Com o dicionário de insultos debaixo do braço e uma estratégia de animosidade mútua, o debate entre André Ventura e Jorge Pinto, foi marcado por acusações mútuas e sucessivos insultos, e pouco revelou sobre o que cada um propõe como futuro Presidente da República. O confronto rapidamente se transformou numa troca de ataques pessoais, com o candidato apoiado pelo Livre a descer ao tom habitual do líder do Chega, que começou mais moderado, mas acabou a reagir no seu registo tradicional.
Apesar das diferenças, Ventura arrancou a apoiar a greve geral e a criticar a lei laboral, sugerindo que o Chega chumbará as medidas — uma posição que podia aproximá-lo do candidato do Livre (e que era um recado para Montenegro). “Há questões escandalosas, como fazer despedimentos coletivos para depois recorrer ao outsourcing. Isto é uma burrice. Não estamos disponíveis para uma lei do trabalho que é um bar aberto de despedimentos e um ataque às mães e aos direitos dos trabalhadores”, afirmou. Sobre os tumultos frente à Assembleia, acrescentou: “O que aconteceu há pouco em frente à AR é lamentável. É uma ofensa. Às autoridades. Aos próprios trabalhadores. Se fosse numa manifestação do Chega, tinha de haver inquéritos.” Jorge Pinto no entanto não seu por achado e respondeu em confronto direto: “André Ventura é um catavento e um troca-tintas porque já mostrou muita abertura para aprovar o pacote laboral. Muda de posição várias vezes. No fim deste debate talvez se queira candidatar a líder da CGTP. Bem-vindo, camarada Ventura.”
A partir daí, o tom endureceu. Ventura acusou o adversário de não servir “nem para aprovar uma coisa de condomínio” e lembrou que “as sondagens” lhe dão “menos de 1%”. “Quer um país de subsidiodependentes, salários baixos, como acontece na Venezuela e em Cuba. O catavento é o Livre, que tanto diz que quer uma economia aberta como anda aos abraços com ditadores da América do Sul.” O deputado do Livre optou por ridicularizar as intervenções do líder do Chega e voltou a provocar: “Tenho pena de não ter trazido, de facto, a ficha de um sindicato para o André Ventura preencher. É um fanfarrão.” Ventura respondeu acusando o Livre de querer “sustentar a tralha que não interessa para nada”, classificou Jorge Pinto como “um brincalhão” e afirmou não estar ali “para perder tempo com um brincalhão, quando os temas eram sérios”.
A lista de insultos continuou. Jorge Pinto chamou Ventura de “queridinho do sistema” e criticou-lhe o “estilo cabotino”. Ventura retaliou, dizendo que o adversário vinha da “mama do Bloco de Esquerda” e que estava ali para “desistir para António José Seguro”. Ambos recuperaram episódios das suas saídas do PS de Sócrates e do PSD de Rui Rio, citando nomes como o do próprio Sócrates, Vara, Relvas ou Luís Filipe Vieira.
O momento mais tenso ocorreu quando Jorge Pinto afirmou que dissolveria o Parlamento se uma revisão constitucional fosse aprovada apenas com o apoio da direita e da extrema-direita: Ventura reagiu de imediato: “O senhor é um ditador que não aceita a vontade do povo. Não se ria. Aprenda a palavra democracia. É igual ao Fidel Castro e ao Maduro. Você é um pirralho na política, que adora uma política de chacha. Um sonso.”
A NATO ainda surgiu na discussão, mas o debate terminou a subir de tom quando Jorge Pinto anunciou como mandatária nacional a advogada que representou a família Coxi no julgamento contra Ventura, levando o líder do Chega a concluir: “Jorge Pinto representa o país da bandidagem.”
Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Esta sexta-feira, na RTP, estarão frente a frente Marques Mendes e Catarina Martins (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
André Ventura, 11,75 — Jorge Pinto, — 11,25
Alexandra Machado — Jorge Pinto ia com uma tática. Rir-se do que André Ventura dizia, tentando descredibilizar o candidato ligado ao Chega. Só que se, inicialmente, até lhe estava a correr bem, com o confronto quando se discutia a legislação laboral. Ficámos, no entanto, a saber algumas linhas vermelhas do Chega que serão importantes para a frente. E o Governo deve ter estado a tomar notas neste debate. Jorge Pinto ensaiou uma tática confrontacional com o passado de Ventura (pedido de Ventura a “pedinchar” a Miguel Albuquerque “para ser o pilar da sua candidatura presidencial”), mas o candidato do Livre perde quando fala da dissolução da Assembleia em caso de revisão Constitucional só à direita. Aí Ventura ganhou pontos. E balanceou o debate no final questionando Jorge Pinto sobre a posição do Livre em relação à NATO.
De resto, tanto um candidato como outro levavam frases preparadas e conseguiram colocá-las ao longo do tempo – que durou mais do que a maioria dos outros debates (e Ventura acabou com um minuto a mais). André Ventura ainda puxou da cartada da vitimização – se fosse o Chega a ofender o Parlamento todos atacavam, ou que tem sido alvo de ameaças – mas Jorge Pinto acabou destrunfado com o estilo do candidato à direita – o riso acabou por parecer nervos.
