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MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Bob Dylan, Trump e os CEO que só vêm a Lisboa "embededar-se". Fizemos 47 perguntas a Paddy Cosgrave e respondeu a (quase) todas /premium

As pressões externas, os SMS ameaçadores, as situações mais embaraçosas e os tweets e emails que já enviou por engano. Fizemos 47 perguntas ao fundador da Web Summit, mas nem todas tiveram resposta.

    Índice

Se alguém lhe deve um pedido de desculpas, Paddy Cosgrave não se lembra. Dos piores tweets que já recebeu também não guarda memória e sobre mensagens ameaçadoras, diz, entre risos, que só recebe as da mulher. Ao Observador, no novo escritório da Web Summit em Lisboa, no LACS Anjos, o presidente e fundador da maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa revela que se fosse americano não votaria em Donald Trump e que a ideia de convidar Edward Snowden para orador da edição que começa esta segunda-feira nem sequer foi dele. Pressões? Diz que não houve, mas lembrou que o responsável pela tecnologia da Casa Branca vai estar em Lisboa. Quanto a futuras chatices com a Câmara Municipal por causa dos atrasos nas obras da FIL para a acordada expansão do espaço, respondeu apenas que, “de momento”, não se passa nada.

Um mês depois de nos termos sentado com o presidente da Web Summit no estúdios da Rádio Observador, desafiámo-lo a responder a 47 perguntas rápidas. Descobrimos que há CEO (presidentes executivos) de empresas que só querem vir a Lisboa “embebedar-se”, que do primeiro beijo que deu pouco ou nada se lembra e ouvimos com detalhe o encontro amoroso que o fez sair a meio de um filme no cinema. Dos tempos da universidade e do ténis, há uma das situações mais embaraçosas da sua vida e da adolescência recorda-se, sobretudo, de ouvir Bob Dylan. E com quem é que jantaria o Paddy Cosgrave se tivesse oportunidade? Avisamos, desde já, que a resposta não é óbvia.

A Web Summit é a maior feira de empreendedorismo e tecnologia da Europa e decorre entre 4 e 7 de novembro, na FIL e na Altice Arena, em Lisboa. Entre os oradores confirmados estão nomes como Brad Smith, responsável jurídico e presidente da Microsoft, Guo Ping, chairman da (ultimamente polémica) Huawei, Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, e a comissária europeia Margrethe Vestager. O evento já esgotou e conta com mais de 70 mil participantes. Na sessão de abertura, Edward Snowden (o ex-administrador de sistemas da CIA que tornou público o sistema de vigilância global da NSA americana) vai falar em direto a partir da Rússia, onde está exilado. O contrato que Paddy Cosgrave fez com o Governo português garante a realização da Web Summit em Lisboa até 2028 com um investimento público de 11 milhões de euros por ano.

Paddy Cosgrave assinou um contrato com o Governo para manter a Web Summit em Lisboa até 2028, com apoios públicos que rondam 11 milhões de euros por ano

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Snowden, as pressões e a política

Quando é que decidiu convidar Edward Snowden e porquê?
Na verdade, não foi ideia minha. Tenho uma equipa incrível e, durante o ano todo, o trabalho deles é pensar em pessoas interessantes para convidarmos. Por vezes, vou a algumas reuniões editoriais ocasionais, mas são eles que convidam estas pessoas brilhantes e persuadem-nas a falar em tantos palcos. O Snowden não fui eu.

Sofreu alguma pressão externa por ter convidado Edward Snowden e o chairman da Huawei. E de quem?
Troquei uns WhatsApp com o Donald Trump para ter um ok… [risos]. Não, não fiz nada disso. Ele não usa o WhatsApp. E não, não houve nenhuma pressão externa.

Qual foi o orador mais difícil de convencer para vir a Lisboa?
Humm… Muito boa pergunta. Cristiano Ronaldo. E ainda não veio. [risos] Parece que, de momento, ele tem um emprego diário… a jogar futebol. Talvez quando se reformar venha.

