As balas de 140 caracteres do camarada Arnaldo Matos no Twitter contra o grande capital /premium

24 Agosto 2018477

Arnaldo Matos passou a sua atividade principal no último ano e meio do Ação Popular para o Twitter, onde atacava tudo e todos. Mesmo sem um cargo dirigente era a principal figura do PCTP/MRPP

Este artigo foi originalmente publicado em agosto de 2018 e atualizado a propósito da sua morte, a 22 de fevereiro de 2019. No último ano e meio de vida a principal atividade política de Arnaldo Matos passou pelo Twitter.

Os inflamados editoriais do Luta Popular Online — o órgão oficial do PCTP/MRPP — não desapareceram, mas, no último ano e meio, o fundador e principal figura do partido, Arnaldo Matos, tinha o Twitter como plataforma preferida de ação política na luta contra o “imperialismo do grande capital”. Mantinha os alvos de sempre, como o PS ou o PCP, e tinha outros de circunstância, como Ricardo Robles ou Daniel Oliveira. A “geringonça” é um “putedo”. O Bloco é um “putedo”. “Isto é tudo um putedo”, conclui.

Na sua escrita barroca, o muitas vezes referido como “grande educador da classe operária” preferia utilizar mais do que um apelido ou características dos seus opositores políticos, em vez do nome pelo qual são habitualmente referenciados. Daniel Oliveira, por exemplo, é referido como “o filho de Herberto Helder”, enquanto Álvaro Cunhal, por exemplo, é referido como “Barreirinhas Cunhal”, num uso do duplo apelido que pretende demonstrar que a figura maior do PCP não tem as suas origens numa família modesta. O Bloco de Esquerda é quase sempre referido como “o Bloco dito de Esquerda”.

O MRPP nunca conseguiu eleger deputados, mas foi nas legislativas de 1995, 1999, 2002, 2005, 2009 e 2011 a primeira força política sem representação parlamentar. À exceção de 1995, em que ficou mesmo em quinto lugar, à frente do PSR de Louçã, nas cinco legislativas seguintes ficou em sexto lugar, atrás das cinco maiores forças políticas: PS, PSD, CDS, CDU e BE. Em 2011, com Garcia Pereira como principal rosto, o MRPP conseguiu a sua melhor votação de sempre — 62.689 votos –, mas não foi suficiente para eleger qualquer deputado. Em 2015, caiu para oitava força política, atrás do PAN (que conseguiu representação parlamentar) e do PDR de Marinho e Pinto (que teve mais 1677 votos que o MRPP). Com Arnaldo Matos como principal rosto nas legislativas de 1976, 1979 e 1980 os resultados foram mais modestos, embora a votação tenha andado sempre os 35 mil e os 53 mil eleitores.

Arnaldo Matos foi um dos rostos da resistência estudantil contra o Estado Novo antes do 25 de Abril e uma figura relevante e carismática no período pós-revolucionário. Quando foi detido pelo COPCON de Otelo ganhou o epíteto de “grande educador da classe operária” e aumentou a aura de combatente na clandestinidade quando conseguiu escapar da prisão. A escritora Natália Correia definiu-o, um dia, assim: “Um romântico, um feiticeiro, com uma capacidade rara de seduzir, de hipnotizar (…) O nosso Rasputinezinho.”

Acusações de racismo por chamar “monhé” a António Costa

Uma das últimas polémicas de Arnaldo Matos no Twitter, aconteceu a propósito do polémico vídeo do ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, a felicitar a Grécia pela saída do programa de ajustamento. Para Arnaldo Matos, bastante crítico do executivo socialista, este é “um governo de Monhés”, já que “Cabrita vê no incêndio de Monchique uma vitória do governo. Costa vê uma mera excepção à excelente política do seu governo. Centeno vê na Grécia o fim da inteligente política da troika.” E conclui: É tudo “uma canalha de provocadores.”

Após ser alvo de várias acusações de racismo no Twitter, Arnaldo Matos organizou uma “resposta a críticos” em quatro pontos. Ou seja: em quatro tweets. No primeiro, insiste em dizer que “temos um governo dirigido por um monhé” e que “isso não tem nada de racismo”, já que “os americanos também estiveram dirigidos por um negro e não há racismo nessa classificação”. Esquece, porém, que “monhé” é um termo depreciativo usado por xenófobos e racistas.

