Seguimos neste artigo o debate ao minuto
Três momentos mais quentes, com despiques entre candidatos. Unanimidade em duas respostas — maçonaria e mandatos presidenciais — e divisão total noutros dois temas: representantes da República nas ilhas e a relação com os EUA, incluindo a Base das Lajes. Este é o resumo possível do debate das rádios (Rádio Observador, Rádio Renascença, TSF e Antena 1), o único a juntar os oito candidatos que estiveram nos 28 frente a frente: André Ventura, António José Seguro, António Filipe, Catarina Martins, Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo, Jorge Pinto e Marques Mendes.
Dissolver a Assembleia por chumbo do Orçamento não é solução para nenhum candidato, todos defendem a estabilidade e rejeitam o uso do Orçamento como chantagem política. O tema abriu o debate e acabou numa crítica a Marcelo. Cotrim foi o menos taxativo; Jorge Pinto considerou muito negativo decidir já; Marques Mendes defendeu uma avaliação “caso a caso”, apostando na negociação presidencial.
Na Justiça, e em casos como o Influencer, que envolveu António Costa e levou à queda do Governo, Gouveia e Melo foi o mais duro: “Há uma conversa redonda e ninguém faz nada.” Os restantes criticaram o Ministério Público e defenderam escrutínio institucional. Falou-se dos Conselhos Superiores e Ventura insistiu na necessidade de explicações em casos de corrupção com figuras de topo. Ideia comum: “Ninguém está acima do escrutínio.”
O envio de tropas para a Ucrânia dividiu posições: “Evitar ao máximo” (Ventura), “consenso alargado” (Seguro), “cenário perigosíssimo” (Gouveia e Melo), “inconstitucional” (António Filipe), “é preciso saber que paz vai ser” (Catarina Martins), contra de Jorge Pinto e a favor de Cotrim, que falou em “interesse vital português” para travar “ambições imperialistas”.
Entre os temas que os dividiram por completo estiveram as relações com os EUA de Trump — Base das Lajes incluída — e o representante da República nas regiões autónomas, modelo que Gouveia e Melo classificou como “quase colonial”. Já no que os uniu, todos negaram pertencer à maçonaria ou a organizações secretas (Gouveia e Melo já o tinha dito, mas apontara a outro candidato e Cotrim ironizou: “Deve ser o Manuel João Vieira”) e rejeitaram a limitação a um só mandato presidencial.
As desistências à esquerda foram um dos temas mais polémicos, lançado por Cotrim: “Dos oito candidatos, só cinco chegam à segunda volta.” Jorge Pinto disse que desistir “não é tema”, Catarina Martins pediu calma porque “as pessoas ainda não votaram” e António Filipe foi claro: “Não.” Cotrim provocou ainda: “André Ventura não quer ser Presidente da República.”
Na lei do lóbi, Marques Mendes alertou que “devassa, insinuação e suspeita” estão a degradar a democracia “nesta campanha”. Gouveia e Melo respondeu sem ataque pessoal, defendendo a criminalização do enriquecimento ilícito e apontando “a opacidade nos interesses”. O tema levou a um despique entre Catarina Martins e André Ventura: ela acusou o Chega de financiamento por privados ligados à privatização da TAP; Ventura respondeu que “o Chega não foi financiado a vender imóveis nem a despedir grávidas”, acusando o BE de ter “um saco de casos” maior.
Nos conflitos de interesses, Marques Mendes (em resposta ao almirante) garantiu ter recusado convites para cargos no Estado e no privado e negou qualquer opacidade. Gouveia e Melo disse que o tráfico de influências não devia existir; Ventura afirmou nunca ter rejeitado negócios, mas recusou reuniões no Parlamento com o Benfica, o seu clube; Seguro revelou ter recusado o convite de uma empresa para ir ver um jogo de futebol; Catarina Martins disse ter rejeitado reuniões com Estados que violam direitos humanos.