Qual foi o capricho mais bizarro que lhe pediram?
[silêncio] Tem havido muitos pedidos excêntricos, por isso, é difícil dizer… Às vezes, fico surpreendido por ter CEO que apenas querem vir embebedar-se a Lisboa. Sim, é a sério, é mesmo a sério. Parece que, se tiveres 55 anos e os teus dias são passados a viver numa bolha onde tens de ser incrivelmente preciso e clínico, sem nunca baixares a guarda, muito provavelmente, quando chegas às 11 horas da noite, a única coisa que queres é embebedares-te em Lisboa. Há sítios piores…

"Apesar de dizermos a alguns oradores para, por favor, não fazerem  um pitch da sua empresa no palco, eles chegam lá e fazem apenas esse pitch. E nunca mais são convidados. Isso é o que mais me magoa. É mais do tipo... "Anda lá, toda a gente que aqui está é inteligente e sofisticada, sabem o que é que a tua empresa faz. Por isso, não nos dês essa apresentação de Power Point"

Quem é que já se arrependeu de convidar?
[silêncio] Não convido oradores, portanto… [risos] Humm… Às vezes, apesar de dizermos a alguns oradores para, por favor, não fazerem  um pitch da sua empresa no palco, eles chegam lá e fazem apenas esse pitch. E nunca mais são convidados. Isso é o que mais me magoa. É mais do tipo… “Anda lá, toda a gente que aqui está é inteligente e sofisticada, sabem o que é que a tua empresa faz. Por isso, não nos dês essa apresentação de Power Point”.

Se houver alguma ameaça à segurança da Web Summit, qual é o plano de emergência?
Isso está nas mãos da PSP. Há um grupo especial de conselheiros de segurança que envolve o governo português, as Forças Armadas, os serviços de inteligência e profissionais de classe mundial. Confiamos que, seja o que for que tenhamos de fazer, eles nos vão dizer.

Vai-se chatear com a Câmara Municipal de Lisboa ou com o Governo por causa dos atrasos nas obras da FIL?
De momento, não.

Chairman da Huawei, Edward Snowden e o conselheiro legal de Julian Assange nesta Web Summit. Está à espera de um tweet de Donald Trump nos próximos dias?
Bem, o CTO [responsável pela tecnologia] da Casa Branca vem à Web Summit, por isso, presumo que se o Wi-Fi [na Casa Branca] tiver de ser arranjado na próxima semana, não vai haver ninguém em casa [risos]. Não sei… Tenho a certeza de que o Donald Trump não liga nenhuma [à Web Summit]. Tem outras coisas com que se preocupar.

Se fosse americano, votava no Donald Trump?
Não.

Se fosse português, em que partido votava?
Não faço ideia.

"Há tantas [organizações para as quais nunca trabalharia], que nem sei por onde começar. Há muitas pessoas para as quais nunca trabalharia. Não teria nenhum interesse em trabalhar em qualquer organização fascista... E, na verdade, para qualquer outra pessoa. Prefiro trabalhar para mim"

Não acha que a Web Summit está a ficar mais política do que tecnológica?
Acho que a tecnologia está a tornar-se mais política, por isso… Há muitos anos, a Web Summit só aparecia na subsecção da secção de Negócios. E, depois, em toda a secção de negócios. Agora, parece que não passas uma semana sem que haja um jornal ou meio online com uma história de primeira página em tecnologia, sobre todos os tipos de assuntos.

Depois da Web Summit, há um caminho na política para o Paddy?
Não.

Para quem ou que organização é que nunca na vida trabalharia?
Ohhh… Há tantas, que nem sei por onde começar. Há muitas pessoas para as quais nunca trabalharia. Não teria nenhum interesse em trabalhar em qualquer organização fascista… E, na verdade, para qualquer outra pessoa. Prefiro trabalhar para mim.

Já tentaram suborná-lo?
Não, não! [risos] Acho que se me seguirem no Twitter vão perceber que isso é uma péssima ideia.

Já recebeu algum SMS com algum tipo de ameaça?
Da minha mulher…. E da minha mulher [risos]. “Onde raio é que tu andas? Era suposto estares em casa. Sabes que tens uma família?”

Qual foi a pior mentira que contaram sobre o Paddy ou sobre a Web Summit?
“Ele é um tipo mesmo muito divertido.” [risos] O propósito das redes sociais não é ter as pessoas a dizerem mentiras? Acho que é o que estamos a aprender… Nas redes sociais, as pessoas dizem várias coisas. Não as guardo na minha cabeça. Costumo rir-me mais destas coisas do que levá-las a sério.

