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Commuters queues at the entrance of departures at Lisbon's Humberto Delgado airport as the area is closed due to the blackout affecting Spain and Portugal, in Lisbon, Portugal, April 28, 2025. The government has set up a working group to monitor the blackout affecting Portugal from north to south and other European countries, noting that the problem "may have originated" outside Portugal. TIAGO PETINGA/LUSA
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▲Relatório da ANAC diz que aeroporto de Lisboa só teve energia a partir da meia noite do dia 28.

TIAGO PETINGA/LUSA

▲Relatório da ANAC diz que aeroporto de Lisboa só teve energia a partir da meia noite do dia 28.

TIAGO PETINGA/LUSA

Apagão. Restabelecimento de eletricidade ao aeroporto de Lisboa foi mais demorado devido a "anomalias"

Lisboa foi o único aeroporto a ter operação fortemente restringida pelo apagão de 28 de abril. E o restabelecimento da eletricidade demorou mais tempo do que na cidade devido a "anomalias isoladas".

Todos os aeroportos nacionais mantiveram a operação ativa no dia do apagão com a exceção de Lisboa. O Aeroporto Humberto Delgado “foi afetado por fortes constrangimentos decorrentes da falha energética”, com a operação condicionada logo no início às 12h30 do dia 28 de abril. E só por volta da meia-noite desse dia é que se iniciou a recuperação gradual do fornecimento de energia que permitiu começar a regularizar as centenas de voos cancelados, com a ajuda de voos noturnos excecionalmente autorizados devido ao motivo de força maior.

A retoma do fornecimento energético a um dos setores mais críticos na crise do apagão foi mais lenta do que a verificada em zonas da capital em redor do aeroporto onde a luz começou a voltar por volta das 21h00, revela o relatório da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) sobre os efeitos do apagão. “Na infraestrutura aeroportuária, o processo foi mais demorado porque foram registadas algumas anomalias isoladas (exemplo da REN com avaria no posto de corte junto à NAV) e para evitar nova disrupção decorrente de eventual injeção abrupta de pico de energia” (que poderia provocar novo colapso na rede).

Reposição de energia após apagão demorou mais três a cinco horas do que devia. Lisboa deve ter prioridade, diz especialista

De acordo com a mesma fonte, as primeiras tentativas de reposição do abastecimento de energia de forma faseada no aeroporto começaram por volta das 23h30, tendo sido reposto o fornecimento às 00h15 de 29 de abril (já no dia seguinte). Foi só a partir dessa hora que se iniciou a retoma gradual da operação.

Os detalhes constam do relatório da ANAC (Autoridade Nacional da Aviação Civil) feito a pedido do Governo a reguladores de setores críticos que foram afetados pelo blackout ibérico, como os transportes (IMT) e as comunicações (Anacom). O Ministério das Infraestruturas já tinha divulgado as principais conclusões e recomendações destes documentos, mas as versões integrais dos relatórios foram classificadas como reservadas por motivos de segurança nacional. Não obstante, e a pedido do deputado do PS, Pedro Vaz, entregou em agosto ao Parlamento sínteses executivas não classificadas com elementos informativos que considerou poder partilhar sem por em causa a segurança nacional.

Apagão. ANAC, Anacom e IMT recomendam maior autonomia energética em cada setor. As conclusões e as recomendações dos estudos dos reguladores

Apesar deste ser um evento no sistema elétrico, ainda que com origem na rede em Espanha, em Portugal não foi ainda divulgado qualquer relatório sobre o comportamento e capacidade de resposta deste sistema.

Maior saturação, operação mais complexa e acessos penalizaram aeroporto de Lisboa

Apesar da NAV nunca ter interrompido os serviços de controlo de tráfego aéreo e de, ao contrário do que sucedeu em zonas de Espanha, a região de informação de voo de Lisboa ter estado sempre operacional, o que permitiu inclusive acomodar tráfego desviado da região de Madrid, o apagão “teve especial incidência em Lisboa onde a falha generalizada de fornecimento elétrico obrigou a tomar decisões para garantir a segurança e a manutenção dos serviços essenciais por um período alargado”.

