiada ao detalhe. O tema de abertura, Lavander Haze, coloca-nos logo numa certa dormência, que prossegue com Moroon e se estende até em momentos mais desenvoltos como Karma ou Bejeweled. Falta-lhe o fator “murro” de 1989, mas as atmosferas de Midnights — e a forma como se consolidam ao longo do tempo — são frescas e inovadoras. O tempo dirá como se aguentam, Midnights tem aquele ADN de “álbum-que-será-mais-apreciado-daqui-a-uns-anos”.

“The Tortured Poets Department”

2024

Com uma digressão como Eras Tour a decorrer e no topo do mundo, Taylor Swift decide editar o seu álbum mais longo até à data — a versão completa tem mais de duas horas — ao mesmo tempo que procura espelhar o problema do excesso (enquanto a digressão que protagoniza faz da abundância e da quantidade valores prioritários). Na era do streaming e da criação da indústria musical do superfã que tem de dar sempre os passos extra para justificar a sua dedicação a uma causa (tradução: gastar dinheiro), um álbum como The Tortured Poets Department parece, à luz de hoje, abuso de poder.

Taylor escreve muito — e bem — e desde que tem total controlo criativo daquilo que faz que se rege pela ideia de more is more, ou more is better: mais é mais, mais é melhor. Até aqui, desculpavam-se alguns descuidos — Lover seria muito melhor álbum com menos quatro ou cinco canções —, mas The Tortured Poets Departament parece o primeiro passo em falso. Jack Antonoff e Aaron Dessner surgem, novamente, como aliados, mas revela-se o desgaste. Continuam a existir ótimas canções, mas também há muitas ideias às voltas, repetições e falta aquele killer instinct que vimos e ouvimos antes. Um ato de megalomania que lhe é permitido, claro, mas que talvez esteja a bater no vermelho.

 
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