"Acho mesmo que as redes sociais podem ser incrivelmente poderosas e boas, mas há contrapartidas muito óbvias. Temos apenas de descobrir se queremos viver com redes sociais e, se quisermos, então devemos legislá-las para torná-las numa tecnologia mais razoável, como ter cintos de segurança ou airbags nos carros"

Os amigos, o (não) primeiro beijo e Bob Dylan

Já perdeu amigos por causa da Web Summit?
Humm.. Não, acho que não.

Já foi assediado por um fã?
Não, que eu saiba não. Às vezes, as pessoas enviam-me mensagens e isso é completamente normal. Se estás a construir uma empresa… Quando as pessoas que criaram a Google, a Amazon, a BMW ou a Airbus estavam a começar, lutaram muito e enviaram muitas cartas a pessoas, para as quais nunca tiveram respostas. É assim que as coisas acontecem no início. Tens de respeitar as pessoas que fazem isso.

Se pudesse eliminar uma empresa tecnológica do mapa, qual seria?
Hummm… Essa é uma pergunta interessante. Estou a tentar pensar numa empresa tecnológica que realmente me irrite ou algo do género. Acho que qualquer tecnologia é uma faca de dois gumes. Olha, os carros: são incríveis, mas também matam milhões de pessoas por ano. E às vezes com as redes sociais… Acho mesmo que as redes sociais podem ser incrivelmente poderosas e boas, mas há contrapartidas muito óbvias. Temos apenas de descobrir se queremos viver com redes sociais e, se quisermos, então devemos legislá-las para torná-las numa tecnologia mais razoável, como ter cintos de segurança ou airbags nos carros.

Se só pudesse ter três apps no seu telefone, quais seriam?
Mensagem de texto, Slack e email. É como trabalho, como comunico com os meus amigos… A vida vive-se através da comunicação.

Devia ter 8 ou 9 anos quando bebi vinho pela primeira vez, os meus pais encorajavam muito a beber vinho e eu achava nojento. Era vinho espanhol, de Rioja.

Com que idade teve o primeiro telemóvel e qual foi?
Acho que tinha 14 anos e talvez tenha sido um Nokia 3210. Não foi assim com toda a gente? [risos]

Qual era o nickname do Paddy no mIRC? E qual é a história?
Não usei o mIRC… Mas lembro-me que, quando estava no liceu, para onde entrei aos 12 anos, fui capaz de mostrar aos meus amigos como podias trollar [brincar, enganar] as pessoas em fóruns (message boards). Tinha mais a ver com construir falsos extraterrestres, não se tratava de catfishing [quando as pessoas criam perfis falsos online com o objetivo de fazer mal a outras pessoas], queríamos apenas que elas fizessem tontices. Tinha 12 anos, não levava o mundo muito a sério e achava que isto era muito divertido.

Já teve um encontro às cegas com alguém que conheceu na internet?
Não.

Esta é a nona edição da Web Summit e a quarta que se realiza em Lisboa. O evento nasceu em Dublin, na Irlanda

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Quando é que deu o primeiro beijo?
Era adolescente, na Irlanda… Devia lembrar-me, não é? [risos] Mas, pelos vistos, é óbvio que não teve um cariz romântico ou muito inteligente, porque foi banido do meu banco de memória.

Sei que não bebe álcool diariamente, mas quando é que foi a última vez em que bebeu mais do que devia?
Não bebo álcool diariamente, não, [risos] e nunca nas manhãs. Mas bebo um copo de vinho, às vezes. Mas não me lembro disso… Não tenho por hábito beber mais do que o que devo.

E a primeira vez que bebeu vinho?
Devia ter 8 ou 9 anos, os meus pais encorajavam muito a beber vinho e eu achava nojento. Era vinho espanhol, de Rioja.

"Uma vez fui ver "A Paixão de Cristo" num primeiro encontro. Não foi ideia minha... [risos]. Percebi logo, em meia hora, que não ia haver um segundo encontro depois daquele. E também não nos iríamos beijar no final do filme. Ela era um tipo de mulher muito peculiar... E fui-me embora"

Qual foi a música ou banda que mais ouviu na adolescência?
Bob Dylan, Paul Simon, U2… Uma vez, alguém me deu um CD da Madonna, mas não tinha um leitor de CDs, por isso, não resultou. Mas adorava mesmo Bob Dylan quando era adolescente. Por alguma razão, gostava muito da “Hurricane”, acho que era uma canção muito poderosa. Mas ele escreveu tantas que eram incrivelmente poderosas.

