Atualizado segunda-feira às 22.50 com esclarecimento adicional do Expresso.

Começou este sábado a circular nas redes sociais um vídeo, com fraca qualidade, do primeiro-ministro a chamar “cobardes” aos médicos que se recusaram a prestar serviço no Lar de Reguengos. O momento foi captado numa conversa off the record da entrevista a António Costa divulgada este sábado pelo Expresso. Entretanto, o semanário já emitiu uma nota a descartar responsabilidades, a avisar que ia agir judicialmente sobre quem divulgasse este “vídeo ilegal” e a afirmar que o seu conteúdo foi descontextualizado. Mas o Observador apurou que o Expresso mandou 13 vídeos da entrevista para outros órgãos de informação, sendo que o vídeo de 7 segundos em causa foi cortado pelo próprio Expresso e enviado já assim para outras redações sem nenhuma indicação prévia de que não poderia ser utilizado. Do lado de São Bento, embora a conversa seja em off, tornou-se pública e António Costa tem na bagagem uma frase que disse quando o seu ministro João Soares ofereceu, em 2016, umas “bofetadas” a colunistas do Público: “Nem à mesa do café [os governantes] se podem esquecer que são ministros”.

Mas, afinal, como escapou um vídeo em off de uma conversa privada entre jornalistas e o primeiro-ministro? O Observador responde em sete questões ao que já se sabe sobre este caso.

Já esta segunda-feira à tarde, o Expresso fez um novo esclarecimento onde assumiu que o som do vídeo de sete segundos foi gravado por lapso pelo microfone interno da câmara, tendo ficado como som de fundo da conversa que estava já em off the record. Quando o Expresso remeteu para as televisões excertos da entrevista seguiram imagens filmadas para planos de corte que incluíam o som gravado por lapso. Mas garante que o vídeo que foi divulgado pelo whatsApp foi objeto de edição de som, aumentando o volume das palavras ditas por António Costa que lançaram a polémica.

Em que circunstâncias disse António Costa estas palavras?

O primeiro-ministro concedeu uma entrevista ao semanário Expresso cuja primeira parte foi divulgada no site do jornal ao final do dia da última sexta-feira, 21, e na edição em papel no dia seguinte, 22. O resto só sairá no próximo sábado, 29, na revista. Um dos blocos de perguntas divulgados referia-se ao próximo Orçamento do Estado e o outro incidia sobre o caso do lar de Reguengos e o facto de a ministra do Trabalho e da Solidariedade Social, Ana Mendes Godinho, ter dito que não tinha lido o relatório da Ordem dos Médicos. Durante essa entrevista, António Costa ataca a Ordem, mas sobre os médicos que se recusaram a prestar cuidados de saúde no lar de Reguengos  de Monsaraz o primeiro-ministro limita-se a dizer que vai esperar pelo relatório da Inspeção-Geral de Saúde. Mas isso foi em on, pois off the record — como é habitual nestas circunstâncias e em todos os órgãos de comunicação — houve conversas entre os jornalistas do Expresso e o chefe de governo, onde o primeiro-ministro falou de forma menos institucional. É numa dessas conversas off the record que António Costa diz que os médicos que se recusaram a prestar serviços foram “cobardes”. Com rigor, o que o primeiro-ministro disse foi: “É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram“.

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Quando foi divulgado o vídeo?

O vídeo tem apenas sete segundos, mas é o tempo suficiente para se perceber que António Costa diz a frase enquanto conversa com o diretor-adjunto do Expresso, David Dinis. O vídeo começou a circular ainda no sábado e um dos primeiros a divulgá-lo nesse dia à noite (às 23h57) foi o utilizador de Twitter “Meio quilo de gajo“, que publicou um vídeo com este momento em que se percebe que as imagens são gravadas de um ecrã.

Já na manhã deste domingo o antigo secretário de Estado do Tesouro e Finanças do governo de António Guterres, António Nogueira Leite, partilhou o vídeo, mas entretanto já o apagou, justificando que acredita no diretor do Expresso quando este diz que o vídeo foi roubado.

O vice-presidente da bancada do PSD, que é também ele médico e com o pelouro da Saúde, Ricardo Batista Leite, também partilhou o vídeo na manhã deste domingo, mas também o retirou após ter sido informado que se tornou público na “sequência de um roubo”.

Quem divulgou o vídeo?

Esta seria a pergunta de um milhão de dólares e é o que falta apurar com mais detalhe. Mas já há pistas sobre a forma como o vídeo saiu do semanário. O Expresso diz claramente, numa nota de direção, que “não tem responsabilidade”, fala em “vídeo ilegal” e diz que “os sete segundos descontextualizam” a entrevista. O Expresso diz ainda que  a divulgação fugiu “ao controlo do jornal”. O Observador apurou, no entanto, que o vídeo não foi truncado por nenhuma entidade exterior. O próprio semanário Expresso, sabe o Observador, enviou para outros órgãos de informação um email com links para o download de 13 vídeos. Dois desses vídeos tinham entre 3 a 4 minutos e era onde estaria o grosso do que o semanário queria revelar da entrevista ao primeiro-ministro. Seguiram, no entanto, para as televisões mais 11 vídeos muito curtos que tinham entre 4 e 41 segundos. Um deles era precisamente um vídeo de 7 segundos com a polémica frase do primeiro-ministro. Outros órgãos de comunicação social aperceberam-se do insólito dos vídeos e contactaram a direção do Expresso que pediu, ainda no sábado, para que não fosse divulgado aquele conteúdo. Esse pedido foi cumprido.

