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Reportagem. Em frente a Westminster, exigiu-se o Brexit prometido. “É bom perceber que ainda somos muitos” /premium

Mike foi para exigir aquilo em que votou. Graham e Sue foram para lamentar que May não seja Thatcher. E Jessica e Denise voltaram para casa a sentirem-se menos sós. Reportagem em Londres.

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Reportagem da enviada especial ao Reino Unido

O dia 29 de março era suposto ser um dia de festa — pelo menos para alguns. O grupo Leave Means Leave (“Sair Significa Sair”), do qual faz parte o antigo líder do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP) Nigel Farage, até tinha organizado um “Grande Celebração pelo Brexit” em frente ao Parlamento. “Venha festejar a saída do Reino Unido da União Europeia”, prometia a campanha.

Com os acontecimentos das últimas semanas a deixarem claro que, a sair, o Reino Unido já não o faria nessa data, a Leave Means Leave adaptou-se. Organizou uma “Marcha pela Saída”, que partiu de Sunderland, no leste de Inglaterra — região onde se votou em massa pela saída —, e que culminou em Londres, mesmo em frente ao Parlamento, esta sexta-feira. A festa passou a protesto, mas manteve-se. E, para alguns dos milhares que se juntaram em Westminster, o ambiente ainda era de alegria, como atestavam alguns copos de cerveja e garrafas de Prosecco que se passeavam nas mãos de alguns manifestantes.

"We're being Robbed" (Estamos a ser Roubados), diz um cartaz com o rosto de Theresa May de mascarilha (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Mike Ransom juntou-se à marcha no ponto de encontro combinado pela manhã, em Fulham, não muito longe de Stamford Bridge, o estádio onde joga o Chelsea. Nascido e criado no País de Gales, este engenheiro de sinalização ferrovária vive em Londres, “terra de Remainers” há 17 anos. Diz que é precisamente por isso que votou pelo Brexit: “Vejo o que a imigração fez a Londres. A criminalidade invadiu a cidade”, afirma, sem rodeios. Por essa razão, a solução para este galês — que traz consigo a bandeira do País de Gales, bem como uma bandeira onde se lê que os deputados são “traidores” — passa por sair da UE e retomar o controlo da política de imigração nacional.

A raiva contra os políticos: “Infelizmente, a Thatcher está morta, caso contrário isto estaria feito há anos”

O engenheiro de 52 anos não é, contudo, um novato nestas andanças do protesto. Desde outubro, tem tentado vir todas as semanas até às portas do Parlamento manifestar-se, juntamente com um amigo. “Os remainers vêm, portanto achámos que também era importante nós virmos.” A convivência com colegas e amigos que votaram pela permanência na UE — a grande maioria dos que vivem em Londres — não é, no entanto, afetada: “Conseguimos conversar, damo-nos bem”, garante Mike.

Mike tem estado todas as semanas no Parlamento para protestar pelo atraso no Brexit (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Este é, para o galês, um dia triste. “Estou zangado, estou perturbado”, diz ao Observador, embora mantenha o sorriso nos lábios e a boa disposição: “Estou com instintos suicidas!”, acrescenta, rebentando de seguida numa gargalhada. Voltando a assumir o tom sério, passa a explicar o que sente: “Da forma que isto está a correr, perdemos a nossa democracia. Os políticos são mentirosos e não ouvem as pessoas.” A solução, afirma, passa por afastar a grande maioria dos deputados que se sentam no edifício à frente do qual Mike está posicionado: “Nas próximas eleições, eles vão perder. É preciso limpar este pântano”, diz o engenheiro. Trata-se simplesmente de uma questão de “democracia”, sublinha. O Brexit foi votado em referendo e isso precisa de ser respeitado, diz — uma ideia amplamente ecoada pelos discursos que vão sendo desfiados no palco da Leave Means Leave, seja pela voz da trabalhista Kate Hoey, seja pelo empresário e dono de uma cadeia de pubs, Tim Martin.