Miguel Santos Carrapatoso — Por esta pouca gente esperava. Hoje deveria ter sido “eu show Ventura” mas, como diz a mais antiga regra do futebol, Jorge Pinto mostrou que os jogos só se vencem em campo. Mesmo com toda a evidente displicência de Ventura — que a teve em doses cavalares — o candidato do Livre mostrou que é possível debater com o líder do Chega com argumentos sólidos e sem gritaria — lição que pelo menos Rui Tavares poderia estudar.
O momento em que Ventura é confrontado com a sua ligação emocional a gente pouco recomendável na política e na bola também deu pontos preciosos a Jorge Pinto. Mas, acima de tudo, Ventura foi vítima das suas novas circunstâncias: é impossível ser o alegado campeão dos descamisados e daqueles que ficam para trás e defender a reforma laboral proposta à direita; o líder do Chega pode dar as voltas que quiser, mas não é preciso ter memória de elefante para saber o que Ventura disse no mês passado sobre a greve e sobre os sindicatos.
Vão ser meses disto e vai ser um momento definidor para o Chega. A avaliar pela amostra de hoje, Ventura ainda não conseguiu encontrar o jogo de rins necessário para estar simultaneamente ao lado do PCP e do Governo.
Pedro Jorge Castro — É uma fatalidade que a palavra aguerrido tenha a sílaba ri. Anulam-se uma à outra: não daria nunca para Jorge Pinto combater aguerridamente André Ventura e ficar com um riso parvo enquanto ele ataca.
E assim acabámos a ver o mais autoritário líder de um partido português a acusar Jorge Pinto de ser um ditador, por causa da sua ameaça de dissolver o parlamento para impedir uma revisão constitucional, mesmo com a nuance de não ter sido apresentada em campanha (ambição que de resto o Chega nunca escondeu).
Absurdo também entrar no campeonato do All you need is love patriótico com Ventura.
O líder da oposição teve momentos em que foi eficaz a passar a ideia de que Jorge Pinto é um “pirralho” que o está a fazer perder tempo para nada, quando tem de estar mais preocupado com coisas importantes, como as alterações ao Código do Trabalho — que começou a negociar com o Governo em direto no debate.
Mas o “pirralho” e “sonso” do Livre deixou-o estranhamente embaraçado em certos momentos, nomeadamente quando recordou a carta de Ventura a Miguel Albuquerque. Ventura foi buscar os casos de Vara e de Sócrates, mas meteu lá no meio o falecido Jorge Coelho, acusando-o de gamar (e fazendo o gesto de revirar os dedos). Jorge Coelho, além de já não estar cá para se defender, nunca esteve envolvido em qualquer processo comparável aos de Sócrates e Vara. Ofensa à memória de pessoa falecida, uma indecência desnecessária — e o tipo de truques que o leva a subir nas sondagens, mas que também o fixa como o político com a maior taxa de rejeição em Portugal.
Ricardo Conceição — Uma discussão que alimentou um bom momento de televisão e foi ao encontro das expectativas dos apoiantes. Se o objetivo era entreter as respectivas hostes, foi conseguido. Se o objetivo era esclarecer os indecisos ou tirar votos ao adversário, falhou. Jorge Pinto manteve o sorriso desafiante e conseguiu tirar André Ventura da postura mais serena com que começou o debate. Por regra, é Ventura quem exaspera os adversários e aqui, foi ao contrário.
Mas assim que o líder do Chega partiu ao ataque, o candidato apoiado pelo Livre foi atacado por todos os lados e onde dói mais. A promessa de dissolver o Parlamento, no caso de uma revisão constitucional levada a cabo por maioria de dois terços da direita, levou Ventura a classificar Pinto de ditador, “Fidel Castro” e “Maduro”. E por mais do que uma vez, referiu que a candidatura do deputado do Livre é “a brincar” e não deve ser levada a sério.
Jorge Pinto não conseguiu ir ao repique e questionar a própria candidatura de Ventura, que explicou há uns meses que se vê obrigado a concorrer por força das circunstâncias. O sorriso de Pinto acabou por se tornar incómodo e amarelo ao longo do debate e serviu para Ventura o atacar em diversas ocasiões. Seguindo como critério: “Alguém ganhou ou tirou votos ao adversário?”, a conclusão tem de ser: não. Porém, como ambos proporcionaram uma boa meia hora de televisão, melhor que os dramas das telenovelas concorrentes. Sigo a lógica de Jesus (Jorge), André Ventura vence pela nota artística.
Recorde aqui:
o debate entre António Filipe e Catarina Martins
o debate entre António José Seguro e Catarina Martins
o debate entre Catarina Martins e Cotrim Figueiredo
o debate entre António José Seguro e Marques Mendes
o debate entre António Filipe e Gouveia e Melo
o debate entre António José Seguro e Jorge Pinto
o debate entre Cotrim Figueiredo e António Filipe
o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto
o debate entre André Ventura e Catarina Martins
o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo
o debate entre Marques Mendes e André Ventura
o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto
o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo
o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo