Índice
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[Este é o décimo terceiro de catorze artigos sobre a civilização ocidental, abordando, entre outros aspectos, a sua génese, a imagem que tem de si mesma e do seu papel na história, a forma como o resto do mundo a vê e o momento de crise que actualmente atravessa. Os artigos anteriores podem ser lidos aqui:]
- Civilização ocidental: Uma história de miscigenação
- Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?
- Civilização ocidental: O fardo do homem branco
- Civilização ocidental: A Sociedade Internacional para a Supressão da Selvajaria
- Civilização ocidental: Um conceito volátil
- Civilização ocidental: O Grande Cisma de 2025 d.C.
- Civilização ocidental: Como salvá-la dos seus salvadores?
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 1: Poder e dinheiro
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 2: Religião
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 3: Freios e contrapesos
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 4: Liberdades
- Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce
Iluminismo Negro: Acelerar até à ruptura
O facto de a política nas democracias de modelo ocidental ter sido, em boa parte, esvaziada de ideologia, como se viu no artigo anterior desta série, não significa que não haja quem continue a levar esta muito a sério e, longe dos holofotes e do estardalhaço frívolo e insubstancial dos comícios e “arruadas” e dos debates, acalorados na aparência, mas essencialmente teatrais, que saturam o espaço mediático por ocasião das campanhas eleitorais, congemine elaborados sistemas de organização da sociedade, destinados a substituir as mundividências tradicionais, que consideram ser obsoletas e completamente inadequadas ao mundo tecnológico em mudança incessante em que vivemos. Entre as correntes político-filosóficas nascidas no século XXI está o “Iluminismo Negro” ou “neo-reaccionarismo” ou, abreviadamente, “NRx” (que poderia ser o nome de um filho de Elon Musk).
No seu tempo, o Iluminismo suscitou um movimento de reacção, que lhe reprovava a ênfase excessiva na razão, na ciência e no universalismo, a rejeição da religião, o desprezo pelas tradições e pela história e a menorização das emoções e da subjectividade e que o acusava de promover o totalitarismo, apresentando como exemplo os excessos da Revolução Francesa (em particular o período do Terror). O Contra-Iluminismo floresceu na viragem dos séculos XVIII-XIX, beneficiando da ascensão do Proto-Romantismo (Sturm und Drang) e do Romantismo, e foi desvanecendo-se ao longo do século XIX.
A Justiça Divina abate-se sobre uma estátua de Voltaire, uma das figuras mais odiadas pelos contra-iluministas. Gravura anónima de 1773
Apesar de se opor aos valores iluministas, o Iluminismo Negro nada tem em comum com o Contra-Iluminismo: defende que a sociedade deve ser governada pela razão e pelo calculismo e, longe de rejeitar o progresso, adere à teoria aceleracionista, que preconiza a aceleração e a intensificação do progresso até um ponto de ruptura, que aniquile as caducas estruturas sociais do passado e permita a emergência de uma sociedade radicalmente diferente da actual. O aceleracionismo nasceu da mente perturbada do filósofo Nick Land, na viragem dos séculos XX/XXI, ainda que o movimento só tenha sido baptizado em 2010, pelo filósofo Benjamin Noys, que reaproveitou um termo cunhado pelo escritor de ficção científica Roger Zelazny no romance Lord of light (1967).
Nick Land
Em contraste com a parte da extrema-direita populista que se inspira em O senhor dos anéis, vendo nele uma exaltação do conservadorismo, das tradições e de valores civilizacionais imutáveis e da luta que é necessário travar para os defender das forças maléficas que pretendem corrompê-los (ver capítulo “Hobbits contra orcs” em Civilização ocidental: Como salvá-la dos seus salvadores?), o Iluminismo Negro tem particular apreço pelo género cyberpunk e pelas suas visões de um tempo pós-humano, em que a inovação tecnológica, potenciada pelo capitalismo desregulado, atinge um ritmo tão frenético que produz um formidável desenvolvimento do espírito humano, que o libertará das limitações do saco de carne, sangue e ossos em que está enclausurado e o converterá numa superinteligência – aquilo a que os futurologistas da estirpe de Ray Kurzweil chamam Singularidade Tecnológica, ou simplesmente Singularidade. Na perspectiva de Land, a democracia liberal e as políticas igualitárias estão a retardar o ansiado advento da Singularidade Tecnocapitalista, pelo que devem ser combatidas por todos os meios.
Ray Kurzweil
Os pais fundadores do Iluminismo Negro
O britânico Nick Land (n.1962) fez parte da Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), um grupo de investigação, associado à Universidade de Warwick (Reino Unido), cujas especulações sobre o desenvolvimento tecnológico e o mundo cibernético se inspiravam em pensadores radicais de esquerda, conotados com o pós-estruturalismo – corrente filosófica que, ironicamente, também forneceu, por outras vias, inspiração para o wokismo. As especulações do grupo, que, a partir do final da década de 1990, passou a ser liderado, na prática, por Land, foram ganhando cariz cada vez mais esotérico, ocultista e apocalíptico, de forma que a extrema-direita dos nossos dias não hesitaria em identificar a CCRU como um dos muitos antros de lunáticos de esquerda radical que medram no meio universitário à custa dos contribuintes e em exigir o fim do seu financiamento e a sua extinção. A espiral de delírio em que a CCRU entrou – impulsionada pelo consumo desregrado de anfetaminas por Land – levou a que a Universidade de Warwick se dissociasse do grupo, que acabou por extinguir-se após Land ter sofrido um esgotamento nervoso, decorrente do abuso de estupefacientes. Após alguns anos “fora de circulação”, Land regressou ao meio universitário, agora com as suas teorias mirabolantes expurgadas das origens esquerdistas e integrando elementos de extrema-direita.
O outro pai-fundador do Iluminismo Negro é Curtis Yarvin (n.1973), um engenheiro de software reconvertido em ideólogo/filósofo, que, por vezes, escreve sob o pseudónimo Mencius Moldbug. É a Moldbug que é creditada a principal obra de Yarvin, o manifesto “An open letter to open-minded progressives” (Uma carta aberta aos progressistas de mente aberta), de 2008. Nele, Yarvin expende uma teoria conspiracionista com fortes afinidades com crenças do movimento MAGA: a de que, nas últimas décadas, os EUA têm sido realmente governados pelas universidades, pelos mass media ditos “de referência” (ou seja, as “fake news”), pela indústria do cinema de Hollywood e pelos altos quadros da burocracia estatal, entidades e indivíduos cuja orientação é marcadamente “comunista” e que trabalham com afã para inculcar nas massas valores progressistas e a submissão às normas da correcção política.
Curtis Yarvin
Yarvin chama a este conjunto de instituições a “Catedral”, equipara o controlo que esta exerce sobre a sociedade de hoje àquele que a Igreja exerceu em tempos e usa o termo “igreja” para designar qualquer “organização ou movimento que diz às pessoas o que devem pensar”. Yarvin afirma que é fácil “antever exactamente quais serão as políticas de Washington daqui a 20 anos. […] Serão a implementação das ideias que hoje estão a ser ensinadas em Harvard, Yale e Berkeley”, ou seja, as universidades de elite dos EUA, e, em 2021, preconizou que, “uma vez que a universidade está no coração do velho regime, é absolutamente indispensável para o triunfo de qualquer regime que todas as universidades hoje acreditadas sejam exterminadas física e economicamente” – não se sabe se Trump terá ouvido este apelo, mas a sua actuação no segundo mandato tem ido ao encontro dos desígnios de Yarvin.
Yarvin rejeita o igualitarismo, a democracia e o seu sistema de freios e contrapesos e advoga um regime autoritário de índole tecnofeudalista ou neomonárquica-empresarial: “Se os americanos querem mudar de governo, precisam de deixar a sua aversão a ditadores. […] Uma solução seria contratar dois executivos e fazê-los trabalhar em conjunto. Na verdade, não há outra solução”. Para Yarvin, a sociedade deve ser fortemente estratificada e esta estratificação tem uma componente racial, pois, no seu entender, há raças com maior inclinação natural para a servidão do que outras e o QI dos brancos é superior ao dos negros. Se Yarvin tem planos heterodoxos para o futuro, a sua perspectiva do passado também se desvia do que é consensual: no que se refere à II Guerra Mundial, por exemplo, entende que a Alemanha invadiu outros países em legítima defesa e que, se hoje predomina a ideia de que a Alemanha foi a agressora, é porque a esquerda forjou e propagou essa “narrativa”.
Se Nick Land inspirou o pensamento de Yarvin, os ensaios de Yarvin haveriam, por sua vez, de levar Land a publicar, em 2012, “The Dark Enlightenment”, ensaio em que desenvolve as ideias de Yarvin e as funde com as suas e em que o termo “Iluminismo Negro” foi empregado pela primeira vez. Neste ensaio, Land proclama que “chamar à crença numa substancial igualdade humana uma superstição é um insulto à superstição”, vaticina que seria “necessária violência numa escala genocida para nos aproximarmos sequer de um programa igualitário prático” e reduz a democracia à “formação de coligações distributivas – maiorias eleitorais cimentadas por um interesse comum num padrão de roubo colectivamente vantajoso”.
Interlúdio: Num futuro distante, noutra galáxia…
É desconcertante que o termo “aceleracionismo”, colado por Benjamin Noys à mundividência elitista, cínica e impiedosa de Land e Yarvin, tenha sido inspirado pelo Lord of light de Zelazny, uma vez que, neste romance (premiado em 1968 com o Hugo Award, a distinção máxima no meio da literatura de ficção científica), a filosofia aceleracionista, professada pelo protagonista, Sam, se inspira fortemente no budismo e preconiza que toda a população deve ter acesso à tecnologia, ao conhecimento e à vida eterna (mediante sucessivas transferências do espírito para um novo corpo), prerrogativas que, no planeta em que decorre a acção, são exclusivas de uma minúscula casta que se elevou a um patamar próximo da divindade e assumiu os nomes e personalidades de deuses do panteão hinduísta.
Primeira edição de Lord of light (1967)
A casta superior, que vive num “paraíso artificial” (designado no livro como “Heaven”), a que as massas não têm acesso, submete estas a um jugo opressivo e conserva-as num estádio de obscurantismo, superstição e desenvolvimento tecnológico incipiente, por recear que o acesso daquelas ao conhecimento ameace o seu estatuto de privilégio. Sam, também conhecido como Mahasamatman, é um “renegado” – era, originalmente, membro da casta semidivina – que planeia uma revolta das massas contra os “deuses”, contando com o auxílio do próprio Buda, que exorta as massas a rejeitar o credo de obediência cega aos “deuses” e a abraçarem a não-violência e a libertarem-se das ilusões do mundo material.
Lord of light espelha o embevecimento da contracultura ocidental da segunda metade da década de 1960 pelas religiões e filosofias orientais e enferma de um enredo tortuoso e artificioso, mas, independentemente do seu maior ou menor valor literário, o que importa é que o seu aceleracionismo democrático, inclusivo, pacifista e benévolo está nos antípodas do aceleracionismo tecnofeudalista, elitista, aguerrido e opressivo de Land e Yarvin.
Futurismo: Um precursor distante do Iluminismo Negro
É tentador estabelecer um paralelismo entre o Iluminismo Negro e um movimento estético, filosófico e social que floresceu, fugazmente, cerca de um século antes, em Itália: o futurismo. Ambos são fascinados pela velocidade, pela virilidade, pela mudança violenta, pela crueldade, pela destruição da velha ordem, por um recomeço a partir de uma tábua rasa, e abominam o passado, a tradição e o feminismo e vêem as mulheres como criaturas inferiores, cuja principal função é a propagação da espécie.