O Observador contactou o diretor-adjunto do Expresso, David Dinis, que se recusou a fazer qualquer comentário, limitando-se a remeter esclarecimentos para a nota da direção.

O que diz o Expresso?

A direção do Expresso não assume qualquer espécie de culpabilidade pelo sucedido e tem-se desdobrado em telefonemas para políticos que divulgaram o vídeo para que o retirem. Na nota publicada, a direção do semanário começa por dizer que se trata de “uma gravação amadora de um ecrã de computador, que reproduz uma recolha de imagens de uma conversa off the record, privada, do primeiro-ministro com jornalistas do Expresso” e acrescenta que “foi divulgada nas redes sociais sem autorização e conhecimento deste jornal”.

Logo no segundo parágrafo a direção escreve que “o Expresso repudia absolutamente esta divulgação, pela qual não tem responsabilidade”. E acrescenta que “os sete segundos do vídeo ilegal descontextualizam quer a entrevista, quer a conversa que o primeiro-ministro teve com o Expresso”.

A direção informa ainda que “o Expresso desencadeará, de imediato, os procedimentos internos e externos para apurar o que aconteceu e os responsáveis pelo sucedido”. O Observador também procurou saber junto do Expresso se estava disponível para fazer uma queixa às autoridades para apurar o autor da fuga, mas mais uma vez David Dinis remeteu esclarecimentos para a nota da direção.

Na mesma nota, o Expresso faz ainda um aviso a quem divulgar o vídeo, dizendo que, “sendo esta gravação amadora ilegal, o Expresso reserva-se o direito de desencadear também os imprescindíveis mecanismos jurídicos para processar os responsáveis pela sua difusão”. Por fim, o semanário pede “as devidas desculpas ao primeiro-ministro pela quebra de confiança, ainda que involuntária”.

Quais as reações ao caso?

O Sindicato Independente dos Médicos, liderado pelo antigo deputado do PSD Jorge Roque da Cunha, foi dos primeiros a reagir. Pouco passava das 10h da manhã de domingo quando o SIM emitiu um comunicado a dizer que “repudiava” e “repreendia” em absoluto as palavras do primeiro-ministro. Seguiu-se o líder do CDS, que exortou o primeiro-ministro a “retratar-se publicamente e retirar imediatamente o ataque feroz que desferiu à classe profissional que os portugueses mais contam para vencer esta pandemia”. O líder do Chega, André Ventura, também disse que António Costa “ultrapassou, desta vez, todos os limites” e aproveitou para pôr pressão no seu putativo adversário nas presidenciais, ao dizer que “Marcelo tem de intervir ou será o Presidente mais cúmplice da história democrática”. Quanto ao PS, criticou as afirmações do Sindicato Independente dos Médicos, que considerou “falsas” e “indecorosas” mas escusou-se a comentar a polémica envolvendo o semanário.

O que esteve na origem desta história?

A 1 de julho o presidente da ARS Alentejo emitiu um despacho a exigir “a presença de profissionais de saúde do ACES [Agrupamento de Centros de Saúde] do Alentejo Central” para prestarem cuidados de saúde aos utentes deste lar infetados com o novo coronavírus. Os médicos acusaram depois o presidente da ARS Alentejo, José Robalo, de os ter pressionado e ter ameaçado com processos disciplinares, alegando que não havia condições para prestarem cuidados no lar. A 2 de julho a presidente da sub-região de Évora da Ordem dos Médicos, Maria Augusta Portas Pereira, denunciou que o lar não tinha condições de internamento e que os doentes estavam em quartos com três e quatro camas e não há ventilação de ar”. Quatro dias depois, a 6 de julho, o Sindicato dos Médicos da Zona Sul considerou que a “mobilização forçada dos médicos sob tutela da ARS é manifestamente abusiva” e disponibilizou aos profissionais de saúde uma minuta para que estes manifestassem a sua indisponibilidade. Já a 19 de Agosto, o bastonário da Ordem dos Médicos voltou a atacar a “postura inaceitável” da ARS: “A postura de negação e de desresponsabilização, associada à soberba e arrogância, por parte do Dr. José Robalo, é técnica e humanamente inaceitável, preferindo atacar a forma e os autores da auditoria, em detrimento de aproveitar o trabalho e as conclusões para que Reguengos não se repita”. Foi este o barril de pólvora que levou à irritação de Costa com os médicos, percebendo-se que o primeiro-ministro está do lado de José Robalo.

Quais as consequências?

António Costa tem este domingo agenda pública, uma vez que se desloca à final da Liga dos Campeões, mas não está prevista nenhuma declaração do primeiro-ministro — e o chefe de governo também não tem ainda agenda para esta segunda-feira. No entanto, aumentará a pressão política para que se pronuncie publicamente sobre esta declaração. O facto de ter sido uma declaração em off é um argumento a seu favor, mas o primeiro-ministro carrega o peso da frase que disse em 2016 quando o seu ministro da Cultura, João Soares, ofereceu “bofetadas” a colunistas do Público:”Nem à mesa do café [os governantes] se podem esquecer que são ministros”.