Arnaldo Matos diz mesmo que “racista é “Costa achar, com Cabrita”, que o incêndio de Monchique foi uma “extraordinária vitória para o Governo”.

Noutro tweet, chama “palhaço” a Centeno e atira que “racista é o monhé” não ele, que é “comunista e marxista.”

Os “terroristas” da GNR e o caso do “padeiro de Marmelete”

Arnaldo Matos fez parte do coro de críticas à ação da GNR durante o grande incêndio de Monchique, nomeadamente à forma como os militares fizeram a evacuação das casas em algumas povoações na zona. O fundador do MRPP enalteceu os habitantes da freguesia de Marmelete (uma das três do concelho de Monchique) por não terem acatado as ordens dos agentes, a quem chamou de “terroristas”.

Arnaldo Matos acabou por adotar uma expressão popular no ataque à estrutura da Autoridade Nacional de Proteção Civil, a que chama de “Desprotecção Civil” e responsabiliza pela “morte de mais de uma centena de cidadãos” no ano passado.

Dias depois, Arnaldo Matos foi ouvir a população de Marmelete, que disse estar “furiosa com a incompetência e falta de respeito dos guardas da GNR em relação ao povo da aldeia”. A tentativa de evacuação terá sido por volta das 04h00. Mas o fundador do MRPP diz ter apurado, em contacto com a população, que “a evacuação da aldeia já estava decidida às 7 horas da tarde do dia anterior”. Isto porque, garantiu no Twitter, a “Desprotecção Nacional [leia-se Proteção Civil] avisou a essa hora o padeiro que abastece Marmelete de que não devia fabricar pão para a aldeia a distribuir no dia seguinte”.

Durante o feriado de 15 de agosto, Arnaldo Matos dirigiu-se ao Algarve para falar com as populações que resistiram à GNR, descrevendo a aldeia de Casais como “mártir dos fogos” e “mártir da GNR“. Escreveu até um tweet a partir do Café Canela, onde estava acompanhado de “Cidália”. Trata-se de Cidália Guerreiro, referenciada várias vezes por Arnaldo Matos como sendo dirigente do partido e uma das redatoras do Luta Popular.

Arnaldo Matos considera assim a “ação policial da GNR responsável pela destruição de centenas de casas, pela morte de milhares de animais e liquidação das lavouras“. E acrescentou: “Tudo o que se salvou em casas, animais e agricultura deve-se à luta do povo contra o incêndio e contra a GNR”

Fotografias da visita de Arnaldo Matos a Monchique. Fotografias: Twitter de Arnaldo Matos

Daniel Oliveira — um dos alvos preferidos de Arnaldo Matos e neste caso tratado como “jornalista de merda” — não ouviu várias farpas no dossier GNR. O fundador do MRPP lembrou que Daniel Oliveira integrou a Juventude Comunista Portuguesa, fazendo referência à “UEC [União de Estudantes Comunistas, de Barreirinhas Cunhal]”. Para Arnaldo Matos os bailes organizados por coletividades do Barreiro entre “meninas do PCP e guardas da GNR” estão na base desta defesa feita por Daniel Oliveira. E ainda há uma evocação a Catarina Eufémia, ceifeira assassinada a tiro pela GNR durante uma greve em 1954 e que se tornou símbolo da resistência alentejana ao regime de Salazar. “Ah, Catarina Eufémia! Tu nem imaginas o que são estes jornalistas de merda!“, escreveu.

O amor-ódio a Marcelo. Do “aguenta-te, porra” ao “fascista fura-greves”

Arnaldo Matos dá particular importância ao Presidente da República nos seus tweets, quase sempre para exigir que force a demissão de ministros ou para registar que Marcelo está a reagir a uma reivindicação sua ou do PCTP/MRPP. A propósito do incêndio de Monchique, Arnaldo Matos registou que Marcelo respondeu aos populares que “não é a ausência de vítimas mortais que traz consolo à população”. Para o histórico do MRPP, “Marcelo confirma assim com as suas palavras o que venho dizendo nos meus tuítes sobre as declarações idiotas de Costa e Cabrita”.

Mas Arnaldo Matos também envia, através do Twitter, mensagens positivos a adversários políticos. No dia 23 de junho, à saída de uma visita ao Santuário do Bom Jesus, em Braga, o Presidente da República desmaiou. No dia seguinte, quando Marcelo se encontrava em recuperação, Arnaldo Matos partilhou uma fotografia em que Marcelo aparece à sua direita: “Meu caro Marcelo. Saúde! Aguenta-te, porra! Arnaldo Matos”.

Pouco mais de um mês depois desta “força”, quando a discussão era as figuras que devem ter honras de Panteão Nacional, Arnaldo Matos voltou a ser implacável com Marcelo, de quem disse que “foi sempre conhecido como um fascista fura-greves“.

Contra Robles “continuar a mamar” e o fax enviado a Medina

O fundador do MRPP tomou o caso Robles como uma causa pessoal e, durante dias, atacou o vereador do Bloco de Esquerda na câmara municipal de Lisboa, que acabou por se demitir do cargo após a polémica com o facto de ser coproprietário de um prédio que tentou vender por mais de 5,7 milhões de euros depois de o ter comprado por 347 mil euros.

Num dos tweets, Arnaldo Matos questiona se “vão poder os vereador do PS e do BE continuar a mamar (…) 10 milhões de euros por mandato como o Robles”, mas, pelo meio, reforça as palavras: “Eu disse mamar”.

Das redes sociais, Arnaldo Matos decidiu avançar para o terreno, anunciando a 2 de agosto que no dia seguinte, às 9h00, estaria nos Paços do Concelho de Lisboa para pedir acesso ao processo de Ricardo Robles. E assim fez. Mas os serviços camarários não lhe entregaram o processo, tendo Arnaldo Matos acusado de imediato o presidente da autarquia, Fernando Medina, de cobardia.

Quando ainda estava nas instalações da Câmara, Arnaldo Matos acusou a autarquia de não lhe estar a facultar o processo — a que jornais como o Público e também o Observador já tinham tido acesso — para ganhar tempo “para limpar o processo das falcatruas que tenham entretanto sido praticadas”.

Perante essa recusa, Arnaldo Matos foi até ao Campo Grande, onde disse estar “escondido o processo”, para o tentar consultar nos serviços camarários que ali funcionam.

Nesse dia, em que não conseguiu consultar o processo, Arnaldo Matos revelou que tinha avisado Fernando Medina que estaria nos Paços do Concelho para consultar o processo com a sua “equipa de advogados e arquitetos”, acrescentando que o “desafio foi enviado ao presidente por faxe“.

O caso Robles foi mais uma forma de Arnaldo Matos atacar um dos seus ódios de estimação: o Bloco de Esquerda. O fundador do MRPP disse ter ficado naquele momento mais clara “qual é a verdadeira ideologia de Louçã, Rosas, Mário Tomé [fundadores do BE] e de toda a escumalha do Bloco”. Para Arnaldo Matos essa é “a ideologia dos especuladores imobiliários, dos reacionários sem escrúpulos, dos exploradores disfarçados de anarquistas, trotsquistas, albanistas e revisionistas.”

E, mais uma vez, utilizou uma das palavras que costuma utilizar para definir o Bloco: “Putedo”. No seu entender, o BE não é a ideologia que apregoa, mas sim um partido que está ao “assalto”.

Em paralelo com a “luta” no Twitter, Arnaldo Matos dedicou o último editorial do Luta Popular ao Caso Robles e atacou violentamente o Bloco de Esquerda. Lembrou quais as tendências que estiveram na origem do Bloco: “Quando se constituiu, o Bloco empreendeu uma amálgama de ideologias: trotsquista, à Louçã; revisionista, à Rosas; espinolista, à Mário Tomé e albanista, à UDP, entre outras.” Mas acrescentou — sempre visando a imprensa (que também tem uma extensa secção de tweets) — que o Bloco de Esquerda foi “levado ao colo para o poder por reacionários como Balsemão, no Expresso, e Belmiro de Azevedo, no Público.”

Para Arnaldo Matos, o Bloco “vive e sempre tem vivido do tacho e das papas do regime: mama o Robles em Lisboa, nas universidades mamam o Louçã e o Rosas, mama a Marisa em Bruxelas e em Estrasburgo, e mama a Catarina no Sabugal! Mamam todos e em toda a parte!…”

Os “sociais-fascistas” do partido do Barreirinhas Cunhal

Após o caso Robles, o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, não quis fazer um aproveitamento político do caso e — após ser questionado pelos jornalistas — explicou que tem a “tranquilidade imensa de continuar a fazer política” como aprendeu. Para Arnaldo Matos, Jerónimo de Sousa só não atacou o Bloco de Esquerda porque houve vários autarcas do PCP envolvidos em casos de corrupção. Num segundo tweet, fez questão mesmo de nomear esses autarcas.

Depois de terem ardido barracas no Município de Loures onde viviam 14 pessoas, Arnaldo Matos denunciou que “mulheres e crianças” ficaram “sem lugar para dormir” numa autarquia dirigida pelo PCP. A “câmara de Bernardino [Soares]”, acusou, “nada fez pelos pobres que ficaram sem casa”. E concluiu: “Uns gatunos, estes social-fascistas do PCP”.

Arnaldo de Matos refere-se sempre ao PCP como os “social-fascistas” do “partido do Barreirinhas Cunhal”. Aliás, Cunhal é constantemente alvo de ataques. Perto do 25 de Abril, Arnaldo Matos lembrou o falhanço do PCP no 25 de Novembro de 1975. Arnaldo Matos, na sua versão da História, conta que “a tentativa do PCP falhou, e Cunhal, com o rabo entre as pernas, refugiou-se na embaixada da Checoslováquia, em Lisboa, donde foi resgatado por Melo Antunes e alguns dos seus amigos do Grupo dos Nove”. E acrescentou: “Foram eles que salvaram Cunhal de um julgamento popular”. Julgamento esse que foi exigido, na altura, no Luta Popular do MRPP.

Nem a Cuba de Fidel (e também de Raul e Díaz-Canel) escapa às balas de tweet de Arnaldo Matos. A propósito das mudanças na Constituição cubana, Arnaldo Matos ataca o “social-fascismo fidelista”, dizendo que está a regressar ao “capitalismo baptistiano” (do antigo ditador Fulgêncio Baptista). Para o fundador do MRPP, “o fidelismo nunca foi marxista nem leninista.

Ribeiro dos Santos no Panteão, Cunhal não

No final de julho discutiu-se a hipótese de tanto Mário Soares como Sá Carneiro serem trasladados para o Panteão Nacional. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que lhe parecia “justíssimo” que ambos tivessem honras de Panteão Nacional. Alguns membros do PCP defenderam, prontamente, que também Álvaro Cunhal deveria ser incluído nessa lista. Arnaldo Matos acusou prontamente “os social-fascistas do PCP” de deixarem saltar “como quem não quer a coisa” o “nome de Cunhal para a ribalta”. Ora, para o “grande educador da classe operária”, “Cunhal , não! Cunhal, nunca!” E acrescentou: “Não julguem que é por ter sido um comunista, mas precisamente porque nunca o foi“.

Para Arnaldo Matos, Cunhal foi “unicamente um social-fascista, revisionista da doutrina de Marx e de Engels, e é justamente por isso que não há lugar para ele em Santa Engrácia”.

O fundador do MRPP defende que “há que discutir e definir os critérios a que deve obedecer a escolha das figuras” que vão para o Panteão Nacional. Essas honras, segundo Arnaldo Matos, devem ser restritas aos “grandes homens e mulheres da cultura, da ciência, da literatura, da arte, da solidariedade e do heroísmo nacional.

O “grande educador da classe operária” defende que, pelo heroísmo na luta contra o Estado Novo, Ribeiro dos Santos deveria ser trasladado para o Panteão Nacional. Opositor do regime, José António Ribeiro dos Santos foi morto a tiro por um agente da PIDE durante um “meeting contra a repressão” marcado para o ISCEF. O assassinato do jovem do MRPP (então na clandestinidade) foi um marco na luta estudantil contra a ditadura.

Arnaldo Matos exigiu também ao Presidente da República que se pronuncie sobre uma eventual ida de Ribeiro dos Santos para o Panteão, como fez com Mário Soares e Sá Carneiro. Antes disso, Arnaldo Matos já tinha desferido ataques a Marcelo Rebelo de Sousa, questionando se o “Panteão é só para os amigos” do Presidente da República. Um minuto antes, também num tweet, o fundador do MRPP começou por lembrar que “Marcelo e Ribeiro Santos chegaram a ser colegas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa”. Mas rapidamente traçou aquela que diz ser a diferença entre ambos. Para Arnaldo Matos, “Marcelo foi sempre conhecido como um fascista fura-greves”, enquanto Ribeiro Santos foi “um destemido combatente comunista anti-fascista.”

Um pedido a Marcelo: demita-nos este Governo de incompetentes

Arnaldo Matos tem sido muito crítico da chamada “geringonça” e também através do Twitter, em maio, pediu a Marcelo Rebelo de Sousa que demitisse o Governo: “Presidente: Demita-nos este Governo de irresponsáveis e incompetentes!” Os incêndios florestais têm estado na base da maior parte dos ataques do fundador do MRPP ao Governo.

Arnaldo Matos não tem problemas em considerar que António Costa tem a “responsabilidade política e criminal de mais de uma centena de mortos por incêndios florestais”.

Quando ocorreu o grande incêndio de Monchique, Arnaldo Matos voltou à carga e chamou a António Costa “analfabeto” e “uma grande besta” por ter dito que “Monchique foi a exceção que confirmou o sucesso da operação de combate aos incêndios”. Disse ainda que “o Governo falhou em toda a linha” no combate aos incêndios.

“Abaixo o Centeno. Pum!”

Os ministros do Governo de António Costa também não são poupados. O ministro das Finanças, Mário Centeno, e o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, foram particularmente atacados por haver crianças que fazem quimioterapia nos corredores do Hospital de São João, no Porto.

Sobre Mário Centeno, Arnaldo Matos considerou a cativação orçamental “repugnante” e acrescentou mesmo um “Abaixo o Centeno, Pum!”.

Arnaldo Matos chamou ainda “charlatão” a Mário Centeno e “aldabrão” ao ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. O fundador do MRPP também tem pedido, com insistência, a demissão do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, na sequência do roubo de armamento de Tancos.

O “putedo” no Sporting e a defesa do cidadão Bruno de Carvalho

Durante a crise no Sporting, Arnaldo Matos saiu em defesa de Bruno de Carvalho. O fundador do MRPP acusou a comunicação social portuguesa de estar dois meses a “insultar” um cidadão português “casado, pai de filhos e presidente do Sporting”. Segundo Arnaldo Matos, “a matilha de jornalistas que o insultou em toda a parte nunca lhe deu, voluntariamente, a possibilidade de se defender” dos ataques “sem fundamento e inventados.

No dia da Assembleia Geral do Sporting de 23 de junho, que destituiu Bruno de Carvalho, Arnaldo Matos descreveu a reunião magna dos sportinguistas como o dia em que José Maria Ricciardi e Álvaro Sobrinho passavam a mandar no clube.

Aproveitou também para acusar o seu antigo delfim e agora arqui-inimigo Garcia Pereira, de quem se afastou nos últimos anos.

Arnaldo Matos lembrou que Garcia Pereira e a filha choraram “baba e ranho” na “imprensa da parvónia” por terem sido suspensos do MRPP e que agora estavam por detrás da suspensão da direção de Bruno de Carvalho no Sporting.

“Garcia e filhota”, como são descritos por Arnaldo Matos, estavam assim “ao serviço da extrema-direita portuguesa” dos “nojosos lacaios” Álvaro Sobrinho e José Maria Ricciardi.

O fundador do MRPP acusava ainda Garcia Pereira de ser o autor das rescisões por justa causa e de se ter servido dos jogadores de futebol para “promover a rescisão dos seus contratos, de modo a beneficiar os grandes acionistas privados”. Ou seja: “Serviu-se de um direito dos trabalhadores desportivos para beneficiar o capital dos grandes capitalistas desportivos.”

E, concluiu, sobre Garcia Pereira e os acionistas do Sporting: “Digam-me lá, por favor, se toda aquela canalha é ou não toda um putedo ?!”

Eutanásia, Sócrates e Obama

Arnaldo Matos congratulou-se com a vitória do “não” à legalização da eutanásia na votação no Parlamento que ocorreu no final de maio. Para o fundador do MRPP, “desta vez o Estado não adquiriu o direito de poder matar impunemente os velhos, os doentes e os incuráveis.”

Quando o antigo presidente dos EUA, Barack Obama veio ao Porto dar uma conferência, Arnaldo Matos deixou-lhe duras críticas no Twitter. Definiu o momento como o “ex-chefe do imperialismo americano” a falar para “representantes do imperialismo ibérico”. E deixou mesmo um tweet bastante clarificador do que pensa sobre o antigo presidente norte-americano: “Rua com Barack Obama!”

Paralelamente, Arnaldo Matos ensaiou um elogio a Donald Trump, que, no seu entender, “demonstrou que obteve sozinho melhores resultados em matéria de desnuclearização na Coreia do que Obama e seus aliados nas negociações com o Irão.”

