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Obituário

Da zona Ho Chi Minh ao Twitter. Os 79 anos de luta de Arnaldo Matos, o “grande educador da classe operária”

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Aquele que Natália Correia definiu um dia como "o grande educador da classe operária" morreu a dois dias de completar 80 anos. Manteve luta contra o grande capital até ao fim, via Twitter.

Arnaldo Matos morreu aos 79 anos

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Arnaldo Matos saiu ainda jovem da sua terra, Santa Cruz, na Madeira, para estudar Direito em Coimbra. Teve de interromper o curso por força do serviço militar obrigatório, que cumpriu em Moçambique e Macau, onde se começou a despertar a sua paixão pelo maoísmo. Daí a ser o fundador do MRPP e a pertencer ao famoso “Comité Lenine” foi um pulo. Fez-se homem a combater o Estado Novo e manteve-se “na luta” até ao dia da sua morte, acabando por privilegiar o Twitter como principal arma da defesa do proletariado contra o grande capital. Arnaldo Matos morreu esta sexta-feira, a dois dias de completar 80 anos. Por ironia, o último tweet que publicou foi sobre a morte do marinheiro protagonista do beijo que simbolizou o fim da II Guerra Mundial, mas também o início da grande vitória do capitalismo sobre o resto dos sistemas.

Defensor de uma sociedade sem classes, Arnaldo Matos tinha recentemente virado uma espécie de alvo de chacota da elite intelectual e alvo de vários ataques no Twitter, quer à esquerda, quer à direita. Fez por isso. Quer através das várias polémicas que foi alimentando no Luta Popular Online, quer através da conta nessa rede social. Era a sua companheira de sempre, Cidália, que lhe escrevia os tweets, que previamente escrevia a papel e caneta. Foi-se adaptando aos tempos: no final de 2017, participou no último programa do Governo Sombra.

Nesta fase final da sua vida, longe iam os tempos em que enchia salas e era aclamado como “grande educador da classe operária“, epíteto que lhe foi atribuído por Natália Correia. Apesar disso, aos 79 anos, mesmo não tendo um cargo que o ligasse formalmente ao partido, Arnaldo Matos era a principal figura do MRPP.

O membro do Comité Lenine e a alocução na zona Ho Chi Minh

Depois de contactar com as obras de Mao em Macau, Arnaldo Matos regressou a Portugal em 1965 para ingressar na Faculdade Direito, desta vez na Universidade de Lisboa. Na FDUL depressa se envolve na vida política estudantil, primeiro contra o regime de Salazar, depois contra o regime de Marcello Caetano. Goza de grande popularidade junto dos outros estudantes e, em 1967/1968, vence mesmo as eleições para a Associação Académica da Faculdade de Direito. Desiludido com o “revisionismo do PCP”, Arnaldo Matos é um dos ativistas que participa na constituição da EDE (Esquerda Democrática Estudantil), um movimento que tem um papel de destaque na crise estudantil de 1969/1970. Havia uma ideia que unia os ativistas da EDE: a oposição ao fascismo.

Por esta altura Arnaldo Matos conhece outros estudantes desiludidos com o PCP, como é o caso de Fernando Rosas. Juntos participam no Movimento da Juventude, a juventude da CDE (Comissão Democrática Eleitoral) que enfrentou a União Nacional nas eleições 1969. Mas “primavera Marcelista” — como ficou conhecido o período de alegada maior abertura democrática do regime — não teve efeitos práticos. Era hora de intensificar a luta e criar um partido. Na casa de Filipe Rosa, na Estrada do Poço do Chão, na zona de Benfica, em Lisboa, nasce o MRPP a 18 de setembro de 1970.

Todos queriam que o partido tivesse comunista no nome. Todos, menos Arnaldo Matos, que conseguiu convencer os outros três fundadores (Fernando Rosas, João Machado e Vidaul Ferreira). Ficou assim a chamar-se Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado. Arnaldo Matos é um dos membros do Comité Central, a que o partido chama “Comité Lenine”, e torna-se num dos pensadores do MRPP. Na propaganda do partido são distribuídos anos mais tarde panfletos com as frases de Arnaldo Matos como a que fez numa alocução na I Reunião Plenária da Zona Ho Chi Minh (Baixo Ribatejo):

O movimento camponês é como um rio que precisa de duma saída para o mar para a tomada do poder.”