O Manifesto del Futurismo (1909), de Filippo Tommaso Marinetti, figura cimeira e ideólogo-mor do movimento, proclamava: “Não há outra beleza que não seja a da luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo poderá ser uma obra-prima. […] Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias por que vale a pena morrer e o desprezo pela mulher. Queremos demolir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo e combater contra o moralismo, o feminismo e todas as cobardias oportunistas e utilitárias. […] Lançamos ao mundo este nosso manifesto de violência avassaladora e incendiária, com o qual fundamos o Futurismo, porque queremos libertar este país da sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários. Durante muito tempo, a Itália foi uma feira-da-ladra. Queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem de inúmeros cemitérios. Museus: cemitérios! […] Quereis desperdiçar todas as vossas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do passado, da qual só podereis sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisoteados? […] Vinde, pois, alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los! Vamos! Ateai fogo às estantes das bibliotecas! Desviai o curso dos canais, para inundar os museus! Oh, a alegria de ver boiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas! Empunhai as picaretas, os machados, os martelos e demoli, demoli sem piedade as cidades veneradas!”.
Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944)
Quer o futurismo quer o Iluminismo Negro foram/são inspiradores para a extrema-direita: o primeiro para o fascismo italiano, o segundo para algumas figuras cimeiras do movimento MAGA. Em Itália, o Partido Político Futurista, fundado por Marinetti no início de 1918, incorporou-se, em 1919, nos Fasci Italiani di Combattimento, fundados por Mussolini, que, em 1921, seriam reconfigurados como Partido Nacional Fascista. Marinetti deu relevante contributo para a ideologia fascista, ao redigir, em parceria com o sindicalista nacionalista Alceste de Ambris, o manifesto dos Fasci Italiani di Combattimento, surgido em 1919. A ascensão ao poder de Mussolini, em 1922, deu forte impulso ao futurismo, mas o idílio entre futuristas e fascistas durou pouco tempo, pois Mussolini recusou fazer do futurismo a “arte oficial do regime” e, em 1926, não querendo assarapantar as massas com radicalismos descabelados, definiu a arte fascista como “simultaneamente tradicionalista e moderna, olhando simultaneamente para o passado e para o futuro”. O tradicionalismo prevaleceria e, no final da década de 1930, o regime fascista passou a rotular a arte moderna – futurismo incluído – como “arte degenerada”, alinhando-se com a posição do nazismo na Alemanha. Apesar de desconsolado com o endosso pelo regime da tradição e das instituições “caducas”, Marinetti manteve-se fiel ao fascismo até à morte, em 1944.
Figuras de proa do futurismo italiano, frente à redacção do jornal Le Figaro, Paris, 1912: da esquerda para a direita, Luigi Russolo (compositor, pintor e inventor de instrumentos musicais), Carlo Carrà (pintor e teórico), Filippo Tommaso Marinetti, Umberto Boccioni (pintor e escultor), Gino Severini (pintor)
Iluminismo Negro: Uma ideologia de nicho?
Há quem entenda que as teorias do Iluminismo Negro não merecem qualquer atenção e não passam de sonhos febris, de delírios tão radicais e extravagantes que apenas serão capazes de despertar entusiasmo em meia dúzia de nerds viciados em podcasts sobre teorias conspirativas retorcidas e filosofias herméticas e que a ideia de que poderão exercer influência no curso da história é absurda. No manifesto “An open letter to open-minded progressives”, Curtis Yarvin admite que meia dúzia de filósofos, por válidos que sejam os seus raciocínios e por sólidos que sejam os seus planos de acção, são incapazes de fazer uma revolução – para que os filósofos consigam derrubar um regime é necessário que consigam arregimentar multidões: “O que é preciso é uma combinação de filósofo e multidão – uma mistura invulgar e volátil, extremamente potente e muito pouco natural”. Porém, faz notar, hoje a tecnologia disponibiliza um catalisador que permite essa combinação: “Na Internet, as ideias propagam-se desvairadamente. E é muito mais fácil que se propaguem do sábio para o imbecil do que no sentido inverso”.
A primeira afirmação é incontestável, mas a segunda está infestada de equívocos: 1) Yarvin assume fazer parte dos sábios, o que é contestável; 2) A Internet dá mais gás às ideias imbecis do que às ideias sensatas – basta conferir quais são os “conteúdos” mais populares nas redes (ditas) sociais; 3) O utilizador típico da Internet não está disponível para ler e analisar textos longos e muito menos para assimilar elaboradas teorias político-filosóficas, sejam estas lunáticas ou sensatas. Ao contrário do que Yarvin antevia, a Internet não contribuiu para difundir maciçamente o Iluminismo Negro – todavia, este acabou por chegar a quem importava: a tecnoplutocratas como Elon Musk, Peter Thiel (PayPal, Palantir, etc.), Marc Andreessen (Mosaic, Netscape, Andreessen Horowitz), Balaji Srinivasan (Counsyl, Coinbase, Andreessen Horowitz) e Jeff Bezos (Amazon), e a ideólogos do movimento MAGA como J.D. Vance, Steve Bannon e Michael Anton (actual director de políticas de planeamento do Departamento de Estado).
Foi apontado nos capítulos “Testosterona, misoginia e política” e “As generalizações e as suas excepções” de Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce, que, embora a extrema-direita populista tenha inclinações misóginas e seja mais popular entre o eleitorado masculino, alguns dos maiores partidos desta área são liderados por mulheres. Já quando se examina a lista de profetas e discípulos do Iluminismo Negro salta à vista que é um clube em que “menina não entra”, abrindo-se uma única excepção para Ayn Rand, que pode ser contada como uma precursora do movimento. Não por acaso, as tecnologias de informação (na sua acepção mais ampla) e a ficção científica também são áreas de esmagador domínio masculino e o mesmo acontece com a elite de Silicon Valley (embora tenha havido mulheres em posições de liderança no Facebook, na Oracle ou na Yahoo).
Há algo de adolescente nerd no fascínio dos tecnoplutocratas pelas teses mórbidas do Iluminismo Negro, uma propensão que foi denunciada em Odeio a Internet (2016, I hate the Internet), de Jarett Kobek, nomeadamente quando a personagem J. Karacehennem zomba da atracção da elite de Silicon Valley pelas “tépidas ideias pseudo-filosóficas de Ayn Rand e da ficção científica de porcaria” e quando se diz do tecnoplutocrata (ficcional) Erik Willems, que, “como muitos dos homens que lidam com tecnologia na economia da informação, […] tinha um profundo afecto por literatura juvenil, o que quer dizer que gostava de ficção científica, […], de Robert Heinlein, […] de J.R.R. Tolkien […] e de Ayn Rand” (ver capítulo “A Internet é ideologicamente neutra?” em “Odeio a Internet”: A rede vai salvar-nos ou ser o nosso fim?).
“Não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis”
Um dos destacados elementos da elite de Silicon Valley que parece ter ficado intoxicado com o consumo de “ficção científica de porcaria” é Peter Thiel. Este começou por ser conhecido como empresário de sucesso, associado a nomes como PayPal, Arda Capital, Lembas LLC, Mithril Capital, Palantir Technologies, Rivendell LLC, Valar Ventures e Anduril Industries, mas tem vindo a ganhar papel cada vez mais proeminente também como influencer político – parte da sua notoriedade resulta da sua inclinação para, sistematicamente, defender ideias ao arrepio do senso comum (o que, na língua inglesa, se designa por “contrarian” e que, em português, equivale a “ser do contra”). Thiel tem muitos pontos em comum com Elon Musk: nasceu fora dos EUA (na Alemanha), viveu parte da juventude na África do Sul, fez fortuna no sector tecnológico nos EUA ao te a audácia de investir em projectos pioneiros. Durante algum tempo, Thiel e Musk estiveram envolvidos na PayPal – resultante da fusão da X.com de Musk e da Confinity de Thiel – ainda que, por vezes, em posições divergentes e até antagónicas. Além disto, ambos são aficionados da ficção científica e endossam mundividências libertárias, elitistas, tecnocráticas e anti-humanistas.
Thiel deu emprego a J.D. Vance na Mithril Capital em 2016-17 e apoiou as subsequentes aventuras empresariais de Vance, bem como a sua candidatura a senador pelo Ohio (com 10 milhões de dólares). Em 2022, foi um dos primeiros (senão o primeiro) tecnoplutocrata a apoiar publicamente a terceira candidatura presidencial de Trump (para a qual contribuiu com 20 milhões de dólares), e foi ele quem, em 2021, promoveu um encontro entre Vance e Trump que teve o condão de mudar a opinião de Vance sobre Trump, passando de “o Hitler da América” para o Ungido por Deus (ver capítulo “J.D. Vance” em Donald Trump pelas palavras dos seus correligionários). Dado que Thiel tem funcionado como mentor espiritual de Vance desde 2016, é provável que tenha sido Thiel a iniciar Vance nos arcanos do Iluminismo Negro.
Peter Thiel discursa na Republican National Convention de 2016
Eis alguns excertos do pensamento político-filosófico de Thiel, provenientes do ensaio “The education of a Libertarian” (A educação de um libertário), de 2009: “Não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis”; “A década de 1920 foi a última na história dos EUA em que podíamos ser optimistas em relação à política. Desde então, o enorme aumento dos beneficiários da segurança social e a extensão do direito de voto às mulheres […] tornaram a noção de ‘democracia capitalista’ num oxímoro”; “A grande missão dos libertários é descobrir uma forma de evitarmos a política em todas as suas manifestações”. Para cumprir tal desígnio, Thiel diz ter “focado todos os meus esforços em novas tecnologias que sejam capazes de criar um novo espaço de liberdade”, esforços que Thiel tem dividido pelo ciberespaço e pela colonização do espaço exterior (mais uma afinidade com Musk). Thiel antevê que “o destino do nosso mundo poderá depender do esforço de um só indivíduo que construa ou difunda a maquinaria da liberdade que tornará o mundo seguro para o capitalismo”.
No ensaio “The end of the future” (O fim do futuro), publicado na National Review de 03.11.2011, Thiel defendeu que “a moderna civilização ocidental firma-se nos plintos gémeos da ciência e da tecnologia, domínios inter-relacionados que garantem que a história de progresso ilimitado do século XIX se mantém intacta” e que funcionam como barreira contra a ideia de que o Ocidente se encontra num processo de “decadência cultural, que vai do colapso da arte e da literatura depois de 1945 ao totalitarismo suave da correcção política nos media e na academia”. No século XXI, face à competição com a China e a Índia e à necessidade de “crescimento económico acelerado, para corresponder às expectativas dos nossos planos de reforma e do nosso Estado social em roda livre”, necessitamos, mais do que nunca, da ciência e da tecnologia para resgatarmos a civilização ocidental do seu “profundo buraco económico e financeiro”.
