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As notas do debate. Cotrim Figueiredo vence Catarina Martins por meio ponto, depois da bloquista se embrulhar na NATO

Estiveram apenas três temas sobre a mesa e ambos concordaram num deles: a Justiça. Depois, sobre o investimento na Defesa, a NATO, a Ucrânia, o modelo económico e o Estado, a discussão foi acesa.

Seguimos ao minuto o debate neste artigo em direto

No seu terceiro debate frente a candidatos da esquerda (o quarto foi com Gouveia e Melo), Cotrim Figueiredo começou por marcar posição em relação ao tom morno que tinha usado com António Filipe no último domingo. Por isso afirmou-se desde logo como sendo a “escolha para ir à segunda volta” e lembrou que “o voto útil é um voto inútil”. Teve ainda tempo, no momento fora da ordem dos trabalhos, para puxar pelas sondagens, comparando a da semana passada, que o colocava com 4%, com a desta quinta-feira, que lhe dá 12,2%, em empate técnico com André Ventura, Gouveia e Melo e António José Seguro. Ah, sobre o debate com Catarina Martins? Estiveram apenas três grandes temas sobre a mesa: no primeiro, o da Justiça, ambos estiveram de acordo; sobre o investimento na Defesa, a NATO e a guerra na Ucrânia e sobre a dimensão do Estado e o modelo económico para o país, não podiam ter chocado mais.

Na Justiça, a questão foi única: a revelação das escutas do caso Influencer sobre as quais o Bastonário da Ordem dos Advogados disse que “há razões para ter medo”. Cotrim começou por afirmar “que se o bastonário o diz, não sou eu quem o contradiz”, para depois criticar o número de escutas, acrescentar que o PGR “deve explicações ao país” e sublinhar que este caso “é muito grave” e cria “natural alarme”. Catarina Martins seguiu pelo mesmo caminho. Falou também de um “caso muito grave” que “não é único”, de “pessoas arrastadas na praça pública” até “os processos prescreverem” e de uma “descredibilização da democracia e das instituições como um todo”. “A Justiça tem de dar provas de se regular a si própria, sem interesses corporativos”, avisou o candidato liberal, reforçando que a PGR têm de dar “explicações mais cabais e mais cedo” ou dão azo “àqueles que dizem que democracia está em crise”, algo com que Catarina concordou. E terminou logo de seguida o clima de concordância.

A pergunta seguinte foi sobre o investimento de 5,8 milhões que Portugal vai fazer na Defesa. “Não me parece adequado ao esforço que o país tem de fazer em relação a várias áreas. Fazer compras de armamento que privilegiam as empresas de armamento francesas e alemãs e que nem por isso colocam os países mais seguros”, respondeu de imediato Catarina Martins, com Cotrim também sem perder tempo em contrariá-la: “Este investimento é necessário. Estes tiranos e tiranetes o pior é que podem sentir é fraqueza. Portugal tem de estar integrado e a NATO é a nossa garantia de defesa única”, atirou, acusando a ex-coordenadora do Bloco de estar a “tentar disfarçar o incómodo que a questão causa” porque já declarou que, por si, “Portugal estaria fora da NATO”. Numa troca de palavras acesa, Catarina Martins disse que a fraqueza se deve ao facto “de os europeus estarem aliados a Trump” e que essa é uma “questão nova”: “Temos um líder que ameaçou dois países da NATO, o Canadá e a Dinamarca, que é Donald Trump. A ameaça veio de dentro da NATO”, atirou.

O tema, que foi o que se prolongou por mais tempo, fez com que Catarina viesse ainda com a velha questão do Bloco de ser um general americano a liderar a Aliança Atlântica, mas em resposta Cotrim propôs um “pilar europeu da NATO com autonomia”, “um braço armado”, mas sempre com ligações aos americanos: “Fazermos uma NATO sem os EUA? Sejamos francos…”. A candidata bloquista insistiu que “a NATO não foi uma segurança para a Ucrânia, foi o contrário” e que o que aconteceu foi que “a Rússia invadiu Ucrânia e a Ucrânia defendeu-se”, recusando ter dito que os ucranianos foram empurrados para a guerra. O liberal lembrou-a então de ter chamado “nazi a Zelensky”, ela respondeu que não se lembrava de ter sido ela, mas alguém no Bloco [o que de facto aconteceu].