Quando se começa a organizar em estruturas MRPP divide o país em zonas a que dá nomes do comunismo. Como consta da tese “Margem de Certa Maneira: O maoísmo em Portugal: 1964-1974”, o país era dividido da seguinte forma: “A margem sul, de Almada ao Montijo, será a Zona Mao Tsé-Tung; a área de Vila Franca de Xira e Alverca será a Zona Estaline e Lisboa ficará com o epíteto de Zona Karl Marx. Mais tarde a área do Baixo Ribatejo (Alenquer, Carregado) será designada como Zona Ho Chi Minh e a Região da Beira Litoral (Leiria e Coimbra) como Zona Engels”.

Durante o Estado Novo o MRPP atuou sempre, como é natural, na clandestinidade. Dois anos depois do partido ser formado, Ribeiro dos Santos, militante do MRPP, é assassinado pela PIDE numa altura em que estava prestes a começar um “meeting contra a repressão” nas Económicas (o ISCEF, o atual ISEG). Ribeiro dos Santos torna-se símbolo do movimento estudantil contra o Estado Novo.

O MRPP ajuda a debilitar o regime e dá-se o 25 de abril de 1974. O partido resiste a elogiar o movimento dos capitães, embora centre as críticas das primeiras reações a Spínola e a “Barreirinhas Cunhal”. Dias depois, no início de maio, o MRPP mobiliza-se para tentar impedir o embarque de tropas para África e ainda consegue atrasar a partida em um dia. Uma das bandeiras do partido foi sempre acabar com a guerra colonial.

Em 1975, o partido entra em guerrilha interna entre os militantes da “linha negra”, chefiada por Saldanha Sanches, e os militantes da “linha vermelha”, liderada por Arnaldo Matos. Saldanha Sanches acaba por sair do partido e com duras críticas a Arnaldo Matos.

A 28 de maio de 1975 o MRPP é ilegalizado e Arnaldo Matos é preso em Caxias em conjunto com 400 militantes do partido, pelo então todo-poderoso COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho. Arnaldo Matos lembru recentemente, aquando da morte de António Arnaut, que o pai do Serviço Nacional de Saúde foi o único que defendeu na Assembleia Constituinte a “libertação imediata do amigo Arnaldo Matos”.

Após a prisão, Arnaldo Matos é transferido para o Hospital Militar Principal, na Estrela, e consegue escapar, passando à clandestinidade. Antes disso, houve manifestações no Rossio a exigir a libertação do “camarada Arnaldo Matos”, que os militantes do MRPP consideravam o “grande educador da classe operária”. Na “clandestinidade”, chegou a ser entrevistado pelo jornalista Rui Pimenta, numa entrevista publicada no semanário O Jornal. Entretanto, o COPCON começou a libertar os militantes detidos.

Desde essa altura, Arnaldo Matos foi o candidato a primeiro-ministro do MRPP a legislativas em 1976, 1979 em 1980, não conseguindo representação parlamentar. O MRPP torna-se nesta altura um partido muito centrado em Arnaldo Matos. No livro Grandes Chefes da História de Portugal, o autor considera que “a forma como o MRPP tratou Arnaldo Matos neste período também pode ser visto como uma forma de ‘culto da personalidade‘”.

A saída do MRPP devido à vitória da “contrarevolução”

Em 1982, Arnaldo Matos abandonou o MRPP, uma vez que considerou que “a contrarevolução tinha ganho”, como explicou em 2004 ao Diário de Notícias. Apesar disso, continuou a ter influência no partido, facilitada pela relação que tinha com o principal rosto e dirigente do PCTP/MRPP, Garcia Pereira. Manteve assim sempre a ligação ao MRPP, mesmo sem ter nenhum cargo dirigente no Comité Central do partido. Foi ele sempre quem mandou no partido. Em 2015, zangou-se com Garcia Pereira e a prova como tem o controlo total do partido é que o conflito acabou com a saída de Garcia Pereira.

A resposta de Garcia Pereira tardou, mas em 2017 acabaria por expor as razões da sua saída e tornou públicas algumas mordomias de Arnaldo Matos, desde a oferta de um par de sapatos até aos Mercedes que terá alugado para Arnaldo Matos ir ao teatro.

Com a saída de Garcia Pereira, Arnaldo Matos tornou-se no único rosto do PCTP/MRPP. E continuou com as suas opiniões polémicas nos editoriais e outros textos publicados no Luta Popular Online. Além de Arnaldo Matos, o fundador assinava também textos com os nomes “Espártaco” e “Viriato”.

Foi no Luta Popular que defendeu a legitimidade de atentados terroristas. Primeiro, após os atentados em Paris no Bataclan e no Stade de France, que foram considerados por Arnaldo Matos como “um ato legítimo de guerra”, que, no seu entender, “não foi cometido por islamitas, mas sim por jiadistas, isto é, combatentes dos povos explorados e oprimidos pelo imperialismo, nomeadamente francês”.

Quando aconteceram os atentados de Londres em junho de 2017, Arnaldo Matos voltou a defender a legitimidade do atentado, já que são válidos “todos os meios para destruir o imperialismo nos covis das suas capitais.”

Já em 2018, Arnaldo Matos foi notícia por, através do Twittter, apelar à luta armada, registando momentos mais tarde que este era até então o mais “retweetado” e “comentado” desde que tinha iniciado a sua conta no Twitter. O fundador do MRPP pediu que as operárias e os operários se organizassem e lutassem “contra esta exploração capitalista”.

No último ano e meio a maior parte da atividade política de Arnaldo Matos passava pelo Twitter, onde alimentou várias polémicas.

O partido, através da Comissão de Imprensa, já manifestou uma “profunda tristeza e um enorme vazio” pela morte do “querido camarada Arnaldo Mato”. O PCTP/MRPP descreve Arnaldo Matos como “um incansável combatente marxista que dedicou toda a sua vida ao serviço da classe operária e a lutar pela revolução comunista e por uma sociedade sem classes”.

Na mesma nota, o PCTP/MRPP escreve que “a sua obra e o seu exemplo de grande e intrépido dirigente comunista que foi perdurarão para sempre na memória dos operários e dos trabalhadores portugueses e constituirão um guia na luta do proletariado revolucionário e dos comunistas pelo derrube do capitalismo e do imperialismo e pela instauração do modo de produção comunista e de uma sociedade de iguais.”

Os inflamados editoriais do Luta Popular Online — o órgão oficial do PCTP/MRPP — não desapareceram, mas, no último ano e meio, o fundador e principal figura do partido, Arnaldo Matos, tinha o Twitter como plataforma preferida de ação política na luta contra o “imperialismo do grande capital”. Mantinha os alvos de sempre, como o PS ou o PCP, e tinha outros de circunstância, como Ricardo Robles ou Daniel Oliveira. A “geringonça” é um “putedo”. O Bloco é um “putedo”. “Isto é tudo um putedo”, conclui.

Na sua escrita barroca, o muitas vezes referido como “grande educador da classe operária” preferia utilizar mais do que um apelido ou características dos seus opositores políticos, em vez do nome pelo qual são habitualmente referenciados. Daniel Oliveira, por exemplo, é referido como “o filho de Herberto Helder”, enquanto Álvaro Cunhal, por exemplo, é referido como “Barreirinhas Cunhal”, num uso do duplo apelido que pretende demonstrar que a figura maior do PCP não tem as suas origens numa família modesta. O Bloco de Esquerda é quase sempre referido como “o Bloco dito de Esquerda”.

O MRPP nunca conseguiu eleger deputados, mas foi nas legislativas de 1995, 1999, 2002, 2005, 2009 e 2011 a primeira força política sem representação parlamentar. À exceção de 1995, em que ficou mesmo em quinto lugar, à frente do PSR de Louçã, nas cinco legislativas seguintes ficou em sexto lugar, atrás das cinco maiores forças políticas: PS, PSD, CDS, CDU e BE. Em 2011, com Garcia Pereira como principal rosto, o MRPP conseguiu a sua melhor votação de sempre — 62.689 votos –, mas não foi suficiente para eleger qualquer deputado. Em 2015, caiu para oitava força política, atrás do PAN (que conseguiu representação parlamentar) e do PDR de Marinho e Pinto (que teve mais 1677 votos que o MRPP). Com Arnaldo Matos como principal rosto nas legislativas de 1976, 1979 e 1980 os resultados foram mais modestos, embora a votação tenha andado sempre os 35 mil e os 53 mil eleitores.

Dos quatro fundadores, Arnaldo Matos era o único que continuava atualmente ligado ao partido, que teve 1,11% nas últimas legislativas. A escritora Natália Correia definiu-o, um dia, assim: “Um romântico, um feiticeiro, com uma capacidade rara de seduzir, de hipnotizar (…) O nosso Rasputinezinho.”

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