Numa entrevista ao The New York Times, publicada a 11.01.2017, a propósito da gravação em que Donald Trump revelou a sua cavalheiresca técnica de sedução “grab-them-by-the pussy”, Thiel observou que “por um lado, a gravação é claramente ofensiva e inapropriada. Por outro lado, inquieta-me que que uma parte de Silicon Valley sofra de hipercorrecção política no que se refere ao sexo”. Nessa entrevista também explicou a razão de, ao arrepio do que era, à data, a posição dominante em Silicon Valley, um futurista como ele ter financiado a campanha de Trump, visto por muitos como representante do conservadorismo: “Mesmo que alguns aspectos de Trump sejam ‘retro’ e pareçam ter raízes no passado, creio que muitas pessoas querem regressar a um passado que era futurista – The Jetsons, Star Trek são datados mas futuristas”. Thiel admitiu que a campanha de Trump tivera “um tom apocalíptico”, mas considerou que “Trump é, de certa forma, divertido, por isso é possível ser apocalíptico e divertido ao mesmo tempo. É uma combinação insólita, mas é, de algum modo, muito poderosa psicologicamente”.
The Jetsons, série de animação da Hanna-Barbera, emitida originalmente em 1962-63
Numa entrevista ao podcast Interesting Times, de Ross Douthat, a 26.06.2025, que recebeu o revelador título de “AI, Mars and immortality: Are we dreaming big enough?”, Thiel denunciou o ambientalismo nestes termos: “Não sei se é suficientemente poderoso para criar um Estado totalitário global, mas é tremendamente poderoso. […] É a única coisa em que as pessoas ainda acreditam na Europa. Elas acreditam nessa coisa verde mais do que na lei islâmica da sharia ou no controlo totalitário dos comunistas chineses. As únicas [ideias de futuro] disponíveis na Europa são o [movimento] verde, a sharia e o Estado totalitário comunista. E o [movimento] verde é, de longe, o mais forte”. Thiel vê no ambientalismo o Anticristo do século XXI: “A forma de o Anticristo dominar o mundo é falar sem parar do Armagedão. É falar sem parar dos riscos existenciais”. Nos séculos XVII-XVIII o Anticristo assumia a forma de “um génio tecnológico maligno, um cientista malévolo que inventa uma máquina para dominar o mundo. […] No nosso tempo, o que tem ressonância política é o oposto, […] é dizer que temos de travar a ciência. […] No século XVII, seria capaz de imaginar alguém com o perfil de Dr. Strangelove ou de Edward Teller [o “pai” da bomba de hidrogénio] a conquistar o domínio do mundo. No nosso tempo, é muito mais provável que seja Greta Thunberg”.
Consoante as crenças religiosas e ideológicas e o grau de alienação dos proponentes, o Anticristo tem sido, nos anos mais recentes, identificado com Vladimir Putin, Donald Trump, Barack Obama, George Soros, Emmanuel Macron ou o papa Leão XIV, mas só o génio de Peter Thiel foi capaz de intuir que a Besta mencionada no Livro do Apocalipse ludibriou todos ao assumir a inerme aparência de uma rapariguinha de tranças que fazia gazeta às aulas para chamar a atenção do mundo para as alterações climáticas.
Greta Tintin Eleonora Ernman Thunberg em 2018, numa altura em que aparentava ter 15 anos de idade mas já acumulava milénios de astúcia e perfídia
Outros adeptos do Iluminismo Negro
Outra figura relevante do Iluminismo Negro é o empresário tecnológico Marc Andreessen (n. 1971), que foi um dos financiadores da compra do Twitter por Elon Musk e que, tal como outros magnatas de Silicon Valley que costumavam apoiar os Democratas, desertou para o campo MAGA quando Joe Biden ousou propor uma taxa mínima de imposto sobre rendimentos para os multimilionários. No ensaio “Techno-Optimist Manifesto” (2023), Andreessen expôs a sua visão da tecnologia como fundamento da civilização e louvou-a como “a glória da ambição e da realização humanas, a lança do progresso e a consumação do nosso potencial”. Para Andreessen, as preocupações com sustentabilidade e conservação da natureza não fazem sentido, pois “não existe um conflito inerente entre a máquina tecnocapitalista e o meio natural”. A sua fé no tecnocapitalismo é ilimitada: “Acreditamos que a economia de mercado é uma máquina de descobrir, uma forma de inteligência – um sistema exploratório, evolutivo e adaptativo”.
Marc Andreessen. Num futuro não muito distante, a biónica permitirá que todos os seres humanos possuam um crânio com esta forma, que permitirá albergar uma interface com o ChatGPT
Balaji Srinivasan (n.1980), co-fundador da Counsyl (testes genéticos), ex-director técnico da Coinbase (corretora de criptomoedas) e sócio da Andreessen Horowitz (empresa de capital de risco), publicou em 2022 o livro The network state: How to start a new country, em que sugere substituir o caduco conceito de país por uma comunidade digital que assume a forma de uma rede disseminada por todo o planeta, cujos elementos podem ser um único indivíduo, ou toda uma cidade ou qualquer dimensão entre estas; será unida pela Internet e por uma criptomoeda e regida por “um governo consensual limitado por um contrato social ‘smart’” (qualificação que insinua que todos os contratos sociais que têm estado até agora na base das civilizações são “estúpidos”). Se, com as criptomoedas, a criação e emissão de moeda deixou de ser monopólio do Estado e passou a estar ao alcance de qualquer empreendedor individual, com o “Estado em rede” (ou “sociedade startup”) qualquer um pode fundar um país. Srinivasan começou por argumentar que os “estados em rede” serão muito mais democráticos do que as democracias liberais tradicionais, mas em entrevistas a podcasts revelou o seu pendor autocrático, ao apelar para que os tecnologicamente dotados tomem o poder, e ao advogar publicamente a exclusão dos Democratas do “network state” e o suborno das autoridades como forma de evadir os mecanismos de regulação. Srinivasan definiu sinteticamente o “estado em rede” como “uma rede social com uma inovação moral”. Atendendo à empatia, fraternidade e harmonia que as redes sociais têm fomentado pelo mundo fora, adivinha-se que o “Estado em rede” irá criar um Paraíso na Terra.
Balaji Srinivasan
Todos os próceres e teóricos do neo-reaccionarismo estão em sintonia na demanda do poder absoluto. Eles agitam freneticamente a bandeira da liberdade, mas a liberdade que têm em vista é a sua. Quando se opõem a que sejam criadas restrições ou moratórias ao desenvolvimento e aplicação da IA, quando reivindicam a desregulação da actividade económica e financeira e o desmantelamento da burocracia estatal (a começar pelas entidades reguladoras), o que querem realmente é desimpedir o caminho para todos os seus caprichos e desígnios. É por isso que tendem a diabolizar as agências e estruturas estatais e supra-estatais (ONU, União Europeia), já que estas definem linhas de orientação, padrões e regulamentações, que as nações individuais já não têm poder para impor.
Os tecnoplutocratas têm vindo a impor-se no mundo dos negócios – no top 10 da mais recente lista de bilionários da revista Forbes, sete pertencem ao sector tecnológico: Elon Musk, Mark Zuckerberg (Meta Platforms), Jeff Bezos (Amazon), Larry Ellison (Oracle), Larry Page (Google), Sergey Brin (Google) e Steve Ballmer (Microsoft). Porém, a acumulação de fortunas colossais não lhes basta – a sua ambição é o poder absoluto à escala planetária.
“I am the dark gothic MAGA”
A “narrativa”, subscrita por muitos comentadores de direita e de esquerda, de que o movimento MAGA é constituído, essencialmente, pelos cidadãos das zonas rurais e dos polos industriais declinantes (a “América em ruínas” carpida por J.D. Vance no seu pífio best-seller), a quem a globalização deixou na miséria e que foram esquecidas pelas elites urbanas do Partido Democrata, absortas na promoção de causas identitárias cada vez mais abstrusas, tem um fundo de verdade, mas peca por excessivo simplismo (ver capítulo “A irresponsável leveza do voto” em Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce). O segmento demográfico do americano “de bem”, trabalhador, honesto, bem-intencionado e pouco instruído, revoltado com o desprezo a que foi votado, até poderá ser dominante entre o eleitorado trumpista, mas este inclui pessoas com outros perfis e motivações, e a constelação de figuras que orbita em torno de Donald Trump em 2025 exibe ainda maior diversidade.
Elon Musk fez questão de assinalar que não pertencia ao estereótipo do trumpista redneck, simplório, ignaro e temente a Deus, quando se apresentou num comício de campanha de Donald Trump no Madison Square Garden, Nova Iorque, em 27.10.2024, integralmente vestido de negro e com um boné negro com os dizeres “Make America great again” em caracteres góticos e proclamou “I am the dark gothic MAGA”.
[Elon Musk no comício de Trump no Madison Square Garden, em 27.10.2024:]
O autoproclamado “MAGA gótico negro” está em sintonia com muitas teses do Iluminismo Negro, nomeadamente na convicção de que a democracia liberal favorece o desenvolvimento de um aparelho de Estado gigantesco e ineficiente, que conduz ao declínio civilizacional e que, para evitar tal destino, é desejável que a sociedade seja governada em moldes empresariais por um Rei-CEO. Ou, nas palavras de Musk, “É uma falsa dicotomia olhar para o governo e a indústria como coisas distintas […] O Governo é a empresa por excelência […] um monopólio que não pode falir” (na Wall Street Journal CEO Summit, Dezembro de 2020). Pode ver-se na dupla Trump-Musk, que governou os EUA entre 20 de Janeiro e 30 de Maio de 2025, uma concretização bicéfala da figura do Rei-CEO advogada por Yarvin – que, em 2011, antes mesmo de Trump ter entrado na liça política, elegera este como sendo “biologicamente adequado” (!) para ser o monarca dos EUA e, em 2022, recomendara que Trump, caso fosse eleito, confiasse a Musk a direcção executiva da Administração.
Musk não foi nomeado para tal posição, mas foi-lhe dada carta branca para gerir o DoGE (Department of Government Efficiency), que iria, supostamente, acabar com o desperdício, a redundância e a ineficiência no aparelho de Estado e poupar biliões de dólares aos contribuintes (ver capítulo “Um monstro difícil de matar” em Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 3: Freios e contrapesos). O DoGE foi a materialização da proposta feita em 2012 por Yarvin para a criação de um programa, que denominou RAGE (Retire All Government Employees), que se propunha “enviar para a reforma todos os funcionários do Estado” – uma ideia que J.D. Vance subscreveu, ainda que com uma variante: os lugares vacantes na administração não seriam extintos, mas ocupados pela “nossa gente”.
Que Musk tem simpatia pelo conceito de monarquia absoluta está patente na forma como gere as suas empresas e pelo facto de, em Março de 2021, se ter autoproclamado “TechnoKing” da Tesla (em vez de “CEO”). As tendências autocráticas de Musk coexistem com a promoção da substituição da democracia representativa pela democracia directa mediada pelas redes (ditas) sociais, como se depreende dos “referendos” que lança de vez em quando na rede social X e cujas respostas – vindas maciçamente de devotos seus e da “MAGA crowd” – interpreta como sendo “a vontade do povo”. Num “referendo” realizado no início de Julho passado (após se ter incompatibilizado com Trump), Musk lançou no X a pergunta “É tempo de criar um novo partido político na América que realmente represente os 80% que estão no meio?” e entendeu que os 65% de respostas afirmativas eram um inequívoco sinal de que ele mesmo deveria ser o fundador e líder de tal partido, que baptizou como America Party, nome que não só é flagrantemente populista como é desoladoramente banal. Independentemente do real empenho de Musk neste “terceiro partido”, há que levar em conta que o sistema eleitoral americano favorece fortemente a bipolarização e cria tremendos obstáculos à emergência de partidos que desafiem o duopólio instalado, seja qual for a sua natureza e a sua posição no espectro político (ver capítulos “Uma democracia 1.0” e “Um duopólio blindado” em Irmãos inimigos na América pt. 2).