Depois seguiu-se outras das questões que mais os divide. O papel do Estado e o tamanho desse Estado. O liberal começou pela área da Saúde dizendo que apenas o preocupa quem “consiga prestar os melhores serviços em melhores condições” e não lhe interessa “se é público, privado, cooperativo ou social”. Catarina apressou-se a perguntar “quem paga?”. “Eu diria que é impagável. Pagaríamos ao sistema público onde os privados não queiram estar e ao mesmo tempo aos privados. Não funciona, é caríssimo e vai deixar as pessoas na mão”. Cotrim tentou dar exemplos, falou em “3 ADSE’s” e insistiu. Mas o tempo acabou.

Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Esta sexta-feira não há debate (há um Benfica-Sporting), mas os frente a frente regressam sábado, 6, na SIC, com o confronto entre António José Seguro e Catarina Martins (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.

Catarina Martins, 12,25 — Cotrim Figueiredo, 12,75

Alexandra Machado — Catarina Martins e João Cotrim de Figueiredo são velhos conhecidos. Confrontaram-se em legislativas, nas europeias e agora fazem bingo com o debate para as presidenciais. Passa assim a ser o clássico dos debates. Começou com as escutas a António Costa, onde estiveram de acordo (caso raro) e ambos assertivos em relação ao escrutínio e fiscalização da própria justiça. Na defesa e política internacional, Catarina Martins perdeu-se nas suas próprias ideias e mostrou incómodo ao ser confrontada com posições do Bloco. O debate ficou demasiado tempo neste tema. Os candidatos já tinham dito o que pensavam da NATO, Cotrim mais esclarecedor.

No final… parecia um flashback. Era um debate presidencial? O tema em cima da mesa era o peso do Estado que se transformou no debate sobre a saúde, e em particular sobre o modelo defendido por Cotrim de Figueiredo que voltou a não conseguir explicar a sua proposta (mas tudo girou sobre as suas ideias, permitindo a Catarina Martins manter-se unicamente ao ataque). Não deixou, no entanto, de ser curioso – como já antes tínhamos ouvido António Filipe – ver Catarina Martins a questionar o liberal sobre os custos do sistema para o Estado… A última parte do debate foi mal gerida por todos, candidatos e moderador. E acabou um debate confuso e com Cotrim de Figueiredo um pouco crispado. Catarina Martins não terá acrescentado votos à sua luta (mas seguramente não os perdeu). Mas também não será com este debate que Cotrim de Figueiredo conseguirá convencer que será a primeira escolha para ir à segunda volta.

Helena Matos — A ida para Bruxelas fez manifestamente bem a Catarina Martins: a chegada à eurocracia deu-lhe segurança e, pareceu-me, a convicção que ela vale mais que o Bloco. Já Cotrim de Figueiredo parece agastado, às vezes quase enfadado como diria o povo, por ter de explicar coisas tão básicas quanto a diferença entre privatizar a saúde ou o Estado assegurar o acesso aos serviços de saúde sejam eles no público, no privado ou no sector social. O candidato presidencial Cotrim não revira os olhos como fez o candidato dos liberais Mayan Gonçalves em 2021, mas às vezes anda lá perto.

Cotrim de Figueiredo e Catarina Martins concordaram na Justiça e até manifestaram uma razoável prudência.

Na Defesa Catarina Martins perdeu e na Saúde Cotrim enredou-se em si mesmo. Detalhando, Catarina Martins não padece dos embaraços do PCP neste assunto e quando recordada de declarações de militantes do BE acusando Zelensky de ser nazi desembaraçou-se do assunto demarcando-se do BE. Mais difíceis de resolver são mesmo as ideias de Catarina Martins sobre a Defesa: a candidata do BE aqui sofre de uma espécie de síndroma de Olívia patroa (a que está no parlamento europeu) e de Olívia empregada (a que foi dirigente do BE). A primeira, a Olívia patroa, diz que sim, a Europa tem de se defender, já a Olívia empregada (a antiga dirigente do BE) acha que defesa sim mas há que não desviar dinheiro da saúde e de outros sectores. Depois enredou-se nos tecno-oligarcas, na NATO sem americanos, no Trump… e não se sabe onde Catarina teria acabado caso o assunto não mudasse.

E foi assim que chegámos à Saúde, matéria em que Cotrim de Figueiredo tinha argumentos de peso como o desastre do fim das PPP que em vez de detalhar deixou cair para, a escassos minutos do fim do debate, se enredar num enredo de três ADSEs.  Tudo resumido, o debate foi dos melhores que vi até agora.