Qual foi a última canção que ouviu antes desta entrevista?
Christine and the Queens. A minha mulher descobriu-a quando estava ainda a começar a sua carreira em Paris, quando vivemos lá, há 10 anos.

Qual foi o pior tweet que já escreveram sobre si?
Foram tantos… Não sei. É estranho, mas é como se tivesse uma branca sobre esses assuntos. Não sei, talvez quando estás a crescer, na escola, algumas pessoas pensem nas coisas más que as outras lhes dizem, mas as mais velhas não se preocupam… Eu não me preocupo. Acho que é uma coisa de maturidade. Algumas pessoas dizem coisas más e não importa, na verdade.

Já apagou algum tweet à pressa, porque se enganou?
[Risos] Sim, uma ou duas vezes, claro. Não me lembro o que diziam, era uma coisa tola.

Já enviou uma mensagem ou email a alguém por engano? O que é que dizia?
Sim, dúzias de vezes. Eu não devia, não devia contar… [Risos] Foram só coisas imaturas, de miúdos de 19 anos na universidade a dizer coisas como : “Oh, não quero ver esta ou aquela pessoa nunca mais”. E a resposta depois era: “Acho que enviaste isto para a pessoa errada”. E eu ficava do tipo: “Oh, meu Deus!”

Qual é a série favorita do Paddy e porquê?
Não costumo ver assim tanta televisão. Gosto de ver partidas de ténis. E é isso.

Alguma vez saiu a meio de um filme no cinema? Ou adormeceu?
Uma vez fui ver “A Paixão de Cristo” num primeiro encontro. Não foi ideia minha… [risos]. Percebi logo, em meia hora, que não ia haver um segundo encontro depois daquele. E que também não nos iríamos beijar no final do filme. Ela era um tipo de mulher muito peculiar… E fui-me embora. Não sabia que filme era, ela quis fazer-me uma surpresa e disse-me que aquele era o homem mais importante da sua vida… Quer dizer, ela é uma mulher maravilhosa agora e está casada e feliz, mas não era para mim. Acontece que depois vi “A Paixão de Cristo” e, na verdade, é um bom filme. Na escola, costumávamos ver o Jesus da Nazaré, que era um filme de 9 horas sobre a vida de Jesus, mas a interpretação não é tão boa.

[Veja o trailer de “A Paixão de Cristo”]

Qual é o seu videojogo favorito e porquê? Ou é contra?
Em criança, adorava o GoldenEye, Mario Kart, antes, Super Mario Bros, Mario Bros, Donkey Kong… Príncipe da Pérsia, Doom, Wolfenstein… Joguei muitos videojogos, mas, nos últimos 10 ou 15 anos, não tenho jogado muitos jogos de computador.

Três desejos, a paternidade e os pedidos de desculpa

Se pudesse jantar hoje com uma pessoa à sua escolha, do mundo todo, qual seria?
Noam Chomsky [filósofo, ativista político e linguista americano, considerado o pai da linguística moderna].

Se tivesse a lâmpada do Aladino, quais seriam os três desejos?
Passar mais tempo com a minha família, encontrar uma quinta bonita para viver e ter mais tempo para ler.

Se tivesse nascido há 100 anos, qual teria sido a sua profissão?
Seria agricultor.

Se tivesse de ficar 30 segundos a olhar nos olhos de alguém, quem é que escolhia? E não pode ser família ou amigos.
Escolheria o Bono, porque nunca vi os olhos dele. Está sempre de óculos de sol, até dentro de casa.

É pai…. O que é que o assusta mais?
[Silêncio] Quando o meu filho me diz para sair do telemóvel… Devia ser ao contrário. Mas posso mostrar-te vídeos dele a dizer-me para sair do telefone.

Qual foi o pior nome que sugeriram para o seu filho?
João. [risos] Porque nós já temos muitos João no escritório.

[Devo um pedido de desculpas] À minha mulher. Em alguma altura do dia, muito provavelmente, vou ter de lhe pedir desculpa. Ela é tão incrível no apoio que me dá... Fazer o que faço significa que passo muito tempo a viajar. Nós estamos juntos há 12 ou 13 anos e tenho muita sorte que ela seja tão tolerante"

Já foi alvo de bullying?
Quando praticava desporto, era mais pequeno [do que as outras crianças] e quando praticas râguebi ou futebol nessa idade, isso pode acontecer. Por isso, sim, fui.