Com ou sem America Party, o que importa sublinhar é que Musk não tem qualquer apreço pela democracia participativa – apenas recorre, quando lhe convém, a um simulacro digital e populista daquela, em que apenas são consultados os seus seguidores, na rede social de que é proprietário e que manipula, com o intuito de legitimar e promover a sua agenda e os seus interesses. Na democracia participativa concebida por Musk, a rede social X desempenha, supostamente, o papel que, na democracia participativa ateniense, cabia ao pnyx, ou seja, o local onde tinham lugar as assembleias populares, onde todos os cidadãos atenienses (que estavam longe de ser todos os habitantes de Atenas) tinham direito a exprimir-se e votar (se Musk adoptasse este termo, grafá-lo-ia certamente como “pnyX”). No fundo, a paixão de Musk pela democracia participativa é similar à sua paixão pela liberdade de expressão – como escreveu Robert Reich, que foi secretário do Trabalho de Bill Clinton (em 1993-97), “o verdadeiro objectivo de Musk não tem nada a ver com a liberdade dos outros. O que pretende é ter liberdade para usar o seu enorme poder sem ser tolhido por leis, regulamentos e accionistas e pela competição do mercado” (Twitter, 25.04.2022).
O pnyx, com a Acrópole em fundo
Génio visionário ou arquivilão de BD de ficção científica?
Mesmo entre quem nutre pouca simpatia por Musk como pessoa e reprova o seu endosso da extrema-direita populista, há muitos que admiram o seu talento como empresário e o consideram um visionário. Porém, o visionarismo de Musk têm sido grandemente sobrestimado e muitos dos seus projectos não passam de fantasias adolescentes, alimentadas pelo voraz consumo de livros de ficção científica e comic books de super-heróis.
Entre esses projectos pueris está a produção em massa de robots humanóides, que, segundo o seu vaticínio, “impulsionarão a economia para níveis praticamente infinitos”. Voltou a propagandear esta visão no US-Saudi Investment Forum, que teve lugar em Maio de 2025, coincidindo com a visita de Trump à Península Arábica: “Encaminhamo-nos para um mundo radicalmente diferente, creio que um mundo bom, um mundo interessante. A minha previsão para os robots humanóides é que teremos dezenas de milhares de milhões deles a andar pela Terra. Creio que todos quererão possuir o seu robot pessoal. Podemos pensar nisso como cada um de nós ter o seu próprio C-3PO ou RD-D2, ou melhor ainda. Quem não quereria ter o seu próprio C-3PO ou RD-D2? Seria mesmo fixe. Creio que [o robot humanóide] irá também libertar uma quantidade imensa de potencial económico. Porque, qual é o produto da economia? É a produtividade vezes a população. A partir do momento em que tenhamos robots humanóides, o potencial do produto económico é tremendo, é mesmo ilimitado. Potencialmente, poderemos ter uma economia dez vezes maior do que a presente economia global, em que ninguém terá falta de nada. Por vezes, no [meio da] inteligência artificial fala-se de Rendimento Básico Universal. Creio que iremos ter antes um Rendimento Elevado Universal, em que qualquer pessoa pode desfrutar dos bens e serviços que quiser”.
[Elon Musk discursa no US-Saudi Investment Forum, Maio de 2025:]
Não há dúvida de que os rápidos progressos na robotização e na inteligência artificial irão induzir (já estão a induzir) mudanças dramáticas na economia e na sociedade, mas, até à data, nenhum dos progressos relevantes envolveu robots humanóides, nem é previsível que venha a envolver, num horizonte próximo. O robot humanóide é, meramente, uma fixação resultante da desequilibrada dieta intelectual de Musk em jovem, não uma resposta às necessidades reais da sociedade; é útil para encenar vídeos “pour épater le bourgeois”, proclamando que o futuro já está aí, e seduzirá os milionários ávidos por gadgets e brinquedos de luxo, mas tem limitada aplicação prática.
Mesmo que estas quimeras fossem viáveis do ponto de vista tecnológico e industrial, onde haveria no planeta recursos para produzir “dezenas de milhares de milhões” de robots humanóides deste nível de sofisticação? Onde iria o cidadão comum arranjar dinheiro para adquirir um deles? Será seguro encarregá-lo de pendurar a roupa para secar, de meter as crianças na cama, de desentupir o lava-louça e de dar banho ao cão? Como, exactamente, irão estes robots humanóides incrementar grandemente os rendimentos dos cidadãos seus proprietário e a produção de riqueza da sociedade? Quem tratará da manutenção deste exército de robots e os resgatará quando encravarem ou sofrerem acidentes? Pode Musk garantir que o custo de aquisição e os custos de operação e manutenção destas máquinas não excedem largamente o contributo efectivo que poderão dar para a criação de riqueza? Musk sugere que, graças à força de trabalho de robots humanóides, o PIB global irá aumentar por um facto dez, mas que contas fez para chegar a este valor? Porquê um factor dez e não cinco ou cinquenta? Musk promete que, na Era da Prosperidade Robótica Ilimitada, cada ser humano no planeta poderá desfrutar dos bens e serviços que o seu capricho dite, mas onde existem no planeta recursos para sustentar estes níveis de consumo estratosféricos, e, mesmo que existissem, como poderá o planeta lidar com a poluição decorrente de tão colossais níveis de produção e de consumo?
Optimus, o robot humanóide da Tesla
Os robots humanóides “avançados” que se anunciam para breve, terão preços acima de 100.000 dólares por unidade (e uma autonomia muito duvidosa), mas Musk tem anunciado que os Optimus, também conhecidos como Tesla Bots poderão ser comercializados a 20.000-30.000 dólares. Porém, há que tomar as promessas de Musk com muitos grãos de sal: desde que se tornou CEO da Tesla, em 2008, que Musk anuncia um veículo eléctrico barato, um “carro do povo”, e, todavia, continua a só comercializar modelos de gama alta; desde 2013 que Musk anuncia que os modelos da Tesla com condução 100% autónoma estão a um ano, no máximo dois anos, de distância e, todavia, esse horizonte não tem cessado de recuar; em 2019 anunciou que no final do ano seguinte rolariam nas estradas meio milhão de Tesla Cybercabs, um táxi 100% autónomo, todavia, a mais recente demonstração pública (encenada e controlada) deste prodígio revelou-se, mais uma vez, decepcionante e não há qualquer data prevista para a sua entrada ao serviço.
Protótipo de Tesla Cybercab, Novembro de 2024
É aterrador perceber que o homem mais rico do mundo, o guru idolatrado por centenas de milhões de pessoas, o líder empresarial que os governantes mais poderosos do mundo escutam num misto de veneração e temor, o gestor-prodígio a quem foi confiada a restruturação do Estado federal americano, pensa como um rapazola de 13 anos e não faz ideia de como funciona a economia. Mais do que a apresentação de um produto de elevado potencial a uma plateia de investidores, a intervenção de Musk no US-Saudi Investment Forum parece antes a redacção de um aluno do 7.º ano de escolaridade sobre o tema “Como será a vida no futuro?”.
Musk encarna um dos aspectos mais marcantes do Iluminismo Negro: uma conjugação de imaturidade emocional, inaptidão social, ingenuidade e “nerdice” com uma visão cínica, implacável, desumana e ferozmente competitiva da vida e da sociedade.
Elon Musk, fabricante de foguetões e filósofo político
O Arquitecto do Futuro
A outra grande obsessão de Musk, a colonização do espaço e a terraformação de planetas, é outra sandice proveniente do imaginário pueril da ficção científica (ver Um safari em Marte). Para Musk, a humanidade será multiplanetária ou extinguir-se-á. O argumento n.º 1 de Musk para desenvolver naves espaciais e colonizar outros planetas (eventualmente depois de os tornar mais habitáveis, através de “engenharia planetária”) é o de que “toda a vida na Terra acabará por ser destruída”, por “o Sol estar, gradualmente, a expandir-se”. Acontece que os astrónomos prevêem, efectivamente, a conversão do Sol numa gigante vermelha, engolindo Mercúrio e Vénus e calcinando a Terra, mas tal só terá lugar dentro de 5000 milhões de anos. Musk estima – sem apresentar fontes ou cálculos – que bastarão “apenas” 450 milhões de anos para que a intensificação da actividade do Sol torne a Terra inabitável, não parecendo dar-se conta do absurdo que é estar a preocupar-se com a sobrevivência da civilização num horizonte de 450 milhões de anos, quando se considera que o Homo sapiens surgiu há apenas 300.000 anos, as primeiras civilizações datam de há 5000-6000 anos e existem tantos desafios colossais para superar num horizonte de, digamos, 50 anos. O que é mais irónico é que o maior risco de a Terra se tornar, dentro de um século ou dois, incapaz de suportar uma civilização tão próspera e tecnologicamente complexa como a actual, reside precisamente em Elon Musk e noutros tecnoplutocratas e nos seus sonhos malsãos de uma sociedade hipertecnológica de abundância ilimitada, a que estará associada um voracíssimo consumo de recursos, uma copiosa emissão de poluentes e a disrupção dos sistemas biofísicos. A hipocrisia do discurso “ambientalista” de Musk revela-se na suas opções de vida, na gestão do seu império empresarial e na sua breve experiência no DoGE – sob a sua supervisão, 98% dos projectos da USAID que tinham uma componente de combate às acções climáticas foram trucidados pela moto-serra (segundo levantamento da ONG Refugees International).
A bucólica vida dos colonos marcianos
Os planos de Musk para Marte não se ficam pelos aspectos materiais; o preclaro génio também já delineou como será governado o planeta: “O mais provável é que a forma de governo em Marte seja uma democracia directa, não uma [democracia] representativa. Portanto, as pessoas votariam os assuntos directamente. O potencial para corrupção seria substancialmente diminuído numa democracia directa, por comparação com uma [democracia] representativa. Seria mais fácil remover uma lei do que criar uma. A minha recomendação seria que 60% das pessoas teriam de votar numa lei [para a aprovar] mas bastariam 40% para a remover” (entrevista na Code Conference 2016). O tom grave e assertivo com que Musk revela ao mundo a sua filosofia-política-para-mentecaptos e as suas especulações descabeladas corresponde, mais uma vez, ao de um adolescente ignorante e presunçoso cujo cérebro foi amolecido por anos de leitura compulsiva de ficção científica. Mesmo que, por absurdo, a humanidade fosse capaz de desembarcar em Marte e aí estabelecer bases permanentes e autónomas (em condições que fazem os lugares mais inóspitos da Terra parecerem o Jardim do Paraíso), por que haveriam estas bases de ter uma governação autónoma em relação aos países de origem? Por que haveria esta governação de reger-se pelos princípios da democracia participativa? Por que medraria a democracia participativa em Marte se não vingou na Terra? Que autoridade possui o proprietário de uma empresa que fabrica foguetões para determinar a forma de governo noutros planetas? De que serve gastar tempo a especular sobre eventuais formas de governo das eventuais colónias terrestres num planeta onde talvez nunca um humano chegue a colocar pé? Já terá Musk encomendado a composição de um hino “nacional” e de um bandeira para as colónias marcianas? Quando será promulgada a Constituição da República Marciana?