Ricardo Conceição — Que belo debate. Só se lamenta que aquela coisa das presidenciais (ironia) não tenha entrado na conversa… Dois bons arguentes estiveram em direto em horário nobre numa estação de televisão para gáudio dos respectivos apoiantes. Ambos tinham como missão convencer eleitores que “isso do voto útil” é coisa de somenos, o que importa é o agora. Ambos podem ficar-se pela primeira volta e reduzir a participação nestas eleições a uma entrada na Wikipédia. João Cotrim Figueiredo abriu o debate a lembrar isso mesmo, os eleitores devem ignorar a ideia de um voto útil entre os três favoritos: Gouveia e Melo, André Ventura e Marques Mendes. Porém, o candidato liberal nunca mais conseguiu voltar ao tema num debate que demorou demasiado tempo na questão da Ucrânia. Catarina Martins tentou atacar Cotrim, mas nem sempre foi eficaz nem conseguiu ir ao encontro da esquerda mais moderada. Mérito para Cotrim Figueiredo, que colou a adversária ao populismo bloquista. Como sempre, centrando a minha análise na eficácia em conseguir arrecadar mais um voto fora do núcleo dos próprios apoiantes, ambos chegaram ao fim falhando o que deveria ser o grande objetivo nesta fase, combater a ideia do voto útil. Mas se não viu o debate, fica o conselho: rebobinar e ver. Vale a pena assistir um confronto de duas ideias para o mundo e para país discutidas com vivacidade. E a ter de determinar um vencedor, Cotrim Figueiredo esteve melhor.

Rui Pedro Antunes — Só faltava a jornalista Fernanda Gabriel e podia ser mais uma edição do programa Eurodeputados. Cotrim e Catarina Martins já se enfrentaram (e debateram) em legislativas, europeias e agora fizeram bingo com um debate presidencial. São ambos deputados europeus e ex-líderes dos respetivos partidos. Também por isso, este foi um debate sem novidade. Os dois são conhecidos do público, toda a gente sabe o que pensam e não disputam eleitorado. Tinham, isso sim, mais uma oportunidade para fixarem os respetivos eleitores-alvo (o que fizeram com êxito) e, em cima disso, tentarem alargar a base para PS e PSD (o que nem um, nem outro, conseguiram fazer).

Na justiça concordaram genericamente, embora Catarina Martins tenha sido mais vocal contra o PGR e o MP. Já na Defesa a discordância foi mais evidente. Catarina Martins continua a ser aparentemente pró-Kiev, como a ala maioritária do Bloco de Esquerda, mas conseguiu responsabilizar mais Trump do que Putin pela situação atual. Cotrim de Figueiredo teve de lhe dizer que é liberal, como os EUA, mas que não é apoiante de Trump. O liberal conseguiu, em matéria de Defesa, ser mais realista e Catarina Martins insistiu na ideia naif de haver uma Defesa credível da UE sem os EUA e em desviar a conversa para outros assuntos como as ameaças do presidente dos EUA a países da NATO — que não era tema em cima da mesa.

Mas, se nesse caso Cotrim levou a melhor, a bloquista teve mais inteligência emocional e levou o seu adversário a irritar-se — o que a estratégia do liberal certamente dispensaria. Não significa que não seja legítimo ou que tenha sido abusivo (“deturpa o que eu disse”, “tem de me ouvir”), mas demonstra descontrolo emocional, o que não é bom. A bloquista manteve sempre, impávida, a poker face. Já sobre o papel ou não do Estado, ninguém esperaria que Keynes e Friedman chegassem a acordo, sendo natural a discordância. Saíram praticamente como entraram, o que é capaz de não ser mau, especialmente para Cotrim (em dia de sondagem que o coloca a nadar na piscina dos grandes).

Recorde aqui:

o debate entre António José Seguro e Marques Mendes

o debate entre António Filipe e Gouveia e Melo

o debate entre António José Seguro e Jorge Pinto

o debate entre Cotrim Figueiredo e António Filipe

o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto

o debate entre André Ventura e Catarina Martins

o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo

o debate entre Marques Mendes e André Ventura

o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto

o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo

o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo

o debate entre André Ventura e António José Seguro

o debate entre Marques Mendes e António Filipe

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