O almoço entre Gouveia e Melo e Ventura surgiu então numa provocação de Seguro. O almirante reiterou que foi “privado, não secreto” e serviu para conhecer “atores políticos”. Ventura desafiou Seguro a dizer que nunca se encontrou com ele, garantindo ter datas, local e testemunhas; Seguro insistiu que é mentira.
Unanimidade final: nenhum candidato teve humor para as perguntas rápidas.
No final, segundo os avaliadores do Observador, Cotrim Figueiredo venceu (13,50), seguido de Ventura e Marques Mendes (12).
Segue-se o último debate, entre os 11 candidatos validados pela CNE, na RTP, dia 6. E pode recordar os 28 frente a frente nos links no fundo deste este artigo. O painel de avaliadores do Observador que deu notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos debates e o avaliou em texto (como pode recordar no final deste artigo) permitiu construir um gráfico final com a média de cada um dos candidatos.
Debate a 8 nas rádios
Ana Sanlez — A diferença que um debate na rádio faz. Não só duas horas é tempo mais do que suficiente para clarificar o que até aqui ainda poderia estar nublado sobre o pensamento dos candidatos como também os temas escolhidos não deram margem a que isso não acontecesse. Para aí vai a primeira nota positiva: foi um debate bem conduzido e com questões sobre as quais interessa saber o que pensa um potencial Presidente da República, porque efetivamente vai ter uma palavra a dizer sobre elas. E há quem tenha aproveitado melhor a oportunidade. Para Gouveia e Melo, a rádio não é definitivamente o formato que mais o favorece. Demasiadas pausas e hesitações, o que para quem está a ouvir pode dar a sensação de que ficou sem sinal. Conseguiu destacar-se e ser assertivo, ainda assim, nas questões militares, sobre o envio de tropas para a Ucrânia e a base das Lajes, mas o que seria se assim não fosse. Para Marques Mendes a rádio não é um problema, seria igual se estivesse na tv, porque trata cada intervenção como se fosse o espaço de comentário que manteve durante dez anos. Quem fizesse um daqueles clássicos “drinking games” sempre que Marques Mendes começava uma resposta a dizer que ia enumerar x pontos teria terminado o debate em mau estado. Mostrou-se inseguro em alguns momentos, a acusar talvez a pressão das últimas semanas sobre a sua vida profissional.
Também sem surpresa André Ventura protagonizou os momentos mais ruidosos do debate. O bate boca com Seguro sobre a reunião que ambos terão ou não tido foi um daqueles pontos altos em volume mas baixos em substância. Fez o mesmo com Catarina Martins sem grande sucesso. No final, quando falou em instaurar um dia do orgulho nacional, ouviu-se um suspiro exasperado de fundo, que pode ter saído de qualquer um dos candidatos. Pelo menos ajudou a esclarecer se os candidatos à esquerda vão ou não desistir a favor de Seguro. Seguro que teve duas horas para aquecer e manteve sempre a temperatura nos 20º (exceto nos 15 segundos de picardia com Ventura).
Catarina Martins esteve firme e respondeu com clareza a quase tudo, mas foi pena a falta de sentido de humor demonstrada mesmo no final, com a pergunta rápida sobre o monólogo. Claro que há questões mais importantes, mas ninguém se chateia se um candidato fizer uma piada de vez em quando. No ramalhete da esquerda, Jorge Pinto conseguiu ser mais convincente nas ideias do que António Filipe, nomeadamente em temas como a justiça ou a defesa da Europa, o que também não surpreende quem viu os restantes debates. Cotrim de Figueiredo não foi propriamente o vencedor do debate nem o dominou, mas foi eficaz em cada resposta, com respostas diretas e sem floreados. Que é o que se quer nestes formatos.
Judite França — Como seria de esperar, o debate das rádios é sempre mais substantivo do que os debates a dois. O formato frente a frente transforma a discussão em momentos exaltados e em que dificilmente se discutem questões de fundo.
