À espera de luz verde. Depois da nega de António Sampaio da Nóvoa, que confirmou que não vai avançar para Belém, e da publicação nas redes sociais em que Catarina Martins se posicionava na corrida, o partido aguarda agora a confirmação oficial da antiga líder. E, enquanto isso, os bloquistas dão os primeiros passos formais para assumir que terão uma candidatura própria, reunindo-se para discutir as presidenciais do próximo ano.
Para este sábado, 23 de agosto, já existe uma convocatória: a Mesa Nacional do partido, que funciona como uma espécie de direção alargada, foi convocada para se reunir por videoconferência, apurou o Observador. Assunto? O ponto único da ordem de trabalhos é mesmo fazer o “ponto de situação das eleições presidenciais”, para já sem confirmar uma candidatura vinda do lado bloquista.
Isso acontece porque, em rigor, as candidaturas presidenciais não devem ser partidárias e devem surgir da vontade do próprio candidato — e o partido só poderá votar um apoio a Catarina Martins (que, se este avanço se confirmar, está naturalmente garantido) depois de a própria ex-líder, que segundo fonte próxima “continua a refletir sobre uma eventual candidatura presidencial”, se pronunciar formalmente e confirmar de viva voz que avança voz.
Até porque a reflexão de Catarina Martins não estará a ser feita apenas junto de elementos do Bloco — mais uma vez, não é suposto, ou desejável, que um candidato presidencial represente ou mobilize apenas o eleitorado do próprio partido.
Até lá, os órgãos do Bloco esperam e discutem as presidenciais e o balde de água fria que representou a recusa de António Sampaio da Nóvoa em entrar na corrida a Belém. Para os bloquistas, é natural que, após a confirmação de que o nome que atualmente mais desejavam como candidato agregador da esquerda está indisponível, tenha de haver uma discussão nos órgãos do partido para discutir as alternativas que sobram — sendo a de uma candidatura de Catarina Martins a mais plausível, neste momento.
Um dado que anima e alimenta essa perspetiva é a sondagem da Intercampus, divulgada esta terça-feira pelo Now, Jornal de Negócios e Correio da Manhã, que já inclui nos potenciais candidatos o nome de Catarina Martins. A antecessora de Mariana Mortágua na liderança do partido recolhe aqui 4,7% das intenções de voto, perspetiva simpática para o Bloco tendo em conta que o candidato apoiado pelo PCP, António Filipe, consegue aqui apenas 2% das preferências dos inquiridos.
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Nóvoa era o preferido, Catarina tenta cruzar fronteiras do Bloco
A preferência do Bloco seria, em primeiro lugar, contar com um candidato que conseguisse representar várias sensibilidades na esquerda, pelo que o nome de Nóvoa, que chegara a ser lançado por dirigentes e senadores do PS mas também do Bloco e do Livre, era uma hipótese muito bem vista — Nóvoa tinha chegado, nas últimas legislativas, a visitar a campanha do Bloco (assim como do Livre e da CDU), aproveitando então para lançar críticas ao exercício do cargo presidencial por Marcelo Rebelo de Sousa.
Dentro do Bloco chegaram a alimentar-se outras hipóteses, como um eventual apoio a Alexandra Leitão, que entretanto avançou como candidata à Câmara Municipal de Lisboa. Depois, à medida que se discutiam eventuais protocandidatos no seio do PS, começou a ser óbvia a desmobilização dos bloquistas à volta dessas hipóteses, que oscilavam entre nomes como Augusto Santos Silva, Mário Centeno ou António Vitorino — todas seriam, à partida, rejeitadas pelo partido.
Com a nega de Nóvoa, o capítulo da busca por um candidato agregador ficou encerrado, admite-se no Bloco. E deposita-se confiança na capacidade de Catarina Martins para conquistar eleitores além do (pequeno) espaço atual do Bloco e atravessar as fronteiras eleitorais do partido, sendo que tanto António José Seguro como António Filipe são vistos como candidaturas com espaços mais limitados — sendo que Seguro, que tem feito um bom percurso nas sondagens (à exceção do rombo que sofre no mesmo estudo da Intercampus, sendo ultrapassado por André Ventura), divide as fileiras do próprio PS e é mais controverso dentro do partido que liderou.
Não falta, aliás, quem considere que o espaço que Seguro foi de facto conquistando, parecendo estar a conseguir travar outras intenções de potenciais candidaturas no espaço do PS, pode por isso ser menos representativo do que parece. Ainda assim, foi o suficiente para que Nóvoa, constatando que seria quase impossível obter o apoio do PS, não entrasse na corrida, tendo feito saber aos bloquistas que não sentia que “reunisse condições” para protagonizar uma candidatura.
Para o Bloco, Catarina Martins seria assim a nova solução mais consensual: para o partido, mesmo depois da saída da liderança — “eu não vou andar por aí, porque eu sou daqui”, anunciou na sede da Rua da Palma — a antiga líder continuou sempre a ser considerada um dos principais ativos eleitorais do partido.
Em 2023, o Observador escrevia que, por isso mesmo, os dirigentes bloquistas estariam prontos para apostar em Catarina Martins tanto como cabeça de lista às eleições europeias como candidata às eleições presidenciais. O primeiro cenário concretizava-se em junho de 2024, e o segundo poderá tornar-se verdade nas próximas semanas. Na cabeça dos bloquistas esteve sempre presente um cálculo: se não fosse a jogo um candidato mais transversal — o partido acredita que a fraca votação de Marisa Matias em 2021 foi muito prejudicada pela concorrência de Ana Gomes — Catarina Martins seria o seu principal trunfo para marcar terreno na primeira volta das presidenciais.
Já na altura, nos bastidores, o PS dizia não estar muito preocupado: contava que viesse a existir uma segunda volta nestas presidenciais tão divididas e, assim, contaria com o apoio dos bloquistas ao seu candidato na segunda, e decisiva, ronda. Mas quanto à primeira ganha cada vez mais força o nome de Catarina Martins, que traz no currículo tanto os melhores (2015) como dos piores (2022) resultados do Bloco e continua a ser uma figura muito acarinhada no partido — como diziam então dirigentes do Bloco ao Observador, nesta fase pós-liderança a agora eurodeputada está em condições de “fazer o que quiser”. O partido apoiará.