Outra das bandeiras de Arnaldo Matos foi pelo fim imediato de todas as acusações judiciais que recaem sobre José Sócrates. O fundador do MRPP considera que, tendo em conta a “absoluta e total iniquidade do processo penal”, que acabou “julgado na praça pública”, o processo do Ministério Público “deve ser considerado nulo e de nenhum efeito.”

Arnaldo Matos lembrou, a 4 de maio, que Sócrates tem “de ser tido como inocente” num processo que não é equitativo. Aproveitou ainda para atacar António Costa e o PS pela falta de solidariedade com o anterior líder. Por isso, não tem dúvidas: “António Costa é um cobarde! E quem o afirma e assina é um inimigo político de Sócrates, chamado Arnaldo Matos!”.

O que ele andou para aqui chegar

Arnaldo Matos foi dirigente do PCTP/MRPP (Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletário) entre 1970 e 1982, ano em que se desvincula do partido. Dos quatro fundadores, é o único que continua atualmente ligado ao partido, que teve 1,11% nas últimas legislativas.

Em 1967, venceu as eleições para a Associação Académica da Faculdade de Direito e fez parte do movimento estudantil de oposição ao regime. A 28 de maio de 1975 o MRPP é ilegalizado e Arnaldo Matos é preso em Caxias em conjunto com 400 militantes do partido, pelo então todo-poderoso COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho. Lembrou recentemente, aquando da morte de António Arnaut, que o pai do Serviço Nacional de Saúde foi o único que defendeu na Assembleia Constituinte a “libertação imediata do amigo Arnaldo Matos”.

Após a prisão, Arnaldo Matos é transferido para o Hospital Militar Principal, na Estrela, e consegue escapar, passando à clandestinidade. Antes disso, houve manifestações no Rossio a exigir a libertação do “camarada Arnaldo Matos”, que os militantes do MRPP consideravam o “grande educador da classe operária”. Na clandestinidade, chegou a ser entrevistado pelo jornalista Rui Pimenta, numa entrevista publicada no semanário O Jornal. Entretanto, o COPCON começou a libertar os militantes detidos.

Arnaldo Matos foi o principal rosto da candidatura do MRPP a legislativas em 1976, 1979 em 1980, não conseguindo representação parlamentar.

Em 1982, Arnaldo Matos abandonou o MRPP, uma vez que considerou que “a contrarevolução tinha ganho”, como explicou em 2004 ao Diário de Notícias. Apesar disso, continuou a ter influência no partido, facilitada pela relação que tinha com o principal rosto e dirigente do PCTP/MRPP, Garcia Pereira. Manteve assim sempre a ligação ao MRPP, mesmo sem ter nenhum cargo dirigente no Comité Central do partido. Em 2015, zangou-se com Garcia Pereira e a prova como tem o controlo total do partido é que o conflito acabou com a saída de Garcia Pereira.

A resposta de Garcia Pereira tardou, mas em 2017 acabaria por expor as razões da sua saída e tornou públicas algumas mordomias de Arnaldo Matos, desde a oferta de um par de sapatos até aos Mercedes que terá alugado para Arnaldo Matos ir ao teatro.

Com a saída de Garcia Pereira, Arnaldo Matos tornou-se no único rosto do PCTP/MRPP. E continuou com as suas opiniões polémicas nos editoriais e outros textos publicados no Luta Popular Online. Além de Arnaldo Matos, o fundador assina também textos com os nomes “Espártaco” e “Viriato”.

Foi no Luta Popular que defendeu a legitimidade de atentados terroristas. Primeiro, após os atentados em Paris no Bataclan e no Stade de France, que foram considerados por Arnaldo Matos como “um ato legítimo de guerra”, que, no seu entender, “não foi cometido por islamitas, mas sim por jiadistas, isto é, combatentes dos povos explorados e oprimidos pelo imperialismo, nomeadamente francês”.

Quando houve os atentados de Londres em junho de 2017, Arnaldo Matos voltou a defender a legitimidade do atentado, já que são válidos “todos os meios para destruir o imperialismo nos covis das suas capitais.”

Já em 2018, Arnaldo Matos foi notícia por, através do Twittter, apelar à luta armada, registando momentos mais tarde que este era até então o mais “retweetado” e “comentado” desde que tinha iniciado a sua conta no Twitter. O fundador do MRPP pediu que as operárias e os operários se organizassem e lutassem “contra esta exploração capitalista”.

Texto de Rui Pedro Antunes, ilustração de Raquel Martins.

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