O aeroporto de Lisboa concentrou a maior parte dos efeitos disruptivos do apagão, com 348 voos cancelados em dois dias e 66 mil passageiros afetados. A interrupção geral de abastecimento de energia foi classificada como uma circunstância extraordinária, o que dispensou as companhias de pagarem indemnizações aos passageiros.

Entre as medidas adotadas estiveram restrições ao tráfego aéreo com a ativação do rate zero, que impede todos os aviões com destino a Lisboa de descolarem por falta de capacidade para os receber e acomodar. Excetua-se desta situação os voos que já partiram. Quando a decisão foi tomada estavam 35 voos a caminho de Lisboa, dos quais 10 foram desviados para o Porto e três para Faro. E só foram autorizadas partidas pontuais em função das condições de viabilidade do voo.

Esta restrição não sucedeu nos outros aeroportos por “terem cenários de operação menos saturados e complexos e por estarem localizados em áreas menos impactadas por fatores externos como acessibilidades”.

No Humberto Delgado foram desligados equipamentos que não eram absolutamente essenciais à operação para manter um nível de operação com a energia de emergência. As aeronaves que estavam posicionadas em stand com ponte telescópica (manga) ficaram temporariamente bloqueadas por constrangimentos na movimentação devido à falta de energia. Foi travado o acesso e estada de pessoas nos terminais, às quais foram distribuídas água e snacks.

Viajantes esperam no Aeroporto Humberto Delgado pelo respetivo voo durante o "apagão" de eletricidade que afetou Portugal de Norte a Sul, Lisboa, 28 de abril de 2025.  Milhares de passageiros ficavam hoje presos no aeroporto de Lisboa, com muitos à espera de ligações adiadas sem data, por causa do corte geral de eletricidade no país. IMAGEM CAPTADA COM SMARTPHONE/PAULO AGOSTINHO/LUSA

▲ Atrasos na entrega de bagagens foram uma das maiores queixas

PAULO AGOSTINHO/LUSA

A partir da meia noite do dia 28, foi retomada a operação com novos voos comerciais e um de carga e serem autorizados excecionalmente a voar durante a noite. Segundo a ANAC, verificou-se uma recuperação no volume de passageiros embarcados nos dias seguintes (nesta síntese não são indicados quantos dias) impulsionada pelo aumento do número de voos realizados e por maiores taxas de ocupação das aeronaves.

Quanto à entrega de bagagens, e apesar das muitas queixas reportadas nos dias seguintes, a ANAC considera que o sistema revelou resiliência, apesar de reconhecer a diferença de procedimentos de recuperação adotados pelos diversos prestadores de handling (serviços em escala). E indica que no dia 30 de abril, 70% do total de bagagem tinha sido entregue. Uma semana depois as malas por entregar eram residuais.

Há milhares de malas ainda por entregar no aeroporto de Lisboa. Apagão afetou 70 mil passageiros, que se queixam de “desorganização”

Os constrangimentos verificados nos restantes aeroportos resultaram essencialmente dos voos divergidos que tinham Lisboa como destino.

O segundo maior aeroporto do país, no Porto, conseguiu manter numa fase inicial as condições de operação, mas sofreu constrangimentos devido aos voos que recebeu por terem sido desviados de Lisboa, num total de 11. No total, o Francisco Sá Carneiro teve 60 voos cancelados e 7.000 passageiros afetados. Faro manteve-se também operacional, tendo sido afetado por voos desviados, atrasados ou cancelados em resultado da suspensão da operação em Lisboa e Espanha, num total de 29. Cerca de 5,5 mil passageiros foram afetados.

Sem problemas de energia, os aeroportos da Madeira e Açores sofreram os efeitos dos voos cancelados e divergidos sobretudo em Lisboa.

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Maior impacto no controlo aéreo veio das comunicações

Na avaliação aos sistemas de redundância dos aeroportos, a ANAC conclui que “genericamente não foram observadas falhas nos sistemas identificados como essenciais” nem falhas nos sistemas secundários de energia associados a esses sistemas operados pela ANA. No que toca à prestação de serviços de navegação aérea (a cargo da NAV), “o impacto maior resultou da ausência de ligações com as diferentes estações, que deveriam ser assegurados pelos operadores de telecomunicações”.