Uns metros mais à frente, no palco do UKIP,vão desfilando discursos um pouco mais musculados. Tommy Robinson — ex-membro do partido de extrema-direita British National Party (BNP), ligado ao movimento anti-imigração Pegida e atual consultor do UKIP — entra em palco ao som de gritos entusiasmados da multidão, que repete “Tommy! Tommy! Tommy!”. Se no outro palco se sublinha sobretudo que a vitória do Leave foi democrática e que os deputados devem respeitá-la (chegando até a haver declarações sobre como os Remainers que respeitam o resultado do referendo são “aliados da democracia”) Tommy vai ainda mais longe: “Fomos traídos. Hoje era suposto ser o nosso Dia da Independência”, afirma, em cima do palco.

Tommy Robinson, o ativista de extrema-direita que discursou no palco do UKIP (TOLGA AKMEN/AFP/Getty Images)

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O casal Graham Jones e Sue Pierce votaram no Partido Conservador a vida toda, e, no entanto, ali estão agora, a assistir ao discurso de Tommy Robinson. “Depois deste fiasco, nunca mais votaremos nos conservadores. Desiludiram-nos”, diz simplesmente a reformada de 65 anos ao Observador, num tom de voz baixo e calmo. “Mentiram-nos, mentiram-nos, mentiram-nos”, acrescenta o marido, mecânico de motas com o seu próprio negócio, abanando a cabeça com ar descrente.

Graham e Sue, de Brimingham, sempre votaram nos Tories. Agora, por causa do Brexit, apoiam o UKIP (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Residentes em Birmingham, Graham e Sue acordaram bem cedo esta manhã, apanharam um comboio e dirigiram-se a Londres para protestar contra um Governo que os “desiludiu” por não ter cumprido o desejo que expressaram de sair da “ditadura” da UE. Trazem nas mãos pequenas Union Jacks, as bandeiras nacionais, mas não têm consigo nenhuma da parafernália que outros manifestantes usam, como cartazes com frases como “Vocês só tinham um trabalho a fazer” ou “Saída, agora!”. “Isto é mais do que uma desilusão… É algo muito revoltante”, acrescenta Graham, de 63 anos. “Precisamos de uma líder decente. Infelizmente a Thatcher está morta, caso contrário isto estaria feito há anos”, sentencia. Mas o respeito pela antiga primeira-ministra Margaret Thatcher não chega: daqui para a frente, garantem os dois membros do casal ao Observador, só votarão UKIP.

29 de março de 2019, um dos dias “mais tristes da História do Reino Unido” para os que foram a este protesto

Mas a verdadeira estrela política deste protesto está precisamente no palco que fica do outro lado da Praça do Parlamento. Já foi, em tempos, o líder do UKIP — e aquele que levou o partido ao melhor resultado eleitoral de sempre, vencendo as eleições europeias de 2014 —, mas agora está por sua conta. Bateu com a porta no final de 2018, criticando a “fixação anti-Islão” do partido e dizendo que “a ideia de Tommy Robinson estar no centro do debate do Brexit é demasiado horrível para considerá-la sequer”.

E, embora Tommy tenha sido recebido com entusiasmo no palco do UKIP, é Nigel o verdadeiro centro das atenções deste protesto. Quando surge perante a multidão, o barulho torna-se ensurdecedor. Farage começa por classificar o dia como “um dos períodos mais tristes da História do Reino Unido”. Ao mesmo tempo, cá em baixo, um jovem atravessa a praça em passo acelerado e vaia o eurodeputado, recebendo automaticamente resposta de uma mulher de meia-idade, que lhe atira um insulto. Farage, em cima do palco, vai prosseguindo: “Estou determinado a lutar contra esta classe política”, afirma. A multidão grita “Nigel! Nigel! Nigel!”

Nigel Farage no palco da manifestação do Leave Means Leave (DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP/Getty Images)

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Garantindo que os leavers não serão “derrotados pelas mentiras” dos deputados, Farage pede ânimo aos que tem pela frente e promete dar luta: “Se isto significa que teremos que lutar nas eleições europeias de 26 de maio, eu irei combater”, promete, provocando novos gritos pelo seu nome. “Eles acham que estão a ganhar”, diz, apontado em direção ao edifício principal do Parlamento. “Mas isso é porque vivem na bolha de Westminster. Já nós, nós conhecemos o povo. E vamos ganhar.” O aplauso é com estrondoso.