A quem é que deve um pedido de desculpa e porquê?
À minha mulher. Em alguma altura do dia, muito provavelmente, vou ter de lhe pedir desculpa. Ela é tão incrível no apoio que me dá… Fazer o que faço significa que passo muito tempo a viajar. Nós estamos juntos há 12 ou 13 anos e tenho muita sorte que ela seja tão tolerante.

Quem é que lhe deve um pedido de desculpas e porquê?
[Silêncio] Não acho que haja… Não penso muito nisso. As pessoas dizem-me coisas más? Sim, talvez. Mas não penso nelas. Se alguém me deve um pedido de desculpas? Talvez devam… Mas não penso muito nisso também. Acho que sou muito positivo quando penso nas coisas.

Quando foi a última vez que chorou em frente a uma pessoa e porquê?
Vi um filme com uma atriz irlandesa, a Saoirse Ronan, que foi para Brooklyn. É um filme que se chama “Brooklyn”, que fala de uma jovem irlandesa que, basicamente, tem de emigrar. E esta é a história de milhões de jovens durante quase centenas de anos da história da Irlanda… Achei que era um filme muito emocionante. Muito triste.

[Veja o trailer de “Brooklyn”]

Para quem é que vai o seu maior obrigada e porquê?
Para a minha mulher. Porque ela é a minha principal conselheira, a pessoa com quem falo quando tenho de lidar com as situações mais difíceis do meu trabalho. Ela tem muita experiência de vida e é muito sábia.

Qual foi a pergunta mais estranha que já lhe fizeram?
[Silêncio] Não sei… Oh, quem me dera lembrar-me. Qual foi a pergunta mais estranha que me fizeram? Esta pergunta é muito boa. [Silêncio] Tenho a certeza que… Hummm….. [Silêncio] Não me lembro de nenhuma… Quer dizer, provavelmente na escola, quando os professores perguntavam do tipo “queres que ligue à tua mãe por causa disso”? E ficava “oh não, isto é uma ideia terrível”. Mas estranha ou que me envergonhe? Não me lembro… Oh, afinal, lembro-me. Acabei de me lembrar de um momento estranho… Não, eu não posso partilhar isto [risos].

Tem tempo, só falta fazer uma pergunta…
[Numa mudança repentina] Oh não, eu conto a história. Quando estava na universidade, no primeiro ano, havia um programa no qual toda a gente tinha de participar e fazer um check-up às doenças sexualmente transmissíveis. E, na altura, jogava ténis. Algumas das pessoas com quem jogava ténis eram mulheres mais velhas, com 27 ou 28 anos, e eram médicas.

Então, no dia em que fui ao hospital fazer este check-up, tinha um jantar em casa de uma destas jogadoras mulheres, com outros jogadores. E estava muito nervoso por ir fazer o check-up. Quando estou no hospital, ouço uma voz a dizer “próximo” e pensei: “Eu conheço esta voz, parece-se tanto com a voz da rapariga a cuja casa vou jantar daqui a duas horas”. E, momentos depois, viro a esquina e fiquei… “Oh meu Deus!” E foi mais ou menos do género: “Como é que estás? O jantar vai ser fantástico, agora tira as tuas calças”. [risos] Era um jovem de 18 anos e foi o momento mais embaraçoso da minha vida, naquela altura. O jantar, na verdade, depois correu muito bem.

Qual foi a pior entrevista que já lhe fizeram?
Hum… Não sei, por acaso não sei se tive alguma entrevista má. Houve entrevistas na Irlanda, onde os jornalistas são muito… Acho que eles acreditam que estão a fazer a coisa certa, mas estão com muito medo de fazer o seu trabalho. Estou muito interessado em questões de poder, particularmente na Irlanda, em questões de poder privado e como este interage com a política, mas isto é muitas vezes um assunto tabu entre um grande número de jornalistas na Irlanda. Não porque são maus jornalistas, mas porque as lei da liberdade de expressão na Irlanda são das mais restritivas do mundo ocidental. E é muito difícil seres jornalista e fazeres as perguntas difíceis que, muitas vezes, noutros países, os jornalistas fazem. E com a passagem do tempo, o jornalismo que sobreviveu sofreu de uma espécie de Síndrome de Estocolmo e eles pura e simplesmente têm medo de fazer o seu trabalho e de pôr em cima da mesa perguntas terríveis.

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