A ANAC diz que as causas técnicas a que afetaram a operação da NAV começaram na falha de energia e que esta resultou na quebra das linhas de comunicação devido à interrupção dos serviços prestados pelos operadores. “Apesar da existência de redundâncias por via da contratação de serviços de telecomunicações a diversos operadores, houve uma falha alargada destes serviços.”

A ANAC recomenda a instalação mais geradores de emergência com critérios de autonomia mínima que permitam uma gestão de contingência e de operações críticas, bem como soluções alternativas que proporcionem independência energética. Os geradores de emergência devem cobrir o funcionamento de sistemas essenciais às operações críticas.

Já nas comunicações, o regulador defende que se deve ponderar a implementação “de sistemas de comunicação independentes dos operadores convencionais”, para além de soluções redundantes de comunicação. NAV e ANA são aconselhadas a rever os contratos com fornecedores de telecomunicações e energia no que toca aos níveis de serviço para assegurarem o nível de resiliência pretendidos.

Telecomunicações queixam-se de falta de informação durante apagão. Operadores não resistiram todos de igual forma

A dependência da eletricidade nos serviços de telecomunicações determinou o apagão que apanhou as comunicações. No relatório apresentado pela Anacom, regulador do setor, concluiu-se que nenhum dos serviços escapou aos impactos de não haver eletricidade, até porque os utilizadores também não tinham energia nos vários dispositivos. Aponta-se o dedo à inexistência de meios alternativos de comunicação.

“A falha prolongada de energia elétrica provocou um efeito em cascata com impacto direto na operação das redes de comunicações eletrónicas móveis e fixas, afetando quer o acesso aos serviços de emergência através de comunicações de emergência (112), quer as comunicações entre os serviços de emergência, as autoridades e os agentes de proteção civil”.

Os operadores fazem as suas críticas. No relatório da Anacom indica-se a “falta de informação fidedigna por parte das entidades relevantes no setor energético, bem como na comunicação com entidades atuantes”, a que acresceu a incerteza sobre a duração do apagão.

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▲ A procura de transmissores de rádio aumentou no dia do apagão.

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Além disso, e tal como já tinha sido noticiado, os operadores queixam-se ainda de não terem tido prioridade no abastecimento de combustíveis para alimentar geradores. “Todos os operadores deram nota das mesmas dificuldades, nomeadamente o muito difícil acesso aos pontos de abastecimento de combustível ou recusa/ falta de resposta aos pedidos de reabastecimento”, indica a Anacom.

E por isso é que numa das propostas se pediu que haja “reconhecimento legal das infraestruturas de comunicações eletrónicas como críticas, à semelhança do que ocorre noutros sectores de atividades”.

No caso das comunicações, a sua manutenção em operação dependia não apenas desses geradores alimentados a combustível, mas também — em particular no caso da alimentação elétrica das estações base (vulgo antenas) — de baterias já instaladas. A Anacom concluiu que a autonomia de energia elétrica foi limitada nas infraestruturas de comunicações eletrónicas. Nos serviços móveis, em particular, esses locais de antenas foram ao longo do dia perdendo a capacidade de energia (ao contrário da rede fixa). A Anacom, sem nomear operadores, indica que houve, de facto, “diferenças na capacidade de resiliência dos quatro operadores móveis existentes”.

As redes de comunicações móveis falharam. O que aconteceu e podia ser evitado?

Uma análise da Ookla tinha dado conta que “no auge das perturbações na rede, na noite de 28 de abril, mais de um em cada três utilizadores de redes móveis em Portugal ficou sem serviço”. Essa análise aponta o caso mais crítico como tendo sido o da Digi. “Os utilizadores móveis da rede Digi foram significativamente mais propensos a experienciar uma perda total de serviço. Com até 90% dos assinantes da Digi sem qualquer cobertura móvel durante mais de vinte e quatro horas”. A Meo, em contraponto, foi a rede móvel a demonstrar “uma resiliência significativamente maior”. Segundo a mesma entidade, dos três operadores históricos foi a Vodafone que teve um pico maior de desligamentos.

Ainda assim, a Anacom indica que os níveis de autonomia indicados pelos operadores estão em linha com os referidos em outros países. A bateria tem tipicamente autonomia para até duas horas, embora “um dos operadores” (que a Anacom não identifica) assumiu autonomias, em 60% das suas antenas, de cinco ou mais horas. Uma das medidas equacionadas é definir um tempo mínimo obrigatório para a autonomia das baterias.

Apagão. Anacom admite definir tempos mínimos para autonomia de antenas móveis e analisa eventuais processos de infração

Já em relação à rede fixa, não foram reportados congestionamentos, mas a maior parte dos utilizadores não conseguiu, em casa ou no trabalho, aceder à televisão, à internet ou ao telefone fixo porque estes requerem que os terminais também tenham eletricidade. Por isso concluiu-se que as redes fixas, “não reúnem as condições necessárias para que possam ser consideradas como alternativa”.

No relatório indica-se que essa foi uma das razões para o constrangimento que se assistiu no serviço de emergência 112, que “foi fortemente condicionado a partir das redes fixas, nomeadamente pela falta de acesso ao serviço telefónico resultante da falha energética nas instalações dos utilizadores, ainda que os elementos de rede dos operadores tenham permanecido operacionais”.

Já nos acessos ao 112 a partir da rede móvel continuou a existir encaminhamento de chamadas. “Conclui-se, assim, que durante o “apagão”, o acesso ao número de emergência 112 manteve-se em funcionamento nas situações em que, pelo menos, uma rede móvel estava disponível. Existem evidências de chamadas de emergência realizadas com recurso a redes móveis alternativas (que não correspondem à rede do serviço contratado)”. A maior parte destas conclusões, nomeadamente os contragimentos também nos avisos à população ou no roaming, já eram conhecidas, reforçando-se que “o serviço de radiodifusão sonora foi o meio de comunicação mais eficaz para manter a população informada”. 

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Sem greve na CP, apagão teria apanhado 71 comboios. 1900 pessoas retiradas dos metros

Todas as empresas de operação ferroviária e metros tiveram de evacuar passageiros por causa do apagão, mas a greve que paralisou praticamente toda a operação na CP evitou percalços mais graves para os utilizadores de transportes públicos. De acordo com o IMT (Instituto da Mobilidade e Transportes), “em circunstâncias normais, a CP teria, à hora do início do evento, 73 comboios em circulação, dos quais 11 de longo curso.

Comboios “deslizados” e metro sem backup no apagão. O dia em que uma greve da CP evitou o pior nos transportes

No total, ficaram mobilizadas 94 composições de comboio e metro, das quais 80 de metros e 13 na ferrovia. Neste setor, a Fertagus foi o único operador de passageiros afetado com sete comboios.

O maior impacto foi sentido nos metros onde ocorreram seis evacuações de composições paradas em túnel, quatro no Metro de Lisboa e duas no Metro do Porto. No total, 1.900 pessoas tiveram de ser retiradas (1.600 em Lisboa e 300 no Porto). Os sistemas de comunicações entre tripulações e centros de controlo funcionaram, bem como as luzes de emergência. Já a ventilação não esteve sempre disponível.

A circulação foi reposta de forma gradual em cada subestação da rede ferroviária. Já no caso dos sistemas de metro, a circulação só foi restabelecida no dia seguinte, e no caso do Metro de Lisboa, de forma faseada, linha a linha.

No transporte fluvial, as ligações foram asseguradas, mas sem cumprir horários. Três navios elétricos ficaram imobilizados e verificou-se o corte de energia aos terminais e estações, bem como aos equipamentos como bilheteiras. Os geradores ainda operaram três horas, mas não aguentaram o período do evento que na totalidade durou 11 horas. Não houve reabastecimento a geradores.

Na rodovia, os centros de controlo de tráfego mantiveram-se operacionais, mas com capacidade “consideravelmente afetada” devido a “significativas limitações em matéria de comunicações internas”, com exceção dos que operam sistemas de rádio privados. O patrulhamento e assistência rodoviária foi bastante afetado devido à falta de combustível. As estações de serviço das autoestradas aguentaram a duração do evento graças a equipamentos de redundância de abastecimento elétrico, mas começaram abastecer apenas veículos prioritário, mesmo antes do Governo ativar a rede de emergência às 20h30.

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