O discurso acaba num tom menos apoteótico do que o habitual para um comício, talvez porque o dia, para esta multidão, é, apesar de tudo, algo triste. Mas rapidamente a organização se prepara para acabar o evento numa nota mais positiva, pedindo aos manifestantes que entoem a canção I vow to Thee My Country e, por fim, a Rule, Britannia. A letra vai aparecendo no ecrã, para permitir o karaoke coletivo, e a multidão acompanha: “Os bretões nunca, nunca, nunca serão escravos”, prometem, alguns mais afinados do que outros. Muitos levam a mão ao peito.

“Sempre me senti um pouco solitária com as minhas crenças. Foi por isso que soube tão bem isto hoje”

Com o evento principal a chegar ao fim, as amigas Jessica e Denise preparam-se então para voltar para casa e apanhar o comboio de regresso a Hertfordshire, o condado que fica a norte da grande Londres. A identificá-las como parte do protesto está apenas um pequeno autocolante branco que Jessica tem na lapela, dizendo “Eu votei para Sair”. Mas não se pense que as duas inglesas são menos apoiantes do resultado do referendo por não terem cartazes nem bandeiras. “Da forma que está organizada, a UE só traz corrupção”, sentencia a designer Jessica.

“Na semana passada, vimos a marcha dos Remainers e decidimos que tínhamos de vir hoje. É preciso lutar contra isto. Sinto-me arrasada”, confessa ao Observador a cabeleireira Denise. O dia 23 de junho de 2016, dia do referendo, parece já ter sido noutra vida. “Fiquei muito surpreendida, mas muito feliz”, recorda Jessica, de 40 anos. A amiga Denise, ligeiramente mais velha (42), apressa-se a acrescentar que, por seu turno, já estava à espera da vitória do Leave. “Sempre acreditei que era possível ganharmos. Só que sentia que não podia gritar isso aos sete ventos. Sempre me senti um pouco solitária com as minhas crenças. Foi por isso que soube tão bem isto hoje”, diz, o rosto abrindo-se num largo sorriso. “É bom estar aqui hoje e perceber que ainda somos muitos”, acrescenta.

Jessica concorda: “Tem havido uma campanha de difamação contra nós, a tentarem retratar-nos como se fôssemos todos racistas”, lamenta. “Sinto-me muito zangada. E esta ideia de um segundo referendo, é algo que não é democrático.” A amiga concorda. Acredita que o Brexit acabará por acontecer, mas que o processo será retardado e levará ainda mais tempo. Para já, gostava que o acordo de Theresa May tivesse sido aprovado. Não porque seja um bom acordo mas porque, nas suas palavras, “é melhor do que não ter Brexit”.

Jessica e Denise vieram de Hertfordshire para encontrar outros Leavers como elas (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Apesar de o dia 29 de março não ter sido, como inicialmente se esperava, o dia do Brexit — e sim o dia em que o acordo de May foi chumbado pela terceira vez pelos deputados britânicos —, Jessica e Denise voltam para casa reconfortadas por perceberem que não estão sós. Como elas, há ainda muitos leavers que não vacilaram na sua determinação de sair da UE, apesar de mais de dois anos de negociações arrastadas, e que, caso um segundo referendo venha a concretizar-se, prometem manter-se firmes. “Se aqueles hipócritas nos forçarem a ter um segundo referendo”, declarou a certa altura a trabalhista Kate Hoey no palco, apontando para o edifício da instituição da qual também faz parte, “vamos votar e vamos ganhar outra vez”.

A frase dá alento à multidão que regressa a casa, desembocando nas entradas para o metro. “Zangado” é o adjetivo que praticamente todos os leavers usam para descrever aquilo que sentem sobre o dia em que era suposto terem saído da UE, mas a maioria segue agora de sorriso no rosto e passo lento, amparados por amizades feitas no momento ou pelo alento de ter visto outros milhares como eles. A promessa deixada por Farage e companhia foi a de continuar a lutar pelo Brexit e isso, para já, chega-lhes para desmobilizarem. Para trás, junto aos caixotes do lixo, ficam as garrafas de Prosecco — o vinho italiano que os britânicos adoram, mas cujo preço, se o Brexit se consumar, pode vir a subir. Hoje era para ser dia de festa. Não sendo, o vinho frisante sempre deu para afogar as mágoas.

Garrafas de Prosecco e lixo que ficaram para trás depois da manifestação (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

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