No debate das rádios, pelo contrário, todos os candidatos tiveram de dizer claramente o que pensam sobre variados assuntos. E foram muitos: desde a governabilidade e em que circunstância o Presidente da República deve dissolver a Assembleia da República à situação em que enviariam tropas para a Ucrânia. Pelo meio, ainda ficámos a saber que os candidatos da esquerda não vão desistir a favor de António José Seguro. Com uma pequena subtileza: Jorge Pinto nunca foi capaz de dizer taxativamente que não desiste, preferindo proclamar que será melhor candidato que os restantes.
O facto de estarem oito candidatos em cena torna, por seu turno, mais difícil escrutinar quem se saiu melhor. Mas podemos saber quem precisava mais de sobressair e não o fez. Luís Marques Mendes parece ainda abalado pelas críticas e insinuações de que tem sido alvo sobretudo por Henrique Gouveia e Melo. O próprio almirante também não foi capaz de se distinguir — apesar de ter tido uma posição surpreendente sobre a utilização de tropas na Ucrânia (mas já lá vamos) – e António José Seguro, que tinha necessidade de se destacar, também não o conseguiu fazer.
O facto de o debate ser na rádio não favoreceu André Ventura que teve de esperar pelo seu momento para falar, o que praticamente o impediu de usar o seu método habitual de interromper os adversários. João Cotrim Figueiredo tentou fazer diferente com pequenos apartes; à esquerda, Catarina Martins só subiu o tom de voz quando quis deixar claro que não irá desistir em prol de Seguro, António Filipe manteve o tom habitual e Jorge Pinto permaneceu no registo em que se apresentou aos debates.
Houve vários pontos consensuais entre os candidatos, por vezes, com pequenas alterações. São unânimes em garantir que a dissolução do Parlamento não advém, necessariamente, de um Orçamento chumbado e todos concordam com uma reforma na Justiça, com mais ou menos interferência do Presidente da República. Pelo meio ainda voltou à baila o almoço “secreto” entre Gouveia e Melo e André Ventura, mas foi superado sobre se o líder do Chega e António José Seguro também tinham estado juntos. Entre acusações de mentira, rapidamente o assunto foi redirecionado para os problemas que afectam a hierarquia do Ministério Público.
Sobre o lobbying não há concordância entre todos, com a esquerda a recusar a regulamentação – exceção feita António José Seguro que não alinha pelo partido que o apoia.
O assunto em que claramente houve uma discordância entre os candidatos prendeu-se com a intervenção das tropas portuguesas em missões de manutenção de paz. Se de António Filipe já esperaríamos a resposta, de Henrique Gouveia e Melo veio a surpresa. Mesmo em paz, o candidato não concorda com o envio de tropas por considerar que qualquer missão de paz pode ver-se envolvida numa situação de conflito.
Foi um debate esclarecedor sobre o que cada candidato pensa sobre temas fundamentais para o papel de um Chefe de Estado e ouvir essas ideias sem a avaliação da linguagem corporal, que em televisão pode conferir um caráter de ruído, tornaram a compreensão mais eficaz. A três dias do início oficial da campanha, cumpriu-se o propósito de esclarecer o eleitorado.
Miguel Carrapatoso — Formato ingrato para quem espera ver algum candidato a sobressair. Oito pessoas é uma multidão, existe uma óbvia preocupação editorial de garantir condições de participação idênticas a todos e o incentivo para se fugir ao guião é mínimo. Apesar de tudo, João Cotrim Figueiredo e André Ventura foram aqueles que tentaram (e conseguiram) agitar um bocadinho a discussão, pelo que merecem o justo destaque.