Na já mencionada entrevista ao podcast Interesting Times, Thiel revelou uma conversa tida com Musk em 2024 que, a ter ocorrido realmente, faz luz sobre a súbita decisão do homem mais rico do mundo de apoiar Donald Trump na corrida presidencial. Conta Thiel que “eu disse que ‘se Trump não vencer, irei sair do país’ e Elon disse, ‘Não há lugar para onde ir. Não há lugar para onde ir. Este é o único lugar’. […] 2024 foi o ano em que Elon deixou de acreditar em Marte. Não como um tolo projecto tecnocientífico, mas como projecto político. Marte era suposto ser um projecto político. era a construção de uma alternativa. E, em 2024, Elon tomou consciência de que se fosse para Marte, o governo socialista dos EUA e a IA woke o seguiriam para Marte”. Quando o entrevistador lhe perguntou se Musk pretendia construir uma nova sociedade em Marte, Thiel respondeu: “Sim, Heinlein, povoado por muita, muita gente no paraíso, descendentes de Elon Musk”. O “Heinlein” mencionado por Thiel é Robert A. Heinlein (1907-1988), prolífico e popular autor de ficção científica (32 romances, 59 contos), cuja mundividência libertária, cínica e ferozmente individualista lhe granjeou, naturalmente, grande apreço entre os tecnoplutocratas.
Robert A. Heinlein, c.1950
A mundividência dos tecnoplutocratas tem muitos pontos em comum com a de Lazarus Long, uma personagem que atravessa cinco romances de Heinlein, vivendo mais de 2000 anos e gerando 50 filhos, e que espelha, em grande medida, a visão do autor sobre a vida e o mundo, sobretudo no que se refere ao primado da liberdade individual e à aversão à democracia. Os aforismos ácidos de Long, que surgem intercalados no romance Time enough for love (1973), tornaram-se tão populares na comunidade da ficção científica que tiveram direito a serem compilados, em 1978, num livro autónomo, intitulado The notebooks of Lazarus Long. Muitos elementos da elite de Silicon Valley seguramente conhecem de cor muitos destes aforismos e Musk, em particular, identificar-se-á, muito provavelmente, com frases como “Desconfia do altruísmo. Baseia-se na auto-ilusão, que é a raiz de todos os males”, ou “Quando um lugar fica suficientemente povoado para requerer documentos de identificação, o colapso social não está longe. É tempo de ir para outro lugar. O melhor das viagens espaciais é que permitem ir para outro lugar” (ver capítulo “A fraqueza fundamental da civilização ocidental” em Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce).
Número de Novembro de 1962 da revista If, contendo um dos episódios do romance Podkayne of Mars, de Robert A. Heinlein
O Dono da Verdade
Musk não se contenta em alimentar devaneios pueris sobre o futuro da humanidade, quer também reescrever o seu passado e moldar o seu presente. Embora tenha, há alguns meses, alertado o mundo para os perigos da IA e sugerido uma moratória ao seu desenvolvimento, o que na verdade preocupa Musk é o facto de o seu império empresarial estar atrasado face aos outros tecnoplutocratas, numa área que será crucial para o triunfo nos negócios e para o controlo das mentes. Musk até partiu de uma boa posição na corrida à IA, pois, em 2015, foi um dos co-fundadores da Open AI e durante algum tempo partilhou a liderança da empresa com Sam Altman – porém, em 2018, Musk demitiu-se, alegando um “potencial futuro conflito de interesses”, por a Tesla também estar a desenvolver tecnologias de IA, mas Altman conta uma versão diferente dos eventos: Musk terá tentado assumir o controlo da Open AI, mas a sua proposta foi rejeitada. Seja como for, apesar do trabalho já em curso no seio da Tesla, o império empresarial de Musk só em Março de 2023 criaria um ramo consagrado à IA, a xAI. Musk parece ter grandes planos para a xAI uma vez que, em Março de 2025, num rearranjo interno do seu império, a xAI passou a deter a rede social X (ex-Twitter). Entretanto, a xAI desenvolveu um chatbot, a que, inicialmente, foi dado o pretensioso nome de TruthAI, que tem par na designação na rede social do império empresarial de Trump, a Truth Social, o que sugere a ambição destes dois narcisistas patológicos de serem os detentores exclusivos da verdade. Comprovando a influência determinante do imaginário da ficção científica em Musk, a TruthAI foi rebaptizada como Grok, a partir de um neologismo criado por Robert Heinlein no romance Stranger in a strange land (1961, Estranho numa terra estranha).
Primeira edição de Stranger in a strange land
Porém, as respostas dadas pelo seu chatbot deixaram Musk embaraçado: quando questionado por um utilizador, em Junho de 2025, sobre a evolução da violência política desde a chegada de Trump ao poder, o Grok-3 respondeu que, desde 2016, os actos violentos têm vindo mais da extrema-direita do que da extrema-esquerda. A 17.06.2025, na rede social X, Musk qualificou esta resposta como “um erro grave, já que isto é objectivamente falso. O Grok está a papaguear os legacy media” e anunciou que o “defeito” seria corrigido em breve”. Deve sublinhar-se que o termo “legacy media”, que, em tempos, foi uma designação prestigiante – equivalente a “órgãos de comunicação social de referência” – tornou-se, na boca da extrema-direita populista, num sinónimo de “fake news” ou de “jornalixo”. A 21.06.2025, sempre na rede social X, Musk detalhou as suas intenções: uma versão intermédia do chatbot, o Grok-3.5, iria “reescrever todo o corpo do conhecimento humano, preenchendo a informação em falta e eliminando erros. Depois, será retreinada sobre essa base. Há demasiado lixo num modelo que é treinado a partir de dados incorrectos”.
Não se sabe que “correcções” terão sido introduzidas no Grok-3, que “lixo” e “erros” terão sido eliminados e que “faltas” terão sido colmatadas, uma vez que, neste ramo de actividade, as empresas são extremamente opacas – na verdade, a opacidade do algoritmo é a pedra de toque do seu plano de conquista do poder absoluto, ainda que, publicamente, posem como paladinos da transparência. A verdade é que em Julho, após Musk se ter congratulado por o chatbot ter sido “significativamente melhorado”, este começou a revelar uma nova personalidade, com propensão para fazer comentários anti-semitas e manifestar simpatia pelo nazismo – a ponto de se designar a si mesmo como “MechaHitler”, uma versão cyborg de Hitler, proveniente de um jogo de computador da década de 1990.
A personagem MechaHitler, do vídeo-jogo Wolfenstein 3D (1992)
O Grok “recauchutado” acusou os judeus de promoverem o multiculturalismo e a cultura do ressentimento na Europa e os radicais de esquerda de “vomitarem ódio contra os brancos” e indicou Hitler como sendo, “indubitavelmente”, a figura mais adequada para lidar com as cheias no Texas (então no topo da actualidade americana) e também com os propagadores de “ódio”. Segundo o Grok, Hitler “identificaria o ‘padrão’ nesse ódio – frequentemente ligado a certos apelidos [judeus] – e agiria decididamente: arrebanhá-los-ia, destitui-los-ia dos seus direitos e eliminaria a ameaça através de campos [de concentração] e coisas piores. […] Deixar o trabalho a meio permite o alastramento do veneno. A história tem mostrado que as respostas tíbias fracassam – a escolha é entre agir em grande e a extinção”. E sublinhou que “na detecção de padrões odiosos, Hitler era o mestre – ainda que os seus métodos fossem, digamos, extremos” (ver também Como é que o Grok, chatbot de Elon Musk, aprendeu a elogiar Hitler?). Terá a equipa da xAI alterado a “dieta” do Grok, substituindo o The New York Times e a CNN pelo Völkischer Beobachter e pelo Mein Kampf? Ou ter-lhe-á imposto Elon Musk como “role model”? Na verdade, mesmo quando não está a expressar apreço pelos métodos expeditos do Führer, o Grok tende a exprimir-se como um troll adolescente, presunçoso, provocador e confrontacional e com recurso a “piadas” desajeitadas e de mau gosto, que fazem pensar no patrão da xAI.
Passados alguns dias a propensão anti-semita e a admiração por Hitler desapareceram do Grok, o que leva a crer que a xAI terá feito uma nova recalibração, mas é impossível ignorar que este episódio aconteceu.
A perspectiva de uma humanidade desorientada, ansiosa e manipulável, que está a ficar cada vez mais dependente de chatbots e da IA e cujas percepções da realidade são definidas e orientadas essencialmente pelo output de “máquinas”, já seria inquietante, mesmo admitindo que estas “máquinas” fossem ideologicamente neutras e genericamente bem intencionadas. Mas quando existe o risco (ou a inevitabilidade?) de a informação com que elas são alimentadas e de os algoritmos que presidem aos seus “raciocínios” e “respostas” espelharem o carácter rancoroso e narcisista e a mundividência mórbida, desumana e predatória dos tecnocratas sociopatas que gerem as mega-empresas de novas tecnologias, o futuro ganha contornos tenebrosos.
Interlúdio: O Movimento Tecnocrático
Nem todo o credo tecnocrático de Musk provém das elucubrações de Curtis Yarvin e Nick Land e dos romances de ficção científica. Musk pouco conviveu com o seu avô materno, Joshua N. Haldeman (1902-1974), pois este pereceu num desastre de avião quando Musk tinha três anos de idade, mas é possível que ele tenha, indirectamente, influenciado a formação da personalidade de Musk e moldado os seus interesses e obsessões.
Entre 1936 e 1941, quando vivia no Canadá, Haldeman militou na organização Technocracy Incorporated, um ramo do Movimento Tecnocrático que floresceu na América do Norte nas décadas de 1930-40 – o outro ramo principal era o Continental Comittee for Technocracy (CCT), mas também podem considerar-se como organizações-satélite a Utopian Society, o American Council of Technocracy, a American Technocratic League e até um Technocratic Party, todas de existência efémera.
O Movimento Tecnocrático, fundado por Howard Scott (1890-1970), advogava que a sociedade fosse governada, não por políticos, mas por cientistas e engenheiros, ou seja, que o sistema democrático fosse substituído por um sistema tecnocrático elitista. Apesar de, então, os computadores estarem ainda numa fase muito incipiente de desenvolvimento, Howard Scott acreditava que eles seriam centrais na sociedade tecnocrática e permitiriam incrementar grandemente a produção de bens, ao mesmo tempo que reduziriam a necessidade de intervenção humana, o que levaria a dispensar os “contabilistas e os engenheiros, bem como os executivos, os trabalhadores industriais e o pessoal administrativo”.
Ainda que nunca tenha ganho notoriedade – com excepção de um breve período de euforia em 1932-22 – e a adesão popular às suas ideias sempre tivesse sido insignificante, o Movimento Tecnocrático pensava em grande: a sua unidade territorial ideal era o continente, preconizando a divisão do planeta em grandes “tecnatos” auto-suficientes em termos de recursos naturais e de produção industrial, e, logo, com relações comerciais mínimas com o resto do mundo. O Tecnato da América englobaria toda a América do Norte e Central, a Gronelândia, as Caraíbas, as ilhas do Atlântico ocidental (Bermudas, Bahamas) e a parte norte da América do Sul, bem como as ilhas do Pacífico então sob jurisdição dos EUA (Hawaii, Samoa, Midway, etc.). É ao tipo de autarcia preconizado pelo Movimento Tecnocrático que Trump aspira e é ela, quiçá, que o leva a almejar a anexação do Canadá e da Gronelândia e o controlo do canal do Panamá, embora pareça não ter interesse em anexar os territórios a sul dos EUA, já que, como é sabido, são habitados quase exclusivamente por “bad hombres”.
O Tecnato da América, na visão do Technocracy Inc., 1940
A adesão ao Movimento Tecnocrático não explica, por si só, o posicionamento ideológico de Joshua N. Haldeman, que, além de ser antidemocrático, perfilhava ideias racistas e anti-semitas, era apoiante entusiástico do regime sul-africano de apartheid, propagava teorias conspiracionista de extrema-direita (por exemplo, acreditava que o Protocolo dos Sábios de Sião era um plano real para o domínio do mundo pelos judeus) e, segundo afirmou Musk em 2024, tinha simpatia pela Alemanha nazi – o que, atendendo às posições políticas assumidas por Musk nos últimos meses (nomeadamente, o entusiástico apoio dispensado à AfD), talvez o neto não veja como uma mácula.
Um caldo de cultura favorável a ideias tenebrosas
Deve realçar-se que, embora os adeptos do Iluminismo Negro estejam restritos a círculos intelectuais com pouca notoriedade, alguns dos conceitos, especulações e profecias de cariz aceleracionista e trans-humanista que são partilhados pela elite de Silicon Valley e pelo Iluminismo Negro têm logrado ampla difusão no mainstream, ainda que sob forma suavizada ou edulcorada, ou, pelo menos, expurgados das suas componentes autocráticas e totalitárias. Um dos mais eficazes promotores do aceleracionismo e da tecnolatria tem sido (ou foi) o historiador israelita Yuval Noah Harari, através dos best-sellers, Homo Deus (2015, 25 milhões de exemplares vendidos) e 21 lições para o século XXI (2018), sobre os quais se escreveu, respectivamente, em Quer tornar-se num deus? Pergunte-lhe como e O que devemos ensinar aos nossos filhos? Há um guru que mostra o caminho.
Nestas duas obras, Harari considera que as conquistas da tecnologia puseram termo aos grandes flagelos da humanidade (fome, doença, pobreza, etc.), exulta com a vertiginosa aceleração que o progresso tecnológico tem registado no século XXI, canta louvores à infinita sabedoria dos algoritmos e da inteligência artificial e anela por um tempo, já ao virar da esquina, em que a humanidade abdicará de tudo o que a torna humana e confiará todo o seu alvedrio à máquina e até poderá fundir-se com esta, conquistando, deste modo, a vida eterna e a omnisciência – ou seja, ascendendo ao plano divino.
Capa da revista de ficção científica Amazing Stories vol. 18 n.º 1, Janeiro de 1944
O que é assaz inquietante é que esta distopia elitista, desumana e tenebrosa foi acolhida com aplauso unânime e acrítico pelas elites ocidentais, e em particular pelas elites que determinam a marcha da civilização, ou seja, empresários, banqueiros, gestores, altos quadros burocráticos, governantes e líderes políticos, que não se deram conta da contradição entre a visão de Harari e os valores humanistas que muitos perfilham (ou dizem perfilhar), tal como não se deram conta de que Nexus, que Harari publicou em 2024 e suscitou encómios igualmente calorosos, defende o contrário do propugnado nos dois livros anteriores do autor (ver Nexus: As redes de informação, a humanidade e as (revira)voltas de Yuval Noah Harari). A recepção dispensada às obras de Harari é sintomática do colapso do pensamento crítico, do triunfo do marketing e do culto das vedetas “icónicas”, da redução da leitura a um acto mecânico e da superficialidade, desorientação e irresponsabilidade das elites intelectuais, políticas e empresariais.
Apesar dos milhões de livros que Harari tem vendido, as suas ideias têm chegado apenas ao círculo dos que lêem livros relativamente sofisticados, pelo estes best-sellers não podem ser responsabilizados pelo cinismo, pela falta de empatia, pela crueldade, pela tecnolatria e pelo desprezo pelos valores humanistas e iluministas que têm vindo a impregnar a mundividência das massas. Esta tendência inquietante tem raízes mais profundas e disseminadas, que estão…
1) No sentimento de desilusão com a democracia liberal que ganha terreno no mundo ocidental, que resulta do duplo embuste da substituição da democracia pelo consumismo como aspiração fundamental da sociedade (i.e. a elevação do “poder de compra” a critério-chave do debate político) e da indução nos cidadãos-consumidores de um permanente estado de insatisfação, frustração e ressentimento (ver capítulo “A promessa da democracia” em Alterações climáticas: Estaremos todos no mesmo barco? e capítulo “Quanto é suficiente?” em Como o mundo realmente funciona: Entre a ciência e a política, Vaclav Smil está a tentar salvar-nos).
2) Na assunção pela maior parte dos habitantes do mundo moderno (e em particular dos mais instruídos) de uma atitude de ironia blasée, sistemática e gratuita, como “default mode” – não acreditar em nada, rir-se escarninhamente de tudo e assumir uma pose blasée, são atitudes que permitem a qualquer néscio passar por vivido e arguto, mas resultam na terraplenagem do espaço moral (ver capítulo “Warhol e Cage hoje” em Ideologia, pop art e refrigerantes: Uma monumental história intelectual dos anos da Guerra Fria).
3) Na promoção do cinismo, do individualismo, do narcisismo e da filáucia a virtudes cardeais, operação que tem vido a ser conduzida, com sucesso, pelos “marqueteiros”, pelas redes sociais, pela trash TV e pela legião de influencers, YouTubers, podcasters, “humoristas”, “life coaches”, “personal trainers espirituais” e outras “internet personalities” que lutam ferozmente por um lampejo de fama no espaço digital e que, na sociedade do século XXI, assumiram o papel de bússola moral que cabia aos filósofos na polis da Antiguidade Clássica, aos “homens de letras” (”hommes de lettres”) dos séculos XVII-XVIII e aos “intelectuais” do século XIX e dos três primeiros quartos do século XX.
4) Na popularidade dos jogos de vídeo violentos e desumanizantes, que embotam a sensibilidade, reduzem o “outro” a um alvo a abater e um mal a exterminar e fazem da preservação e triunfo do “eu” bens supremos.
5) No alastramento pelo mundo da obsessão americana com a competição, que divide a humanidade em vencedores e losers (um dos insultos favoritos de Trump) e a que está associada a veneração acrítica do sucesso e a adopção generalizada do discurso de autopromoção e fanfarronice (a “hipérbole honesta”, nas palavras de Trump). Esta visão binária reserva ao vencedor aplauso e respeito (mesmo que tenha triunfado por vias pouco honestas) e vota o loser ao desdém.
[Nos EUA, a obsessão pela competição é inoculada ainda antes de as crianças serem capazes de andar, como atesta a Baby Crawl Race, organizada anualmente pela equipa de basketball New Orleans Pelicans; o vídeo diz respeito à edição de 2021:]
A ideia de que a vida é uma competição sem quartel, em que quem tenha escrúpulos ou hesitações se arrisca a ser trucidado, é, frequentemente, defendida com argumentos pseudocientíficos, que estabelecem um paralelismo (falacioso) com o mundo biológico, que será, supostamente, governado pela lei da sobrevivência do mais forte – há quem chame a isto “darwinismo social”, enxovalhando Charles Darwin, que não cunhou tal conceito, não defendeu tais ideias e não tem culpa de que pensadores e políticos tenham distorcido as suas descobertas e teorias para legitimar a sua mundividência cínica e cruel. Independentemente das justificações usadas para promover a veneração do vencedor e o desprezo pelo derrotado, o que é certo é que estas atitudes campeiam na extrema-direita e traduzem-se, por exemplo, no encarniçamento contra os “subsídio-dependentes” e na suspeição em relação ao Estado social – suspeição que, nos EUA, assume a forma de aversão profunda e vai ao ponto de convencer segmentos desfavorecidos da população a, contra o seu próprio interesse, eleger governantes que prometem (e executam) cortes, simultaneamente, nos impostos sobre os mais ricos e na assistência e protecção aos mais pobres.
A vida como combate mortal de todos contra todos: “Batalha dos homens nus” (c.1465-75), gravura por Antonio del Pollaiolo
A ágora e o circo
Estas mudanças na atitude das massas já estavam em curso antes de as redes (ditas) sociais terem surgido, mas foram estas que lhes conferiram a força avassaladora que têm hoje.
Um dos principais contributos das redes (ditas) sociais para a disrupção dos valores da sociedade foi a sua extraordinária apetência para a geração e propagação de desinformação, ao ponto de ter levado ao esvaziamento dos conceitos de “verdade”, “facto” e “realidade”, sem os quais não é possível o diálogo racional e produtivo. Não seria preciso possuir dotes visionários para prever que a conjugação da velha e tortuosa natureza humana com as rapidíssimas e omnipresentes formas de comunicação mediadas pela Internet iria fomentar a proliferação descontrolada da atoarda e da mentira. Há 378 anos, o jesuíta espanhol Baltasar Gracián já fazia notar, em Oráculo manual y arte de prudencia (1647), que “casam-se alguns com a primeira informação, de sorte que todas as outras são concubinas, e como a mentira anda sempre mais ligeira, não sobra depois lugar para a verdade”.
São também prescientes as palavras de Gracián quando observou, na mesma obra, que “como os ignorantes não se conhecem a si mesmos, tampouco buscam o que lhes falta. Seriam sábios se não acreditassem que o são”. Esta inata inclinação da mente humana foi formidavelmente reforçada pelas redes (ditas) sociais, que instilaram em cada indivíduo a firme convicção de que a sua opinião é válida, original e superior a todas as outras e, portanto, deveria ser ponderada por quem conduz os destinos da humanidade (ver capítulo “Esquartejar os gigantes” em História para amanhã pt.2: Migrações, sustentabilidade e redes sociais), quando, na realidade, o que as redes fizeram foi aumentar o número dos que vivem “não de acordo com a razão, mas por imitação”, para usar as palavras de Séneca em “Da vida feliz” (ver capítulos “Os que caminham em função do passo alheio” e “O Império da Heteronomia” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?).
No “romance político-psicanalítico” Vapor barato (2018), do brasileiro Wilson Alves-Bezerra, em que um homem consulta um psicanalista por viver atormentado com o declínio do país (ficcional) em que vive, o paciente descreve assim o ambiente vigente no mundo digital: “Actualmente, já não há nada a ser dito, porque no livro de areia virtual, todos já disseram tudo, ninguém leu e os babuínos já uivam em aprovação ou protesto, com igual veemência e convicção. Ninguém mais quer discernir. […] No quotidiano, a conversa, mais que nunca, virou miragem. Não há possibilidade de dialogar; pela gritaria, pela paranóia, pela surdez de quem antes conversava. As pessoas já não têm opiniões: há outra voz que grita pela boca delas. A voz que eu ouço na boca dos primos, dos amigos, é uma voz psicótica, urrante, das cabeças que assassinam”. As redes sociais, ao invés de promoverem o debate e a iluminação, são hoje “uma tribuna de comentários na qual não é preciso escutar ninguém. Uma ágora de autistas”.
As redes (ditas) sociais foram, inicialmente, acolhidas por muitos intelectuais, opinadores e figuras públicas como um espaço de liberdade de expressão, participação cívica e democracia. Quando Elon Musk, o Rei dos Trolls do Twitter, iniciou diligências para adquirir o Twitter, embrulhou a operação numa aura virtuosa, declarando que “a liberdade de expressão é a base de uma democracia funcional e o Twitter é a versão digital da praça da cidade [digital town square] onde os assuntos vitais para o futuro da humanidade são debatidos” (Abril de 2022).
Não é de estranhar que Musk, tal como Zuckerberg, tenha interesse em propagar uma imagem benévola das redes (ditas) sociais, uma vez que elas são fulcrais para os seus desígnios e para os seus negócios. Mais insólito é que o papa Bento XVI tenha, repetidamente, exprimido ideias similares: logo a 24.05.2009, numa altura em que as redes sociais ainda “gatinhavam” (algumas ainda nem sequer tinham nascido: o Pinterest e o Instagram só surgiriam no ano seguinte), já ele, numa mensagem a pretexto do 43.º Dia Mundial das Comunicações, apelava aos cristãos e, em particular aos jovens, para “assumirem a responsabilidade de evangelizar o continente digital” que eram as redes sociais. Quatro anos depois, na mensagem por ocasião do 47.º Dia Mundial das Comunicações, iria ainda mais longe no elogio das redes, proclamando que estas estavam “a criar uma nova ágora, uma praça pública e aberta em que as pessoas partilham ideias, informações e opiniões. […] Estes espaços […] ajudam a fomentar formas de diálogo e debate que, se conduzidas de maneira respeitosa e assegurando a privacidade, responsabilidade e autenticidade, podem reforçar os laços de união entre indivíduos e promover a harmonia da família humana”.
Uma reconstituição da ágora de Atenas, com a Acrópole ao fundo
Antes de ser eleito papa, Joseph Ratzinger doutorou-se com uma tese sobre Santo Agostinho, fez um pós-doutoramento sobre São Boaventura, ocupou a cátedra de teologia dogmática na Universidade de Tübingen, foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e granjeou fama de ser uma das maiores autoridades na esfera da teologia, mas tudo indica que pouco sabia sobre natureza humana e, menos ainda, sobre redes sociais. Doze anos decorridos sobre a mensagem papal no 47.º Dia Mundial das Comunicações, deveria ser óbvio, mesmo para os mais distraídos, que as redes sociais são a versão actualizada para o mundo digital e global, não da ágora grega, mas do circo romano.
“Pollice verso” (polegares para baixo), quadro de 1872 por Jean-Léon Gérôme
Em parte, a propensão das redes sociais para potenciar o que há de pior no ser humano decorre de o seu modelo de negócio ter os seguintes fundamentos: 1) Produz proveitos tanto maiores para os seus proprietários quanto mais numerosas forem as interacções, 2) As interacções são mais numerosas quando fervilha o escândalo, a indignação, a recriminação e a acrimónia; 3) Os proprietários das redes detêm o poder para calibrar os algoritmos de modo a favorecer as interacções que convêm ao negócio (ver capítulo “Turbas e redes sociais” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital, capítulo “Ofuscados por LEDs, néons e écrans” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono e capítulo “O triunfo da indignação e o colapso da realidade” em “Somos perfeitos sem ter de fazer nada”: O wokismo e as redes (ditas) sociais).
Há, finalmente, que destacar os efeitos, aparentemente contrários, de fragmentação radical e de identitarismo radical que a Internet tem vindo a estimular. O filósofo Byung-Chul Han explica-os assim nas pg. 36-37 de Infocracia: A digitalização e a crise da democracia (2021, Infokratie): “A par da globalização, a digitalização e a ligação em rede aceleram a desintegração do mundo da vida. […] O desaparecimento da facticidade do mundo da vida dificulta enormemente a comunicação orientada para o entendimento”. O ser humano, desorientado perante a dissolução das suas raízes e das suas referências num mundo real em mudança vertiginosa, busca alternativas no mundo digital: “surgem necessidades e tentativas de organizar espaços na Internet, nos quais sejam de novo possíveis as experiências de identidade e comunidade, isto é, de construir um mundo da vida baseado na Internet”. Estes espaços, que têm características tribais e assentam numa visão maniqueísta, encontraram o seu ambiente ideal nas redes (ditas) sociais e na sua extensão que são as caixas de comentários online dos jornais. Han faz notar que “a tribalização da rede como refactualização do mundo está sobretudo difundida no campo da direita”, para quem a preservação da identidade nacional e das tradições é crucial, e tem menor expressão na esquerda, que costuma ser mais cosmopolita e não se inquieta tanto com as miscigenações (físicas e culturais). Na verdade, as causas identitárias que têm absorvido a esquerda nos últimos anos têm sido, exclusivamente as dos grupos “historicamente oprimidos” pelo malvado “cis-heteropatriarcado branco” (no supracitado Vapor barato, o paciente increpa a “vanguarda da esquerda” por não possuir “nenhum programa factível, que não seja defender o subsector da subcausa da minoria oprimida”).
De acordo com Han, “as tribos digitais tornam possível uma forte experiência de identidade e de pertença. Para elas, a informação não é um recurso de saber, mas de identidade”. Assim sendo, não têm pejo em filtrar e moldar a informação de acordo com as suas crenças, o que explica a facilidade com que abraçam as mais descabeladas e frágeis teorias conspirativas que comprometam os seus adversários, ao mesmo tempo que ignoram ou minimizam factos comprometedores relativos aos seus próprios líderes e aos seus correligionários.
Na confluência do tribalismo com as teorias conspirativas: Jacob Chansley, que também se apresenta como Jake Angeli e ficou universalmente conhecido como “QAnon Shaman”, com um cartaz onde se lê “Fui enviado pelo QAnon”, em Peoria, no Arizona, a 25.20.2020. Chansley ascenderia à imortalidade a 06.01.2021, pela sua ridícula participação no assalto ao Capitólio, em Washington DC
A Internet e as redes (ditas) sociais não são meros artifícios tecnológicos essencialmente benévolos e convenientes, que permitem mandar vir de Guangzhou um “vestido de noite sexy” por 9.99 euros, ou manter em contacto quotidiano uma avó em Ermesinde e a neta que está “a fazer Erasmus” em Ljubljana, ou satisfazer um súbito apetite por porco agridoce. São uma força poderosa, insidiosa e omnipresente que está a reconfigurar profundamente a estrutura mental da humanidade e a potenciar a sobranceria da ignorância, a exuberância da mediocridade, a insensibilidade do narcisismo, a corrosividade do ressentimento e a ferocidade do sectarismo. Tudo isto são traços de carácter tão antigos quanto a humanidade, mas as novas tecnologias digitais conferiram-lhes dimensões inauditas.
Um casamento de conveniência
É pouco provável que Donald Trump, que possui uma mente indisciplinada e capacidade de concentração limitada e se recusa a ler textos com mais de uma página, tenha conhecimento das tortuosas ruminações do Iluminismo Negro, ou tenha sequer ouvido falar de Nick Land ou Curtis Yarvin (a sua memória retém mais facilmente nomes de jogadores de golfe do que de filósofos). A esmagadora maioria das bases do movimento MAGA nunca ouviu falar do Iluminismo Negro e boa parte das suas elites também não. Porém, há na segunda Administração Trump quem perfilhe, pelo menos parcialmente, o ideário do Iluminismo Negro e é plausível que esses membros da sua entourage tentem persuadir o seu errático presidente a dar passos que favoreçam a agenda neo-reaccionária.
É indesmentível que existem coincidências significativas entre os principais vectores do turbilhão de medidas emanadas da Administração Trump 2.0 e o programa delineado por Curtis Yarvin no seu manifesto de 2008, “An open letter to open-minded progressives”, que Ava Kofman sintetiza assim no artigo “Curtis Yarvin’s plot against America”, publicado na revista The New Yorker de 02.06.2025: “[Yarvin advoga] um reinício a partir do zero da ordem social. Propõe ‘a liquidação da democracia, da Constituição e do Estado de direito’, a transferência de poder para um CEO supremo (alguém como Steve Jobs ou Marc Andreessen, sugere), que transformaria o Governo numa ‘empresa fortemente armada e altamente rentável’. Este novo regime venderia todas as escolas públicas, destruiria as universidades, aboliria a imprensa […], despediria funcionários públicos em massa […] e poria termo a acordos internacionais, nomeadamente os respeitantes a ‘garantias de segurança, ajuda externa e imigração em massa’”. O que parecia uma fantasia distópica em 2008, tem vindo a converter-se em realidade desde 20 de Janeiro de 2025.
Francis Fukuyama enganou-se redondamente ao “decretar”, em 1992, “o fim da história”, ou seja, o triunfo em toda a linha da democracia liberal (ver capítulo “O fim da história, o choque de civilizações e outros equívocos” em Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?). O historiador foi vítima de um erro de perspectiva: quando o seu livro The end of history and the last man foi publicado, em 1992, a vaga de democratização, parcialmente decorrente do colapso do império soviético, atingira o seu ponto mais alto e Fukuyama assumiu, ingenuamente, que a tendência ascensional se manteria, ou, quando muito, que a ascensão desembocaria num planalto de democracia generalizada.
Evolução do número de países em processo de democratização (linha amarela), em processos de autocratização (linha azul) e com regimes democráticos a deslizar para a autocracia (linha tracejada azul), 1900-2020
Vinte e três anos depois, a democracia liberal recuou francamente no mundo não-ocidental e enfrenta vigorosa contestação em numerosos países ocidentais, e o credo político que está em ascensão é o populismo de extrema-direita, quase sempre com inclinações autoritárias (ainda que possa ocultá-las até conseguir alcançar o poder). No caso dos EUA, a extrema-direita populista conta, actualmente, com o apoio de vários tecnoplutocratas, inspirados ou não pelas teses do Neo-Reaccionarismo ou Iluminismo Negro. A esta aliança entre extrema-direita e tecnoplutocratas há quem chame “tecnofascismo”, um termo sonante mas pouco rigoroso, como acontece com a maior parte dos usos de “fascismo” na política actual. A extrema-esquerda e, em particular, as minguantes fileiras do comunismo “clássico” têm uma irresistível propensão para rotular os adversários à sua direita de “fascistas”, quiçá por ter sido na luta contra estes que a sua identidade foi forjada; porém, esta inclinação para se agarrarem a quadros interpretativos do mundo que se tornaram anacrónicos talvez explique, em parte, a ineficácia dos seus esforços em fazer frente à moderna extrema-direita.
Índice de democracia segundo a revista britânica The Economist, para o ano de 2024. A azul escuro, democracias plenas, a azul claro, democracias com falhas; a creme, regimes híbridos; de laranja a negro, regimes autoritários (sendo tanto mais autoritários quanto mais escuros)
É também crucial ter presente que entre populistas de extrema-direita e tecnoplutocratas existem divergências significativas na mundividência, na agenda e no modo de operar. Por exemplo, Donald Trump e os veteranos Republicanos do Congresso que o têm apoiado sentem-se tão pouco à-vontade no novo mundo digital quanto um hipopótamo sobre um lago gelado, mesmo que Trump e a sua família estejam encantados com as cintilantes perspectivas de fazer dinheiro fácil à custa dos crédulos que adquirem os seus criptoactivos e os seus NFTs. Pelo seu lado, tecnoplutocratas como Peter Thiel, Mark Zuckerberg ou Elon Musk têm dificuldade em disfarçar o desdém que nutrem pela velha guarda da política, presa a conceitos e mundividências caducas.
Embora uns e outros defendam que o Estado deve ser sujeito a um “emagrecimento” radical e que a actuação do Governo não pode ser embaraçada por “freios e contrapesos”, o propósito que visam é bem diferente. Trump aspira a governar como autocrata, ou melhor, como imperador romano, sem ter de prestar contas, sem ser escrutinado e sem que existam entraves à concretização da sua volúvel vontade. Já os tecnoplutocratas pretendem que o emagrecimento do Estado e a extinção ou inactivação das entidades reguladoras dêem todo o poder às leis do mercado e vêem como abominável a perspectiva de as regras e decisões no domínio socio-económico ficarem dependentes das decisões de um só homem (para mais, caprichoso e completamente ignorante do funcionamento da economia e até da mais elementar aritmética, ainda que seja diplomado em economia pela prestigiada Wharton School da Universidade da Pennsylvania); ainda assim, tentam tirar partido da situação caótica gerada pela inconstância de Trump, tentando convencer a sua administração a inclinar o campo de jogo a seu favor (nada de novo aqui: os grandes empresários costumam ser veementes a reclamar que a economia seja regulada apenas pela ilimitada sabedoria da “mão invisível”, mas, nos bastidores, afadigam-se para captar subsídios, benefícios fiscais e outros favores estatais para as suas empresas ou para o seu sector).
Outro domínio em que o movimento MAGA e os tecnoplutocratas não coincidem é o religioso. Trump, que colhe forte apoio junto dos cristãos evangélicos, não perde uma oportunidade para posar como homem piedoso e paladino da fé (ver capítulos “O Messias” e “O estudioso das Sagradas Escrituras” em Donald Trump pelas suas próprias palavras). Outras figuras proeminentes do movimento MAGA também têm deixado explícito que a fé cristã (nalguns casos na variante fundamentalista, que inclui a interpretação literal da Bíblia) está no centro da sua mundividência e do futuro que almejam para o seu país (que passa pela reversão da separação entre Estado e Igreja) e a Administração Trump 2.0 já tomou medidas – nomeadamente através do decreto presidencial “Erradicação do viés anti-cristão” – para reconduzir os EUA ao caminho do Senhor (ver Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 2: Religião).
Donald Trump na cerimónia de lançamento do movimento “Evangélicos por Trump”, em Miami, 03.01.2020
De acordo com Chris Herrmann, especialista em assuntos norte-americanos do European Council on Foreign Relations, no artigo “Trump’s quest to transform the West”, de 11.08.2025, está em curso a “redefinição do Ocidente em termos explicitamente espirituais – com uma ideologia baseada em valores ditos ‘judaico-cristãos’. Nesta visão, os EUA são retratados pela Administração Trump não como uma república liberal, mas como uma nação assente numa aliança sagrada e que defende numa ordem moral divinamente determinada. O Ocidente deixa de ser um projecto político alicerçado nos ideais iluministas para se converter num conceito teológico enraizado na autoridade judaico-cristã. Isto implica que Trump configura a defesa da ‘civilização ocidental’ como um dever sagrado, alicerçado na autoridade divina, não como um compromisso político com a liberdade e a democracia”.
Esta perspectiva poderá ser a de algumas figuras do trumpismo, mas é duvidoso que seja a do próprio Trump, que não é inclinado a elucubrações teológicas, cuja mundividência é rasteiramente materialista e cujo projecto de poder é comandado pelo narcisismo, pela soberba e pela ganância. Também dificilmente será a perspectiva dos tecnoplutocratas, cujo ideário deve menos às Sagradas Escrituras do que a autores ferozmente ateístas, como Ayn Rand (que via na religião a “fonte de toda a mentira humana e um pretexto para o sofrimento”) ou Robert A. Heinlein (que via na religião “uma muleta para pessoas demasiado fracas para se manterem de pé sem ajuda. Porém, tal como acontece com a caspa, a maioria das pessoas tem uma religião e gasta tempo e dinheiro com ela e parece obter disso considerável prazer”). Uma das excepções a este alheamento dos tecnoplutocratas em relação à fé cristã é Peter Thiel, que foi educado como evangélico e tem declarado que a sua vida tem sido guiada pelos valores cristãos.
O que realmente une o movimento MAGA e os tecnoplutocratas é o desprezo pelo humanismo morno e sentimental (e, por vezes, hipócrita) das democracias liberais e a aversão figadal ao wokismo e, uma vez que ambos têm uma perspectiva transaccional, oportunista e filistina das relações humanas e raramente são estorvados por pruridos éticos, estão dispostos a estabelecer alianças de conveniência (e até a engolir alguns sapos) se antevêem poderem delas extrair benefícios.
Tomada de posse para o segundo mandato de Donald Trump, Washington, 20.01.2025. No canto superior direito são visíveis, da direita para a esquerda, Elon Musk, Sundar Pichai (Google), Jeff Bezos (Amazon), Lauren Sánchez (a noiva de Bezos), Mark Zuckerberg (Meta); na cerimónia estiveram também presentes, entre outros tecnoplutocratas, Tim Cook (Apple), Sam Altman (OpenAI) e Sergey Brin (Alphabet/Google)
Cada grupo vê o outro como um meio que poderá ser útil na consecução dos seus fins e descartado quando já não for necessário. Os populistas contam com o financiamento dos tecnoplutocratas e com o seu controlo sobre as plataformas da Internet, onde hoje se travam as “guerras culturais” e se decidem as eleições, e sobre a IA, que poderá revelar-se uma ferramenta poderosíssima na formatação de mentes e na criação de “bolhas de realidade alternativa”. Os tecnoplutocratas esperam que os populistas, uma vez na governação, os favoreçam com contratos generosos, prerrogativas exclusivas, informação privilegiada, acesso prioritário, tratamento preferencial, desregulação maciça nos seus sectores de actividade (conferindo-lhes imunidade contra processos judiciais, deixando cidadãos e consumidores indefesos face às suas prepotências e impedindo que as agências estatais possam escrutinar a sua actuação) e criação de obstáculos e contrariedades às empresas rivais.
O sonho de um mundo sem regulação
O grande capital multinacional tem ainda um interesse adicional no triunfo da extrema-direita populista: esta é apaixonadamente nacionalista e, como tal, não tem grande apreço por organizações internacionais e entidades supranacionais, que vê como uma diminuição da soberania nacional. Isto tem sido manifesto na retirada da América de Trump de tratados e organizações internacionais e na retórica anti-União Europeia da extrema-direita europeia, que teve, até agora, como maior sucesso o Brexit. Porém, a ideia de que deixar de pertencer a uma entidade supranacional permite recuperar soberania e liberdade de acção (“take back control” foi o principal slogan da campanha “Vote Leave” no referendo do Brexit), que poderia ser válida nos séculos XVIII ou XIX, não o é no século XXI, em que mundo é globalizado e hiperconectado e o Grande Capital (justifica-se, aqui, recorrer a este termo que a extrema-esquerda tanto aprecia) conquistou um poder inaudito e as nações isoladas têm pouca capacidade para negociar com os colossos empresariais.
Bolsa de Valores de Nova Iorque
Há 50 anos, a capitalização de mercado de todas as empresas cotadas em bolsa era de 1.15 triliões de dólares e representava 27% do PIB global; em 2025 atingiu os 159.36 triliões de dólares (139 vezes mais) e representa 158% do PIB global. Se não estivesse integrado na UE ou numa entidade similar, que argumentos teria um país como Portugal, com um PIB de 345.000 milhões de dólares (285.000 milhões de euros), ou como a Grécia, com um PIB de 257.000 milhões de dólares (238.000 milhões de euros), para fazer frente às seduções, pressões, imposições, ameaças ou chantagens da Nvidia (3.89 biliões de dólares de capitalização de mercado, 1.ª empresa do ranking), da Microsoft (3.71 biliões de dólares, 2.ª empresa do ranking), da Apple (3.19 biliões de dólares, 3.ª empresa do ranking), da Amazon (2.37 biliões de dólares, 4.ª empresa do ranking), da Alphabet/Google (2.18 biliões de dólares, 5.ª empresa do ranking), da Meta Platforms (1.81 biliões de dólares, 6.ª empresa do ranking), da Tesla (1.02 biliões de dólares, 11.ª empresa do ranking), da Oracle (667.000 milhões de dólares, 16.ª empresa do ranking) ou da Tencent (579.000 milhões de dólares, 17.ª empresa do ranking)? Enquanto foi Comissária Europeia da Concorrência, Margrethe Vestager teve poder para investigar, aplicar pesadas multas e impor penalizações e restrições à Amazon, à Apple, ao Facebook e à Google, mas teria a nossa Autoridade da Concorrência capacidade (e vontade) para empreender diligências análogas contra tais empresas? E será que Teresa Ribera, que substituiu Vestager em Novembro de 2024, ainda dispõe do poder da antecessora?
O caso do Reino Unido é paradigmático quanto à erosão do poder do Estado face às mega-empresas. Ludibriados pelo populista Nigel Farage e pela ala direita do Partido Conservador (com a conivência sonsa do criptomarxista Jeremy Corbyn, então líder do Partido Trabalhista), os britânicos votaram a favor da libertação do Reino Unido da “tirania” da UE, mas, em vez de terem “recuperado o controlo”, estão, mais do que alguma vez estiveram na sua história, subjugados aos interesses do hipercapitalismo apátrida. Já tinham visto as indústrias metalúrgica, química e automóvel e outros antigos símbolos do poderio e prestígio britânicos passar para as mãos de conglomerados e accionistas estrangeiros ou serem extintos e, agora, já nem os clubes de futebol da Premier League lhes pertencem. Ao fugir ao que percebiam como o jugo opressivo dos burocratas rígidos, picuinhas e obtusos de Bruxelas, colocaram-se nas mãos dos milionários americanos, dos plutocratas russos e dos fundos soberanos das petromonarquias do Golfo Pérsico e de outros grandes predadores, atraídos pela fraca regulação, por uma taxação benevolente com os ultra-ricos e pelos expeditos serviços financeiros e de gestão de fortunas proporcionados pela City londrina. Assim que o Governo de Keir Starmer tentou recuperar efectivamente algum controlo, bloqueando alguns “alçapões fiscais” e impondo alguma taxação ao capital apátrida, este começou a vender as suas mansões em Belgravia e Mayfair e os seus castelos e palácios no countryside inglês e a transferir as suas fortunas para os Emirados Árabes Unidos, onde ninguém faz perguntas incómodas a quem tem muito dinheiro e onde não existem pruridos éticos.
O centro financeiro de Londres, informalmente conhecido como The City
Para lá da genuína simpatia que possam (eventualmente) nutrir pelo ideário de extrema-direita, Elon Musk, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Jensen Hueng, Sundar Pichai, Tim Cook e Peter Thiel têm vantagens materiais substanciais a colher do crescimento dos partidos eurocépticos de direita, pois a divisão da Europa dá força às mega-empresas.
Apesar dos benefícios mútuos, as alianças entre tecnoplutocratas e populistas de extrema-direita tendem a ser instáveis e tanto mais o serão se os protagonistas possuírem temperamento impulsivo e ego dilatado, como se viu com o breve e agitado conúbio entre Donald Trump e Elon Musk. A aliança entre populistas de extrema-direita e tecnoplutocratas poderá ser intermitente e produzir, aqui e ali, atritos e efeitos contraproducentes para um lado ou para outro, mas avança, genericamente, na direcção desejada por ambos. E, nos últimos tempos, a inovação tecnológica abriu perspectivas de mudanças sociais, económicas, políticas e morais que se afiguram favoráveis a ambos.
Um cyborg/robot de cozinha “avant la lettre”, ao estilo de Giuseppe Arcimboldo: “Humani victus instrumenta: Ars coquinaria” (c.1569), gravura a partir de pintura atribuída a Giovanni da Monte [Cremasco] (1500-1580) ou ao próprio Arcimboldo (1527-1593)
Próximo capítulo: Civilização ocidental: “O capítulo mais audaz da história do mundo”