Por razões inversas, António José Seguro e Henrique Gouveia, que, atendendo às sondagens, precisavam deste debate para reganhar algum balanço, tiveram prestações perfeitamente discretas. Maior beneficiário líquido: Luís Marques Mendes, que só não tem um score mais expressivo porque a fórmula dos “três pontos” para responder a qualquer pergunta que se lhe faça consegue ser desesperante e nem sempre dá para disfarçar a ausência de coisas mais concretas para dizer.
No campeonato particular da esquerda, más e boas notícias para António José Seguro: por um lado, os seus adversários não pretendem desistir da corrida, o que cria naturais dificuldades; por outro lado, a avaliar pelo 29.º debate nestas presidenciais, também continuam sem conseguir explicar e a mostrar o sentido das respetivas candidaturas — o que pode servir de incentivo aos eleitores. Apesar de tudo, dos três, Catarina Martins foi aquela que esteve menos mal.
Miguel Viterbo Dias — Um debate a oito tem realidades e objetivos diferentes entre os vários candidatos. Para os que lutam pela vitória – ou neste caso, por passar à segunda volta –, o melhor é passar de forma discreta: não atacar nem ser atacado. André Ventura, Gouveia e Melo e Marques Mendes conseguiram-no sem dificuldades de maior.
Ainda assim, Henrique Gouveia e Melo voltou a ficar a meio caminho. Num dia ataca Luís Marques Mendes por ter interesses económicos concretos (entrevista ao jornal Nascer do Sol) e no outro diz que não vem “fazer acusações” e falar genericamente sobre “opacidade”. Já Marques Mendes, que noutros fóruns tem estado debaixo da mira do Almirante, neste debate respondeu a perguntas sobre lobbying e conflito de interesses sem que nenhum dos outros sete lhe tenha apontado algum caso em específico, passando ao largo de polémicas.
João Cotrim Figueiredo e António José Seguro tiveram o mérito de tentar mexer com a discussão. O candidato apoiado pela IL ao puxar pelas desistências à esquerda e colocar-se no pelotão da frente – o que gerou desconforto em Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto. A par disso, Cotrim Figueiredo é particularmente eficaz em rádio, sendo mais conciso do que, por exemplo, as intervenções em três e quatro pontos de Marques Mendes.
Já o candidato apoiado pelo PS teve mérito ao ter atirado a André Ventura sobre o almoço com Gouveia e Melo mas depois acabou por ficar no ar sobre se tinha ou não tido uma conversa mais privada com o líder do Chega e a partir daí perdeu o ímpeto com que arrancou este debate.
Numa discussão em que ninguém conseguiu destacar-se dos demais, António Filipe pecou por ter passado praticamente à margem, numa altura em que é preciso fazer prova de vida para justificar a candidatura.
No que toca às questões de fundo: acordo generalizado de que a rejeição do Orçamento do Estado não é motivo para a queda do Governo e sobre a justiça necessitar de mudanças. As divergências ficaram para a regulamentação do lobby e a postura quanto aos Estados Unidos da América.
E no fim, a resposta rápida à caça às bruxas desta campanha. Afinal, ninguém é maçon.
Recorde aqui os 28 frente a frente:
o debate entre Catarina Martins e Jorge Pinto
o debate entre António José Seguro e António Filipe
o debate entre Cotrim Figueiredo e André Ventura
o debate entre António José Seguro e Cotrim Figueiredo
o debate entre Gouveia e Melo e André Ventura
o debate entre António Filipe e André Ventura
o debate entre Marques Mendes e Catarina Martins
o debate entre André Ventura e Jorge Pinto
o debate entre António Filipe e Catarina Martins
o debate entre António José Seguro e Catarina Martins
o debate entre Catarina Martins e Cotrim Figueiredo
o debate entre António José Seguro e Marques Mendes
o debate entre António Filipe e Gouveia e Melo
o debate entre António José Seguro e Jorge Pinto
o debate entre Cotrim Figueiredo e António Filipe
o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto
o debate entre André Ventura e Catarina Martins
o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo
o debate entre Marques Mendes e André Ventura
o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto
o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo
o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo